Imagine que você esteja em um futuro onde a tecnologia permitiu ao homem construir a tão afamada máquina do tempo. Você então decidiu viajar para algum período de tempo nos primeiros anos da era cristã. Você se depara com uma Igreja que realiza missa (sacrifício) em favor de fiéis mortos e que pede a Intercessão de mártires mortos, da santa Mãe de Deus Maria e dos Anjos. Qual seria a sua reação? De fato, para os católicos, não haveria surpresa alguma. Mas muitos outros estranhariam. Pensando nisso, decidi escrever esse texto contendo um pequeno resumo acerca dos papéis dos intermediários na Igreja Primitiva, bem como os limites do comportamento dos fiéis com respeito a eles. Caso você sinta curiosidade acerca do motivo pelo qual os primeiros cristãos faziam isso, sugiro a leitura introdutória do texto Por que a Igreja Primitiva pedia a Intercessão dos Mártires Mortos? Você também pode ler sobre a Missa Primitiva e a oferta do Sacrifício citada acima aqui.
A Fé na Vida Eterna tem Origem no Judaísmo
Muitos israelitas já apresentavam uma compreensão altamente semelhante à do Cristianismo, mesmo antes do nascimento deste, o que levou alguns historiadores a constatar que a origem da Intercessão dos santos cristã seja a teologia do além judaica, isto é, um conjuto de doutrinas acerca daquilo que ocorre com a alma após a morte. Há um sistema de crenças bastante interessante nesse sentido, e que era anterior ao período neotestamentário, além de ser difundido amplamente na época de Jesus e dos apóstolos, sobretudo em seus círculos religiosos. Você pode percebê-lo no seguinte trecho:
“Eis o que vi: Onias, que foi sumo sacerdote, homem nobre e bom, modesto em seu aspecto, de caráter ameno, distinto em sua linguagem e exercitado desde menino na prática de todas as virtudes, com as mãos levantadas, orava por todo o povo judeu. Em seguida, apareceu do mesmo modo um homem com os cabelos todos brancos, de aparência muito venerável e nimbado por uma admirável e magnífica majestade. Então, tomando a palavra, disse-lhe Onias: ‘Eis o amigo de seus irmãos, aquele que reza muito pelo povo e pela cidade santa, Jeremias, o profeta de Deus’.”
II Macabeus, 15: 12-14 – Bíblia Católica Online
Esse relato de 2 Macabeus é anterior à época de Cristo, apresentando um testemunho intrigante acerca dos judeus naquele período: ele envolve a intercessão de justos [após a morte] em favor de eventos e pessoas que estão na terra. Ainda que tal relato não seja recepcionado como canônico por aqueles que negam a doutrina da intercessão dos santos, ele era considerado verídico pela Igreja Primitiva e NÃO HÁ DÚVIDAS DE QUE FORNECE UMA IDEIA DE COMO A MENTALIDADE JUDAICA ENTENDIA A MORTE E AQUILO QUE OCORRE ÀS ALMAS DE ALGUNS HOMENS APÓS ELA. Essa compreensão não desapareceu do Judaísmo. Se você quiser ler mais sobre o assunto, sugiro os textos A Intecessão dos Tzadikim no Judaísmoe também Orações de Judeus aos Anjos e a Outros Intermediários durante os Primeiros Séculos da Era Comum: Uma Análise. Veja que no trecho, Onias, um sacerdote que havia sido morto, aparece a Judas macabeus orando pelo povo, juntamente com o profeta Jeremias em sonho, que também havia morrido, orientando o judeu fiel da Tradição e da Religião de seus pais a não temer os inimigos de Israel, pois Deus lhes daria a Vitória sobre o inimigo estrangeiro: ‘Eis o amigo de seus irmãos, aquele que reza muito pelo povo e pela cidade santa, Jeremias, o profeta de Deus.’ Em outras palavras, Jeremias foi chamado “O Intercessor de Israel”. Parece familiar?

