Os cristãos sempre recomendaram as vidas dos fiéis às orações intercessórias de cristãos zelosos, mesmo que estes já não estejam mais no corpo. Isso decorre da fé na Vida Eterna e na Unidade do Corpo de Cristo. Ao partirem, os salvos não têm sua obra e participação no plano redentivo terminadas, mas devem dar continuidade a ela no céu, agora aperfeiçoados plenamente por Deus. Se quiser saber mais sobre o assunto, leia Orações aos Santos e Anjos na Igreja dos Primeiros Séculos, e mais aqui, Por que a Igreja Primitiva pedia a Intercessão dos Mártires Mortos? Agora, uma doutrina assim tão difundida, é claro, contou com lucubrações, mesmo que tímidas, reticentes e relutantes a princípio.
Vejamos algumas ocasiões:
Agostinho sobre a Proibição de Adoração aos Santos
Farei uso de escritos refletidos e grafados em momentos nos quais a Teologia foi levada a dar respostas sobre o além, mesmo timidamente, sendo grande o mistério envolvendo-o. O doutor e teólogo eleito por mim foi Santo Agostinho, maiormente, não por escolha minha, mas simplesmente porque foi ele o Padre que mais ousou falar sobre isso. Penso eu, por sua própria personalidade e caráter, sendo um homem que buscava instrumentalizar a inteligência ao serviço da revelação e explicar racionalmente a fé, de maneira que quase sempre que encontramos alguma voz lidando com detalhes doutrinários sobre temas intrincados, é a voz dele que ouvimos. Os trechos usados são variados, advindos de uma vida inteira entregue ao pastorado dos fiéis, quando escrevia à Igreja a fim de instruir as ovelhas com a Sã Doutrina. Analisamos Sermões, a excelentíssima obra Cidade de Deus, sua autobiografia Confissões, uma Carta contra [o Maniqueu] Fausto, na qual foi enfático ao apresentar a diferença entre a veneração aos santos e o culto a Deus [latria], e alguns trechos de De Cura Pro Mortuis Gerenda [O Cuidado Devido aos Mortos], em que escreve sobre este tema ao seu amigo Paulino de Nola. Este não é um trabalho acadêmico, e, portanto, bastante conciso, mas creio ser útil a quem tem apreço pela Teologia.
Primeiramente, tenhamos em mente a questão da terminologia [à época, ainda em construção]: Em Contra Fausto, Agostinho cita a palavra grega “latria” para indicar adoração a Deus, que é diversa da honra religiosa ou reverência dada pelos fiéis aos mártires [leia-se “santos”]. Declara ser verdade que os crentes tomam parte nos méritos dos santos e que também a Igreja crê com firmeza que são ajudados por suas orações no céu, mas também informa a linha que separa a veneração santa e saudável que é dirigida aos mártires daquele sentimento proibido de se ter a alguma criatura, isto é, a Adoração. Devem todos compreender que a memória do mártir sendo celebrada é tão somente a demonstração da glória do Deus que o coroou. É evidente que os cristãos não tinham dúvidas sobre isso, algo já citado como acusação contra a Igreja nas Atas do Martírio de São Policarpo, mas a suspeita nasceu em ambos os casos no seio herético, presente entre os infiéis, que buscavam ocasião para acusar os católicos. Veja:
Sendo assim, ele [o diabo] levantou Nicetas, pai de Herodes e irmão de Alce, para implorar ao magistrado que não entregasse o corpo de Policarpo, segundo ele, “porque eles [os cristãos] poderiam abandonar o crucificado e começar a adorar este homem” [Policarpo]. Ele disse isso por instigação e súplica insistente dos judeus, que também viram quando nós estávamos prestes a tirar Policarpo do fogo, não sabendo eles que nos seria impossível abandonar, seja em qualquer tempo, o Cristo que sofreu pela salvação de todo o mundo, por aqueles que são salvos – os quais sofrem, embora irrepreensíveis por parte dos pecadores – tampouco nos seria possível adorar qualquer outro. Pois nós o adoramos por Ele ser o Filho de Deus, mas os mártires, tal como discípulos e imitadores do Senhor, por eles nós temos estima segundo seus méritos, em razão de sua afeição incomparável para com o seu Rei e Mestre.
