No Talmud, uma descrição de Calebe no episódio dos espias de Números chama a atenção:
Calebe se separou do plano dos espias e foi e se prostrou sobre os túmulos dos patriarcas, dizendo-lhes: ‘Meus pais, orem por mim para que eu seja liberto do plano dos espias’ (Sotah 34b).
Outro dia estava ouvindo um rapaz protestante argumentando que o Catolicismo corrompeu a Igreja com suas doutrinas pagãs. Ele alegava veementemente que a prática de pedir a intercessão de homens mortos pertencia às religiões grega e romana, sendo tal doutrina introduzida arbitrariamente pelo Papa na Igreja de Cristo para sua própria destruição. Mas lendo o trecho acima, isso não arece tão evidente mais. É desnecessário dizer que os primeiros cristãos eram altamente cuidadosos com a doutrina que lhes fora entregue pelos apóstolos, chegando até mesmo ao ponto de morrerem para não negar a Cristo, nem se curvar frente ao Imperador e sua nação pagã. Como então eles poderiam ter aceitado tamanha dissolução na Igreja?
1. EVIDÊNCIA DA DOUTRINA NO JUDAÍSMO ANTES DE CRISTO
O segundo livro de Macabeus foi escrito por volta de 134 antes de Cristo ou dos apóstolos nascerem, e mesmo não sendo aceito por Martinho Lutero como um livro inspirado, apresenta um registro claro da prática difundida naquele período e meio cultural com respeito à doutrina da Intercessão dos santos que citei acima, presente também no Talmud:

- A Intercessão do Profeta Jeremias no Céu
“Eis o que tinha visto: Onias, que foi sumo sacerdote, homem nobre e bom, modesto em seu aspecto, de caráter ameno, distinto em sua linguagem e exercitado desde menino na prática de todas as virtudes, com as mãos levantadas, orava por todo o povo judeu. Em seguida, apareceu do mesmo modo um homem com os cabelos todos brancos, de aparência muito venerável e nimbado por uma admirável e magnífica majestade. Então, tomando a palavra, disse-lhe Onias: ‘Eis o amigo de seus irmãos, aquele que reza muito pelo povo e pela cidade santa, Jeremias, o profeta de Deus’.”
II Macabeus, 15: 12-14 – Bíblia Católica Online
O texto de macabeus não é uma evidência fraca. Se uma prática comum assim ocorria no seio cultural onde Jesus Cristo e os apóstolos nasceram e cresceram, como poderemos ainda descartar a origem judaica da intercessão dos santos cristã e sustentar que sua fonte é pagã ?
Veja que o profeta Jeremias aparece depois de morto a Judas Macabeus, e é dito que ele é um grande intercessor dos filhos de Israel, rezando muito por eles. Isso após sua morte. É importante citar também como evidência anterior a Cristo o versículo profético de Jeremias 31:15-16. Explicarei em breve o motivo.