Jeremias e Onias aparecem orando após a Morte a Judas Macabeus (Domínio Público)
Júlio Schnorr von Carolsfeld (1794–1872)
Antes disso, em Daniel, os Arcanjos Miguel e Gabriel também são apresentados como protetores do povo judeu numa batalha espiritual (Daniel 10: 21), o que demonstra a atuação também angélica neste quesito. E Cristo menciona os anjos que assistem os pequeninos ao comparecerem diante do Altíssimo (Mateus 18: 10). Se o que eles apresentam a Deus como defesa pelas almas dos pequeninos não são suas orações, então de onde provém sua força para atuar na vida deles? Jesus garante que eles têm grande poder de convencimento, pois avisa seus ouvintes: “Cuidado para não desprezarem os pequeninos”. E a razão é: “porque seus anjos veem a face do Pai”. Se não a pedem a Deus (orando) por esses pequeninos, então qual é fonte de seu poder? E por que motivo Jesus orienta a tomarmos cuidado? Lembrem-se que a Bíblia mostra uma passagem de Intercessão de Anjos muito explícita em Zacarias 1:
O anjo do Senhor disse: Senhor dos exércitos! Até quando ficareis insensível à sorte de Jerusalém e das cidades de Judá? Já faz setenta anos que estais irritado contra elas!
O Senhor respondeu ao anjo que me falava, e disse-lhe boas palavras, cheias de consolação.
E o anjo disse-me: Proclama o seguinte: eis o que diz o Senhor dos exércitos: estou animado de ardente amor por Jerusalém e por Sião porém, sumamente irritado contra as nações que vivem despreocupadas.
Veja que o Anjo intercede por Israel ao perguntar ao Senhor quando Ele mudará a sorte do povo, e Deus lhe responde favoravelmente. Leia mais sobre a intercessão dos anjos aqui. Então o que temos? Os cristãos que pediam aos mártires que orassem por eles no céu [e aos anjos] não faziam isso baseados em algum dado estranho à época, mas em tradições presentes na cultura de onde o Cristianismo nasceu: o Judaísmo.
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Alguns Exemplos
- OS SANTOS
INÁCIO DE ANTIOQUIA
Meu espírito se sacrifica por vós, não somente agora, mas também quando eu chegar a Deus.
– Aos Tralianos, n. 13:3, ano 107 d.C.
HIPÓLITO DE ROMA
Diga-me, vós, três meninos [Sadraque, Mesaque e Abede Nego], lembrai-vos de mim, eu vos imploro, para que eu também possa obter o mesmo martírio junto de vós…
Comentário de Daniel, Livro II, 30: 1, ano 204
CLEMENTE DE ALEXANDRIA
Desta forma, ele [o verdadeiro cristão] sempre se encontra purificado para a oração. Ele também ora na sociedade dos anjos, como sendo já de categoria angelical, nunca estando fora da sagrada proteção deles; e embora ore sozinho, tem o coro dos santos de pé com ele [em oração].
– Miscellanies 7: 12, ano 208 d.C
ORÍGENES
Mas não somente o Sumo Sacerdote (Cristo) ora por aqueles que pedem com sinceridade, mas também os anjos […] como também as almas dos santos que já dormem.
– Sobre a Oração, 11, ano 233 d.C
SÃO CIPRIANO DE CARTAGO
Lembremo-nos uns dos outros em concórdia e unanimidade. Vamos em ambos os lados [seja na vida ou na morte] sempre orar uns pelos outros. Aliviemos os fardos e aflições uns dos outros através do amor mútuo, para que se um de nós, pela rapidez da condescendência divina, partir primeiro, nosso amor possa permanecer na presença do Senhor, e assim nossas orações por nossos irmãos e irmãs não cessarão diante da misericórdia do Pai.
– Carta 56 [60]: 5, ano 253 d. C.
SÃO METÓDIOS
E você também, ó honrado e venerável Simeão, primeiro anfitrião de nossa santa religião cristã e professor da doutrina da ressurreição dos fiéis, interceda junto ao Deus Salvador, Aquele a quem você foi tido como digno receber em seus braços. Nós, juntamente contigo, cantamos nossos louvores a Cristo, que tem o poder da vida e da morte, dizendo: ‘Vós sois a verdadeira Luz, que procede da verdadeira Luz; o Deus verdadeiro, gerado do Deus verdadeiro’.
– Oração sobre Simeão e Ana 14, ano 305 d. C.
SÃO CIRILO DE JERUSALÉM
Então (durante a Oração Eucarística), mencionamos também aqueles que já adormeceram: primeiro os patriarcas, profetas, apóstolos e mártires, para que por meio de suas orações e súplicas Deus receba o nosso pedido.
– Cartas Catequéticas, 23: 9, ano 350 d. C.
SÃO GREGÓRIO DE NYSSA
[Santo Efrém], você que está de pé no altar divino [no céu]… leve-nos a todos em memória, pedindo em nosso favor a remissão dos pecados e a fruição de um reino eterno.
– Sermão sobre Efrém, o Siro, ano 380 d. C.