O Martírio de Policarpo, 17. Ano 155-156 d. C.
O Doutor da Graça mantém a mesma ortodoxia presente na Ata do Martírio, afirmando eloquentemente, desta vez não contra os magistrados pagãos (instigados por judeus), que os cristãos jamais trocariam Cristo pelos Santos, mas a Fausto, o maniqueu. Ele afirma categoricamente que a própria oferta eucarística (Sacrifício da Missa) não é ao santo destinada. Não se oferta o Sacrifício “a Pedro, ou a Cipriano”, diz Agostinho. E ainda que a celebração seja feita próxima ou sobre seu túmulo, para memória de seus dias de festa, Deus recebe o louvor e a oferenda da Igreja. Veja:
AGOSTINHO DE HIPONA
- A OFERTA NO ALTAR CONTA COM AS ORAÇÕES DOS SANTOS NO CÉU
Existe uma disciplina eclesiástica, como sabem os fiéis, quando os nomes dos mártires são lidos em voz alta naquele local do altar de Deus, onde não se faz oração por eles. A oração, no entanto, é oferecida por outros mortos que são lembrados. É errado orar por um mártir, a cujas orações nós mesmos devemos ser recomendados.
– Sermões 159:1, ano 411 d.C.
- A OFERTA E O CULTO DE LATRIA É SOMENTE A DEUS NA FIGURA DO SACRIFÍCIO [MISSA]
É verdade que os cristãos prestam honra religiosa à memória dos mártires, tanto para nos estimular a imitá-los como para obtermos a participação em seus méritos e a ajuda de suas orações. Mas nós construímos altares não para qualquer mártir, mas para o Deus dos mártires, embora seja em memória aos mártires. Ninguém oficiando no altar no cemitério dos santos jamais declara: Nós trazemos uma oferta a você, ó Pedro! Ou a ti, ó Paulo! Ou a tu, ó Cipriano! A oferenda é feita a Deus, que deu a coroa do martírio, enquanto é realizada em memória dos que foram assim coroados. A emoção aumenta pelas associações do lugar, e o amor é estimulado tanto por aqueles que são nossos exemplos (os santos) quanto por Aquele por cuja ajuda podemos seguir tais exemplos. Consideramos os mártires com a mesma intimidade afetuosa que sentimos para com os homens santos de Deus nesta vida (na terra), quando tomamos ciência de que seus corações estão preparados para suportar o mesmo sofrimento pela verdade do evangelho.
Há mais devoção em nosso sentimento para com os mártires, porque sabemos que seu conflito acabou; e podemos falar com maior confiança em louvor daqueles que já são vencedores no céu, do que daqueles que ainda estão na batalha aqui. O que é culto propriamente divino, aquilo que os gregos chamam de LATRIA, e para o qual não existe palavra em latim, tanto na doutrina quanto na prática, nós damos somente a Deus. A este culto pertence a oferta de Sacrifícios; como vemos na palavra idolatria, que significa dar esta adoração a ídolos. Sendo assim, nunca oferecemos, ou exigimos que alguém ofereça, sacrifício a um mártir, ou a uma alma santa, ou a qualquer anjo. Qualquer pessoa que caia nesse erro é logo instruída pela doutrina, seja no sentido de correção ou para ter cautela […] Sacrificar aos mártires, mesmo em jejum, é pior do que retornar para casa embriagado da festa: digo sacrificar aos mártires, que é diferente de sacrificar a Deus em memória dos mártires, como fazemos constantemente, em conformidade com a maneira exigida desde a revelação do Novo Testamento…
– Santo Agostinho, Contra Faustum, Livro XX, 397 d. C.