Rachel weeping for her children, Marko’s Monastery (Winkimedia Commons)
- A Intercessão de Raquel no Céu
“Ouviu-se um clamor em Ramá, lamento, choro amargo, Raquel chora por seus filhos, ela se recusa a ser consolada… pois todos estão mortos. Pare de chorar e enxugue as suas lágrimas. Tudo o que você fez pelos seus filhos será recompensado; eles voltarão da terra do inimigo. Sou eu, o SENHOR, quem está falando. ”
Quase sempre as pessoas não percebem que esse verso traz a menção de uma pessoa morta chorando e pedindo por seus filhos num período muito antigo. Embora alguns comentaristas modernos tracem uma interpretação simbológica para tal relato, sobretudo protestantes, não há dúvida de que tal verso tem sido interpretado por judeus como um evento literal. Essa interpretação aida é difundida mesmo hoje, com peregrinações ao túmulo de Raquel; veja adiante no tópico 6. A passagem de Jeremias é interpretada pelos Sábios dos tempos talmúdicos como testemunho de que os ancestrais oravam em intercessão em favor de seus descendentes, e por isso decidi colocar esse trecho aqui. Lembremo-nos que, como bem disse o historiador Brant Pitre, em seu livro “As Raízes Judaicas de Maria”, Raquel é uma imagem tipológica de Maria, de fato sendo vista pelos judeus ao redor do mundo como a figura de uma Mãe Intercessora e sempre presente no decorrer da História. Raquel foi sepultada na entrada de Hebron, local não muito distante de Belém. Era possível que Jacó tivesse levado a sua amada para ser sepultada entre os Patriarcas, mas não o fez. Muitos acreditam que Jacó a sepultou ali por ordem divina (nada na Bíblia é por acaso), para que ela fosse um auxílio quando os filhos de Israel fossem levados cativos à Babilônia e passassem por ali, lembrando-se de sua mãe: “e eu a sepultei ali, no caminho de Efrata, que é Belém” ( Gênesis 48:7). E tal ideia se tornou algo vívido na memória dos judeus, uma imagem cultural que se dá sempre que os filhos de Israel sofrem, de modo que o túmulo de Raquel à beira da estrada e sua intercessão foram citadas pelo evangelista quando os bebês recém-nascidos foram mortos por Herodes: “Em Ramá se ouviu uma voz, lamentação, choro e grande pranto: Raquel chorando os seus filhos, e não quer ser consolada, porque já não existem” (Mateus 2:18).
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Veja o comentário de Rashi [Rabino] Shlomo Yitzchaki; principal comentarista da Torá e do Talmud e líder da comunidade judaica na Alsácia-Lorena sobre a passagem de Jeremias 31:
A INTERCESSÃO DE RAQUEL
Ele lhe disse: “Tu os defendeste bem. Há recompensa por teu ato e por tua retidão, por teres revelado teu segredo à tua irmã.”
A imagem ilustra Raquel apresentando seus méritos em vida a Deus depois de morta. Em linguagem comum, ela declara que, apesar de toda dor, suportou em humildade e silêncio o seu destino. Frente à situação de humilhação e sofrimento que seu casamento se tornou, quando Jacó casou com sua irmã, Raquel decidiu fazer o que era certo. Essa simbologia permanece no Cristianismo, que revela a justiça dos mártires [seus méritos] como meios pelos quais Deus suscita maior resposta aos seus devotos. Raquel faz isso como forma de suscitar a misericórdia de Deus pelo seu povo, assim como os santos: “Eu fui boa para minha irmã, mesmo que ela tenha me causado ciúmes”. Então Deus responde com piedade e aceita sua reivindicação, salvando os filhos por causa da Intercessão da Mãe.
2. EVIDÊNCIA DA DOUTRINA NO JUDAÍSMO DEPOIS DE CRISTO

Pintura de Luigi Mayer (Winkimedia Commons)

Foto de יוסי מזרחי (Winimedia Commons)
Os judeus costumam fazer visitas ao túmulo de Raquel de maneira religiosa, não em razão de um sentimento puramente emocional. A matriarca é a principal figura no relato da profecia de Jeremias citada acima, na qual Raquel pede por seus filhos após eles terem sido levados cativos para a Babilônia. É nesse contexto que Jeremias se torna uma fonte extremamente significativa, ao registrar na Bíblia as palavras de Raquel a Deus. O Midrash de Lamentações Rabá apresenta a mesma história, porém com outras figuras bíblicas como Abraão, Moisés e Raquel intercedendo em favor dos filhos de Israel (Lam. R. 24). Eikhah Rabbah, também conhecida como Eikhah Rabbati ou Midrash Kinnot, é um midrash da era talmúdica sobre o Livro das Lamentações, compilado em Israel. O primeiro quarto da obra consiste em uma série de 36 seções introdutórias (a gematria da palavra Eikhah), seguidas por comentários versículo por versículo sobre a maior parte do livro. Os personagens apresentam a Deus argumentos em favor do povo judeu, todavia, é diante do argumento suscitado pela intercessão de Raquel apelando à Misericórdia, que Deus decide trazer refrigério ao seu povo:
“E então Raquel falou: Deus, lembrai-vos de que Jacó me amou muito, mas meu pai escolheu dar-lhe Lia em meu lugar. Jacó e eu havíamos elaborado um sistema de sinais, para que ele soubesse se aquela era realmente eu ou não em sua cama. Mas depois tive pena da minha irmã e ensinei-lhe os sinais para que ele não percebesse que era ela. Até me dispus a deitar embaixo da cama e, quando ele falou a ela, em silêncio ela ficou, e eu respondi em seu lugar. Se eu, uma criatura de carne e osso, feita de pó e cinzas, pude superar meu ciúme para ser gentil com minha irmã… e os israelitas flertam com falsos deuses que nem são reais… Como podeis Vós permitir que seu ciúme faça com que seus filhos sejam mortos e exilados? E a misericórdia de Deus foi despertada pelo argumento de Raquel. E Deus disse: por amor de ti, Raquel, restaurarei a casa de Israel ao seu lugar. Tenha esperança no futuro. O exílio – não apenas físico, mas existencial e espiritual – chegará ao fim.”
A passagem de Jeremias 31: 15-17, que cita como as lágrimas de Raquel no céu foram efetivas para trazer benefícios aos filhos de Israel na terra, o que fez com que os judeus voltassem do cativeiro babilônico, continua a possuir espaço no coração do Judaísmo contemporâneo, e vemos a menção desse ensinamento em vídeos educativos de canais judaicos, como no Aleph Beta.
As Peregrinações às Tumbas
As visitas aos túmulos de justos e profetas constituem uma prática judaica presente atualmente, porém tem raízes muito antigas, conforme descrito nos exemplos acima citados. Segundo “Ancestral Spirits in Israel and Judaism”:
[…] Os supostos túmulos de muitas figuras luminares – bíblicas (túmulo de Raquel em Belém), líderes rabínicos (Simon bar Yochai em Meron), medievais (Meir Baal Nes na Tibéria) e modernos (Nachman de Bratzlav) – tornaram-se o foco de peregrinações e orações para intervenção divina entre os ultra-ortodoxos.
E como foi ressaltado, com respeito à antiguidade dessa devoção, tais visitas a túmulos e cemitérios, não são uma prática que surgiu recentemente, do dia para a noite, uma vez que Cristo menciona a ornamentação feita pelos líderes religiosos de sua época especificamente nos túmulos dos profetas e justos.
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Ai de vós, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês edificam os túmulos dos profetas e adornam os monumentos dos justos.
Mateus 23: 29
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Judeu rezando na Tumba de Rabbi Meir Ba’al Haness, 1912
E novamente, vemos tal prática presente entre cristãos primitivos, de acordo com a descrição de São João Crisóstomo:
SÃO JOÃO CRISÓSTOMO