SANTO EFRÉM O SIRO
Vós, mártires vitoriosos que sofreram tormentos de bom grado por amor a Deus e Salvador, vós que tendes a coragem para falar ao próprio Senhor, vós santos, intercedei por nós, que somos homens tímidos e pecadores, cheios de preguiça, para que a graça de Cristo possa vir sobre nós, e iluminar os corações de todos de maneira que possamos amá-lo.
– Comentário sobre Marcos, ano 360 – 373 d.C
Lembre-se de mim, herdeiros de Deus, irmãos de Cristo! Suplicai fervorosamente por mim ao Salvador, para que eu possa ser libertado por meio de Cristo daquele que combate contra mim dia após dia.
– O Medo no Fim da Vida, ano 370 d. C.
GREGÓRIO NAZIENZO
Que você [S. Cipriano] olhe de cima para nós e seja propenso, guiando nossa palavra e vida; pastoreando este rebanho sagrado… Alegra, ó Cipriano, a Santíssima Trindade, diante da qual tu estás.
– Orações 17 [24], ano 380 d. C.
“Sim, estou certo de que a intercessão [de meu pai] tem mais valor agora do que a sua instrução nos dias anteriores, uma vez que está mais perto de Deus, agora que se livrou de seus grilhões corporais e libertou sua mente do barro que a obscurecia…”
– ibid. 18: 4, ano 380 d. C.
SÃO JOÃO CRISÓSTOMO
Quando perceber que Deus está te castigando, não voe para os inimigos dEle… mas para seus amigos, os mártires, os santos e aqueles que foram agradáveis a Ele, e que têm grande poder em Deus.
– Oração 8: 6, ano 396
E Alexandre, de fato, depois de sua morte, nunca mais restaurou seu reino, que havia sido dilacerado e totalmente abolido. De fato, como seria provável que ele assim o fizesse, estando morto? Mas Cristo, acima de todas as coisas, estabeleceu o Seu Reino depois de morto. E por que falo de Cristo? Vendo que Ele mesmo concedeu aos Seus discípulos que também, após a morte, brilhassem? Pois, diga-me, onde está o túmulo de Alexandre? Mostre-me e diga-me o dia em que ele morreu. Mas os túmulos dos servos de Cristo são gloriosos, visto que eles tomaram posse da cidade mais leal; e seus dias são bem conhecidos, com festivais sendo feitos pelo mundo. E quanto à tumba de Alexandre, nem mesmo seu próprio povo conhece, mas tal homem [Cristo] é aquele que os próprios bárbaros conhecem. E os túmulos dos servos do Crucificado são mais esplêndidos que os palácios dos reis; não pelo tamanho e pela beleza dos edifícios (e ainda assim os superam), mas, refiro-me àquilo que é muito superior, pelo zelo dos que os frequentam. Pois aquele que usa púrpura vai abraçar aqueles túmulos e, deixando de lado seu orgulho, implora aos santos que sejam seus advogados junto a Deus, e aquele que tem o diadema implora ao fabricante de tendas [São Paulo] e ao pescador [São Pedro], embora mortos, para sejam seus patronos. Você ousará então, diga-me, chamar o Senhor desses mortos; cujos servos, mesmo após sua morte, são os patronos dos reis do mundo? E isso pode acontecer não apenas em Roma, mas também em Constantinopla.
– Homilias sobre Segunda Coríntios 26:2:5, ano 392 d.C.
AMBRÓSIO DE MILÃO
Que Pedro, que chorou tão eficazmente por si mesmo, chore por nós [também] e faça com que o semblante benigno de Cristo volte-se para nós.
– O trabalho dos Seis Dias 5:25:90, ano 393 d. C.
Elas (As viúvas) devem recorrer aos Apóstolos, que podem nos ajudar, e devem ser introduzidas pela intercessão dos anjos e dos mártires.
– Sobre as Viúvas 9, ano 340-397 d. C.
Os anjos devem ser invocados (obsecrandi, alvo de súplicas), os quais nos foram dados como guardiões; os mártires devem ser invocados, cujo patrocínio reivindicamos para nós mesmos pelo penhor de seus corpos.
ibid. 55, ano 340-397 d. C.
SANTO AGOSTINHO
À mesa do Senhor não comemoramos os mártires como fazemos com os que descansam para orar por eles, mas antes para que eles orem por nós, com o fim de que sejamos capazes de seguir seus passos.
– Homilia sobre João 84, ano 416
Tampouco as almas dos mortos piedosos se encontram separadas da Igreja, que mesmo agora é o Reino de Cristo. Do contrário, não haveria lembrança deles no altar de Deus, na comunicação do Corpo de Cristo.