Outro Momento, Mesma Lição
Santo Agostinho reitera a Proibição cristã de Ofertar aos Santos [o que constitui “Latria”] agora pela repreensão do bispo Ambrósio …
Já ficou claro que há limites com respeito à devoção aos santos, como demonstrado acima. Todavia, devo apresentar mais um exemplo tirado da autobiografia de Santo Agostinho chamada Confissões. Ele já havia declarado a proibição de se oferecer a Missa (o sacrifício do Calvário) em favor dos santos, mas um episódio envolvendo sua mãe Mônica, nos permite ficar ainda mais cientes da rigidez da disciplina com que os cristãos se acautelavam de excessos. Em todas as coisas eles desejavam dar bom testemunho, e foi justamente esse zelo que levou Santo Ambrósio a proibir a entrada de Mônica na Igreja Católica, quando esta começou a oferecer aos mártires alimentos, como pães e vinho. O motivo, segundo esse santo homem de Deus, que grandemente contribuiu para a conversão de Agostinho, é evidente: deve haver cuidado para os cristãos não incorrerem nas práticas dos pagãos! Mesmo que com boa intenção.
- NÃO SE DEVE FAZER OFERENDA AOS SANTOS: PETIÇÕES E ESMOLAS SÃO SUFICIENTES
Capítulo II – Quando, pois, certa vez, minha mãe – como era seu costume na África – trouxe para os oratórios construídos em memória dos santos certos bolos, pão e vinho, e foi proibida pelo porteiro, tão logo ela soube que fora o bispo que o havia proibido, tão piedosa e obedientemente se submeteu a ele, que eu mesmo fiquei maravilhado com a facilidade com que ela conseguia acusar seu próprio costume, em vez de questionar a proibição feita a ele. Pois beber vinho não tomou posse de seu espírito, nem o amor ao vinho a estimulou ao ódio contra a verdade, como faz a muitos, homens e mulheres, que se enjoam com uma canção de sobriedade, tal como homens bem bêbados em uma corrente de água. Mas ela, quando trazia a cesta com as carnes festivas, das quais provaria primeiro e daria o que sobrasse, nunca se permitia mais do que um copinho de vinho, diluído de acordo com seu próprio paladar temperado, que, fora de cortesia, ela provaria. E se havia muitos oratórios de santos falecidos que deveriam ser honrados da mesma maneira, ela ainda carregava consigo o mesmo cálice, para ser usado em todos os lugares; e este, que não só era muito regado, mas também muito morno de carregar, ela distribuía em pequenos goles àqueles que estavam ao redor; pois buscava sua devoção, não o prazer. Logo, portanto, quando ela descobriu que esse costume era proibido por aquele pregador famoso e piedoso prelado, mesmo àqueles que dele fizessem uso com moderação, para que não se tornasse isso uma ocasião de excesso aos bêbados, e porque tais festivais em homenagem aos mortos, por assim dizer, eram muito parecidos com a superstição dos gentios, ela se absteve de boa vontade. E assim, em vez de um cesto cheio de frutos da terra, ela aprendera a levar aos oratórios dos mártires um coração cheio de petições mais purificadas, e a dar tudo o que pudesse aos pobres; isso com o fim de que a comunhão do corpo do Senhor fosse justamente celebrada ali, onde, a exemplo de sua paixão, os mártires foram sacrificados e coroados.
Confissões, Livro VI, cap. II. entre os anos de 397 e 398 d. C.
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Os pagãos costumavam barganhar com os seus deuses dando-lhes oferendas como bolos, pães, vinhos e bolachas, mas para um cristão, isso não deve ocorrer. Essa prática pagã, no entanto, permanece mesmo hoje entre alguns meios sincréticos. Os santos não precisam de nada de nossa mão! Eles estão na glória e, devemos admitir, em situação bem melhor que a nossa, dos vivos na terra, pois eles estão com Deus! É verdade que é permitido pedir-lhes a intercessão com a promessa de alguma disciplina espiritual, por exemplo, para que nós mesmos sejamos exercitados na humildade e na disciplina, mas não convém oferendas. Na época de Agostinho, em vista das religiões e festas pagãs ao derredor, a necessidade de cautela era redobrada, para evitar mau testemunho. Além disso, a argumentação é ainda mais profunda: os santos não são deuses, sendo a oferta geuína dirigida a Deus. É necessário afastar-se de toda aparência do mal. E como era comum aos pagãos fazerem oferendas de comida aos deuses, convinha aos cristãos se apartarem de tais coisas. FOI A ADVERTÊNCIA DE AMBRÓSIO e Agostinho a acatou com sua mãe. Somente orações purificadas com sentimento de humildade e esmolas dadas com amor genuíno aos pobres são recomendáveis e aceitáveis.
