O Sínodo de Laodiceia condena o Culto de Dulia aos Anjos?

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A Intercessão dos Santos e Anjos é um tema polêmico. Os anjos apresentam, desde o Velho Testamento, uma atuação forte entre os filhos de Deus. Sempre foi algo comum, portanto, a compreensão desses seres como criaturas conscientes entre nós, aparecendo com alguma mensagem ou prestando algum socorro. Se você quiser saber mais sobre eles, sugiro o texto: Por que os anjos são chamados espíritos ministradores?. E mesmo que a oração aos anjos não conte com uma rejeição tão grande quanto aos santos, já que o caminho até a prece aos anjos é muito mais natural, ainda assim, ela não deixa de suscitar controvérsia.

 

A Proibição de Adoração aos Anjos

 

Assim como o exemplo dos mártires, a Igreja Primitiva também possuía regras para o tratamento dos anjos. Os cristãos não podiam, por exemplo, oferecer a Missa a eles. Santo Agostinho declarava solenemente: “[…] nunca oferecemos, ou exigimos que alguém ofereça, sacrifício a um mártir, ou a uma alma santa, ou a qualquer anjo. Qualquer pessoa que caia nesse erro é logo instruída pela doutrina, seja no sentido de correção ou para ter cautela”. [Contra Faustum, Livro XX, 397 d. C.] Contudo, uma descrição tem chamado atenção, sobretudo de pessoas contrárias à doutrina apostólica da Intercessão dos Santos [principalmente protestantes]: o cânone 35 do Sínodo de Laodiceia, que proíbe àqueles que tinham o costume de deixar a Igreja, dentro da qual a instrução sobre estes seres era fornecida com prudência, de invocar os anjos, envolvendo-se em idolatria: “Os cristãos não devem abandonar a Igreja de Deus, nem se afastar para invocar anjos e reunir-se em assembleias, coisas que são proibidas”. É verdade que este cânon foi evocado inúmeras vezes por pessoas contrárias à prática da intercessão dos Anjos, mas será que ele promove fundamento à causa delas?

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Vamos considerar o contexto inteiro do Sínodo, analisando o espírito dos devotos que o redigiram. Como? A partir de outros cânones:

 

Can. 9: Os membros da Igreja não têm permissão para se reunir nos cemitérios, nem para assistir aos chamados martírios de quaisquer hereges, para oração ou serviço; mas aqueles que assim o fizerem, se forem comungantes, serão excomungados por um tempo; porém, se se arrependerem e confessarem que pecaram, serão recebidos.. 

Can. 34: Nenhum cristão deve abandonar os mártires de Cristo e se voltar para os falsos mártires, isto é, para os hereges ou para aqueles que antes eram hereges; pois estes são estrangeiros a Deus. Portanto, sejam anátema aqueles que os seguem.

Can. 51: As natividades dos mártires não devem ser celebradas na Quaresma, mas as comemorações dos santos mártires devem ser feitas nos sábados e dias do Senhor.

 

Veja as ideias transmitidas nessas recomendações e advertências. Elas parecem sugerir uma Igreja amplamente debruçada sobre o culto aos mártires [homens santos que foram mortos por causa da Fé]. Tanto que ela tem que proibir seus fiéis de cultuar os mártires errados! A ida aos cemitérios para ocasião de oração e reverência era uma forma antiga de culto, citada, inclusive, por Santo Agostinho como uma prática realizada por sua mãe. Leia aqui. Assim como a natividade dos santos [a comemoração de seus dias de festas], a intercessão dos mártires sempre foi muito importante para a vivência da religiosidade cristã. E o cânone apenas condena o culto a mártires hereges, permitindo o louvor dos ortodoxos. Seguir, honrar, dirigir orações a mártires hereges era proibido. Leia o comentário de Helefe ao cânone 34, na Tradução de Schaff [na Enciclopédia Católica – New Advent], que diz:Este cânone proíbe a homenagem a mártires que não pertencem à Igreja Ortodoxa”. É vital notarmos isso, porque interpretar o cânone 35 sobre os anjos como uma simples condenação à prática do culto dúlico, como se os cristãos antigos fossem tão cismados quanto os protestantes atuais são, é loucura, e torna incoerente a mensagem inteira do Sínodo, sobretudo ao notarmos que o culto aos homens era permitido. Nós sabemos pelas Escrituras [Salmo 8, 5] que os homens são inferiores aos anjos em natureza. Se sua aceitação, bem como também da prece aos santos mártires, é clara, como é possível que o cânones 35 seja contrário aos anjos? Ora, não faz sentido aceitar a oração e a reverência feita aos espíritos dos homens no céu, mas condenar a oração e a reverência feita aos anjos também no céu. Por isso, a lógica nos aponta um erro nessa interpretação dos anticatólicos, que não apresenta a perfeita noção daquilo que o texto estava querendo dizer. O que estamos perdendo? Além do fato de ele se referir diversas vezes à saída de fiéis da Igreja para invocar anjos idolatricamente e ao abandono do culto aos mártires fiéis em favor do culto aos mártires hereges, aparentemente havia ali talvez uma liturgia ilícita. Lembre-se das palavras do Apóstolo: Ninguém vos domine a seu arbítrio com pretexto de humildade e culto dos anjos” [Colossenses 2:18]. Além disso, o próprio Tertuliano, no ano 200, citando a disputa de Pedro e Simão o Mago em Roma, menciona que este ensinava um culto de adoração aos Anjos:

 

A doutrina da feitiçaria de Simão, porém, que inculcava a adoração de anjos, era ela própria considerada idolatria e condenada pelo apóstolo Pedro em relação ao próprio Simão.

Prescrição contra os Hereges 33, ano 200 d. C.

 

Agora vejamos o que todo o cânone 35 diz:

 

Can. 35: Os cristãos não devem abandonar a Igreja de Deus, nem se afastar para invocar anjos e reunir-se em assembleias, coisas que são proibidas. Portanto, se alguém for encontrado praticando essa idolatria dissimulada, seja anátema, pois abandonou nosso Senhor Jesus Cristo , o Filho de Deus , e se entregou à idolatria.

 

Mas adiante, lemos uma descrição que talvez reforce a tese de uma liturgia herética que envolvesse o culto de latria aos anjos, além do fato de se tratar de uma proibição especificamente contra cristãos que abandonavam a Igreja em troca de reuniões noutras assembleias. Vamos ler o comentário deste cânone contido logo abaixo, na Tradução de Phillipp Schaff:

 

É importante notar que algumas versões latinas de grande autoridade e antiguidade trazem “angulos” em vez de “angelos” . Isso se referiria à prática desses ritos idólatras em cantos, de forma oculta, secreta e discreta, como no latim. Mas essa leitura, embora tão respeitável no latim, não possui respaldo no grego.

Este cânone tem sido frequentemente usado em controvérsias como condenação do culto que a Igreja Católica sempre atribuiu aos anjos, mas aqueles que fazem tal uso deste cânone devem explicar como essas interpretações podem ser consistentes com o culto dos Mártires tão evidentemente aprovado pelo mesmo concílio; e como este cânone foi aceito pelos Padres do Segundo Concílio de Niceia, se condenava a prática então universal da Igreja, tanto no Oriente quanto no Ocidente. Cf. Forbes, Considerationes Modestæ.

 

Lembre-se que o Segundo Concílio de Niceia foi justamente aquele que condenou os que negavam a vida eterna aos santos mártires no céu, assim como o culto e as orações dirigidas a eles. Não podemos inferir com total certeza a que se referiam os padres deste Sínodo em Laodiceia, se a um culto secreto, ou a uma forma nova litúrgica que envolvia sacrificar a anjos, etc., mas de uma coisa podemos ter certeza: está claro que o intuito não é a condenação de culto de dulia em si. O Sínodo de Laodiceia não condena o culto/homenagem como idólatra, mas a distorção dele, primeiro ao advertir acerca de uma prática proibida na qual estavam enredados alguns dos fiéis que decidiam abandonar a Igreja de Deus para cultuar anjos em assembleias e reuniões particulares; e, segundo, ao reivindicar a verdadeira, legítima e sã reverência para os santos devidamente instituídos sob a autoridade eclesiástica, aqueles que eram ortodoxos. Essa controvérsia de mártires hereges e otodoxos já é antiga e talvez eu escreva sobre ela no futuro, mas o importante é: o culto dúlico não é problemático no Sínodo de Laodiceia. 

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Espero que esse artigo tenha sido útil de alguma maneira a você. Os anjos sempre acompanharam a história da Igreja de maneira muito próxima e marcante Que eles continuem prestando-nos esse serviço valioso. Deus abençoe todos os eleitos em Cristo.

 

Foto de Rogério S. na Unsplash

 

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Sta Joana d’Arc nasceu através de um compromisso e do desejo de publicar obras notáveis de autores nacionais e estrangeiros, tanto de cunho filosófico e teológico, quanto de matéria infantil, fantástica e ficcional. Além de fazer renascer o espírito de tradições e valores antigos à sociedade como um todo, a publicação de obras que revelem a riqueza de nossa história é a melhor maneira de servir a humanidade.

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