– A Cidade de Deus 20: 9: 2, ano 419 d. C.
- OS ANJOS
SÃO MACÁRIO DO EGITO
Ele morreu em 391, mas escreveu uma oração a um anjo da guarda que foi preservada:
Santo anjo, a quem esta pobre alma e este meu corpo miserável foram entregues, não me rejeite porque sou um pecador, não se afaste de mim por eu não ser limpo. Não ceda seu lugar ao espírito maligno; guia-me pela tua influência no meu corpo mortal. Tome a minha mão flácida e me conduza até o caminho que leva à salvação. Sim, santo anjo, Deus lhe deu o comando de minha miserável alma e corpo. Perdoe todas as minhas ações que já o ofenderam em qualquer tempo da minha vida; perdoe os pecados que cometi hoje. Proteja-me durante a noite que se aproxima e mantenha-me a salvo das maquinações e artifícios do Inimigo, de modo que eu não acabe pecando e despertando a ira de Deus. Interceda por mim junto ao Senhor; peça-lhe que me faça temê-lo cada vez mais e que me capacite a prestar-lhe o serviço que a sua bondade merece. Amém.
– Oração ao Anjo Guardião, entre os anos 340- 380
O PASTOR DE HERMAS
[O Pastor disse:] ‘Mas aqueles que são fracos e preguiçosos em oração, hesitam em pedir qualquer coisa ao Senhor; mas o Senhor é cheio de compaixão e dá sem falta a todos quantos lhe pedirem. Mas tu, [Hermas], tendo sido fortalecido pelo santo anjo [que viste], e tendo obtido dele tal intercessão, e não sendo preguiçoso, por que não pedes ao Senhor entendimento, e dele o recebes?’
– O Pastor de Hermas, 3:5:4, 80 d.C.
SÃO JOÃO CRISÓSTOMO
O céu não é mais uma parede divisória. A princípio, os anjos eram equivalentes ao número das nações; mas agora, não de acordo com o número das nações, mas com o número dos crentes. A partir de onde isso fica evidente? Ouça Cristo dizendo: Veja, não desprezeis nenhum destes pequeninos, pois seus anjos sempre contemplam a face de meu Pai que está nos céus. [Mateus 18:10] Pois cada crente tem um Anjo; desde o início, cada um dos aprovados tinha seu anjo, como diz Jacó, “o anjo que me alimenta e me livra desde a minha juventude” [Gênesis 48:15-16]. Se temos anjos por perto, sejamos sóbrios, como se estivéssemos na presença de tutores; pois há um demônio presente também. Por isso oramos, pedindo pelo Anjo da paz, e em toda parte pedimos paz (pois não há nada semelhante a isso); a paz, nas Igrejas, nas orações, nas súplicas, nas saudações; e uma vez, e duas, e três vezes, e muitas vezes, aquele que está sobre a Igreja a concede, Paz seja convosco.
– Homilia 3 sobre a Epístola de Colossenses, 360-407
AMBRÓSIO DE MILÃO
Elas (As viúvas) devem recorrer aos Apóstolos, que podem nos ajudar, e devem ser introduzidas pela intercessão dos anjos e dos mártires.
– Sobre as Viúvas 9, ano 340-397 d. C.
Os anjos devem ser invocados (obsecrandi, alvo de súplicas), os quais nos foram dados como guardiões; os mártires devem ser invocados, cujo patrocínio reivindicamos para nós mesmos pelo penhor de seus corpos.
ibid. 55, ano 340-397 d. C.
De fato, incontáveis são os exemplos de cristãos pedindo a intercessão de seus irmãos que já partiram. Esses nomes, em pequeno registro aqui no site, de Santo Hipólito de Roma, Santo Atanásio, Efrém da Síria, Clemente alexandrino, Cipriano de Cartago, Metódios, Cirilo de Jerusalém, Gregório de Nyssa, Gregório Nazienzo, João Crisóstomo, Agostinho de Hipona, Ambrósio de Milão, Cirilo de Alexandria, Tiago de Saroug, Gregório Taumaturgo, Jerônimo, entre outros, demonstra apenas a grande difusão da doutrina como parte da ortodoxia cristã, que vê na fé o caminho para a continuidade da vida humana, mesmo após a morte. Em razão da infalível crença da Igreja Primitiva na Vida Eterna, fortalecida e confirmada pela vitória de Cristo na cruz sobre a morte, desde sua origem, o Cristianismo é uma religião fortemente enraizada na noção de Deus como soberano dos vivos e dos mortos.
Deus os abençoe fortemente.
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