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Santa Mônica, sendo uma serva de Cristo, acatou toda a recomendação do Bispo Ambrósio humildemente. Ela não ficou chateada ou escadalizada pela reprimenda. Não tinha realizado a prática por má intenção, já que era uma cristã zelosa e amava a Deus, mas por uma ingenuidade sua, o que a levou a fazer algo que escandalizava a Igreja. É por isso que s. Agostinho a elogia por sua brandura e submissão. Sobre o trecho, podemos perceber mais uma vez que os bispos e teólogos cristãos entendiam os limites da sua relação com os santos, educando os fiéis com presteza e dedicação. Eles também tinham ciência da diferença entre eles e os pagãos.
Agostinho sobre a Eficácia de Sepultar próximo aos Santos
- SEPULTAR MORTOS EM TÚMULOS PRÓXIMOS DOS SANTOS NÃO AJUDAM: ORAÇÕES PELO DEFUNTO OU DIRIGIDAS AOS SANTOS AJUDAM
Agostinho sobre Sonhar com os Mortos
- SONHAR COM MORTOS NÃO SIGNIFICA NECESSARIAMENTE SUA PRESENÇA
Agostinho sobre o Mistério de como os Santos ouvem nossas Orações
Também o Doutor da Graça inquiriu acerca do maravilhoso mistério que envolve a atuação dos santos em nosso mundo. Quando ponderava acerca disso, em seu livro O Cuidado Devido aos Mortos, travou o seguinte argumento, demonstrando sua humildade com respeito a assuntos tão ocultos: Não há dúvida de que os santos respondem as orações dos vivos, concluiu, e que tal poder não provém deles mesmos, mas de Deus; contudo, a maneira como se dá tal fenômeno, não se sabe. Em humildade, porém, Agostinho sustenta ser possível que alguém saiba, mesmo que ele mesmo não tenha alcançado, e que Deus pode levantar doutores à Igreja para investigar e aprofundar este tema em época oportuna. Novamente, a fé de Agostinho na Providência e no Cuidado de Deus para com a Igreja Católica é notória. É Deus quem enriquece Sua Casa, disse, com muitos e variados dons, mas ele mesmo não tinha ciência de como se dava tal Milagre.
- O PODER MISTERIOSO DE DEUS AO PERMITIR A PARTICIPAÇÃO DOS SANTOS NA PROVIDÊNCIA
Tudo o que foi escrito até agora serve para resolvermos esta questão: como os mártires que se interessam pelas coisas humanas se manifestam, atendendo as nossas orações, uma vez que os mortos ignoram o que fazem os vivos? Com efeito, sabemos, não por vagos rumores, mas por testemunhas dignas de fé, que o confessor Félix – cujo túmulo tu veneras piedosamente como santo asilo – deu não apenas mostras de seus benefícios, mas até de sua presença, ao aparecer aos olhos dos homens durante o cerco da cidade de Nola pelos bárbaros. Esses fatos excepcionais acontecem graças à permissão divina e estão longe de entrar na ordem normalmente estabelecida para cada espécie de criatura. Não podemos concluir pelo fato da água ter se transformado em vinho pela palavra do Senhor, que a água tenha poder de operar por si mesma essa transformação pela propriedade natural de seus elementos, visto que tratou-se de uma operação divina excepcional e até única! Também o fato de Lázaro ter ressuscitado não significa que todo morto possa se levantar quando quiser ou que possa ser normalmente acordado como qualquer homem adormecido.
Uns são os limites do poder humano; outras são as marcas do poder divino. Uns são fatos naturais; outros, miraculosos, ainda que Deus esteja presente na natureza para a manter na existência e a natureza tenha seu lugar inclusive para os milagres. Assim, é necessário não crer que todos os defuntos – sem excessão – podem intervir nos problemas dos vivos apenas pelo fato de que os mártires tenham obtido curas ou prestado outros socorros. É preciso compreender, ao invés, que é por causa do poder de Deus que os mártires intervêm nos nossos interesses, pois os mortos não possuem tal poder por sua própria natureza. Há, porém, uma questão que ultrapassa os limites da minha inteligência: como os mártires, que sem sombra de dúvida socorrem seus devotos, aparecem… em pessoa e no mesmo momento? em vários lugares e afastados uns dos outros? sua ação se faz notar apenas onde se encontra o seu túmulo ou em qualquer outro lugar? se permanecem confinados na morada reservada a seus méritos, longe de qualquer relacionamento com os mortais, contentam-se em interceder pelas necessidades daqueles que lhes suplicam?
Oram da mesma forma que nós oramos pelos mortos, sem estar presentes e sem saber onde estão e o que fazem? Não será Deus, o Deus onipotente e onipresente, que não se acha confinado em nós e muito menos afastado de nós, que atende as orações dos mártires, servindo do ministério dos anjos, cuja ação se estende sobre todas as coisas, para distribuir o consolo aos homens que Ele julga ser necessário para enfrentar as misérias da vida presente? Não será Ele que, com poder admirável e infinita bondade, faz resplandecer os méritos dos mártires onde Ele quer, quando quer, como quer, especialmente nos locais onde se ergueram suas sepulturas, por saber que a lembrança dos sofrimentos suportados em confissão a Cristo, nos é útil para nos confirmar na fé? Repito: esta é uma questão muito elevada e complexa para mim, de forma que não a posso explicá-la a fundo… Dessas duas hipóteses que indiquei, qual será a verdadeira? Talvez os dois processos sejam empregados em conjunto, de maneira que, às vezes, os mártires nos atendem com sua presença pessoal, e, às vezes, por intermédio dos anjos que tomam a sua forma. Não ouso decidir e preferiria esclarecer-me junto a homens sábios que conheçam o assunto. Não digo que ignore ou imagine que saiba pois é impossível que não haja alguém que saiba porque Deus, em suas liberalidades, concede certos dons a alguns e outros dons a outros, conforme o ensino do Apóstolo que diz que a ação do Espírito Santo manifesta-se em cada um de acordo com uma utilidade comum.
O Cuidado Devido aos Mortos, cap. XVI, ano 421 d. C.
S. Agostinho nos brinda com sua modéstia. Hoje e dia, há pessoas que, ao perguntarem aos católicos por quais meios os santos respondem às orações, ou como realizam a maravilha se não são eles oniscientes como Deus, ficam descontentes com a resposta. A maioria, inclusive, até mesmo pressupõe uma onisciência [ainda que nenhum católico jamais a tenha ensinado] e saem exclamando impropérios contra os cristãos, julgando que eles equiparam os santos a Deus. Mas isso se deve a suas próprias imaginações. Embora jamas o Catecismo tenha chamado os santos de oniscientes, eles já têm isso como certeza, reinvindicando uma resposta do católico sem o desejo de realmente meditar sobre ela. S. Agostinho foi humilde o suficiente para dizer que não sabe. Ou seja, nem mesmo ele entendia como ocorria o mistério da ciência dos espíritos dos mártires com respeito aos vivos, apesar de saber se tratar de uma verdade que não podia ser negada. Simplesmente aontava o poder de Deus como causa, que atua em mistério. É bem verdade que a Igreja já avançou nesse mistério, e há muitas argumentações atuais teológicas sobre isso. Sabemos, por exemplo, que os santos estão com Deus, e que participam de sua Vida [Theosis], mas a Igreja não formulou extensivamente uma resposta. Por isso, não há vergonha alguma em admitir que não compreendemos bem como ocorre, sendo-nos tão somente permitido dizer, como o Bispo de Hipona, que uma coisa é certa: é pelo poder de Deus que tais maravilhas ocorrem para o bem de sua Santa Igreja.
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