E Alexandre, de fato, depois de sua morte, nunca mais restaurou seu reino, que havia sido dilacerado e totalmente abolido. De fato, como seria provável que ele assim o fizesse, estando morto? Mas Cristo, acima de todas as coisas, estabeleceu o Seu Reino depois de morto. E por que falo de Cristo? Vendo que Ele mesmo concedeu aos Seus discípulos que também, após a morte, brilhassem? Pois, diga-me, onde está o túmulo de Alexandre? Mostre-me e diga-me o dia em que ele morreu. Mas os túmulos dos servos de Cristo são gloriosos, visto que eles tomaram posse da cidade mais leal; e seus dias são bem conhecidos, com festivais sendo feitos pelo mundo. E quanto à tumba de Alexandre, nem mesmo seu próprio povo conhece, mas tal homem [Cristo] é aquele que os próprios bárbaros conhecem. E os túmulos dos servos do Crucificado são mais esplêndidos que os palácios dos reis; não pelo tamanho e pela beleza dos edifícios (e ainda assim os superam), mas, me refiro àquilo que é muito superior, pelo zelo dos que os frequentam. Pois aquele que usa púrpura vai abraçar aqueles túmulos e, deixando de lado seu orgulho, implora aos santos que sejam seus advogados junto a Deus, e aquele que tem o diadema implora ao fabricante de tendas [São Paulo] e ao pescador [São Pedro], embora mortos, para sejam seus patronos. Você ousará então, diga-me, chamar o Senhor desses mortos; cujos servos, mesmo após sua morte, são os patronos dos reis do mundo? E isso pode acontecer não apenas em Roma, mas também em Constantinopla.
São João Crisóstomo, Homilias sobre Segunda Coríntios 26:2:5, ano 392 d.C.
Contato com o Cristianismo
Há quem diga que tanto os judeus quanto os cristãos foram influenciados pelo paganismo de Roma após Constantino, outros dizem que os judeus foram influenciados primeiro pelos gregos e depois foram seguidos pelos cristãos como consequência de sua influência sobre as primeiras comunidades cristãs, e ainda temos aqueles que defendem que na verdade foram os judeus os influenciados pelos cristãos depois da queda do Templo, os quais, por sua vez foram incluenciados pelos pagãos. Diante da evidência apresentada anteriormente, contudo, é muito difícil sustentar essas opiniões. Uma coisa é certa, no entanto: podemos dizer com certeza que a prática coexistia em ambas as religiões. Foi por esse motivo que o professor israelense Meir Bar-Ilan, que passou a vida inteira se dedicando ao estudo de História Judaica, Talmud e Filosofia Judaica, doutor e ganhador do prêmio Holon por seu livro “Sitrey Tefila ve-Hekhalot”e que estudou na Universidade de Harvard, escreveu em seu artigo sobre o tema “ORAÇÕES DE JUDEUS A ANJOS E A OUTROS INTERMEDIÁRIOS DURANTE OS PRIMEIROS SÉCULOS DA ERA COMUM”. (Alguns comentários em Português acerca desse artigo você encontra aqui):
“Uma análise realizada de forma extensiva nas várias fontes da literatura talmúdica revela que há alguma substância nas alegações polêmicas dos primeiros cristãos de que os judeus naquela época rezavam aos anjos. O presente artigo procura reunir todas as evidências de orações judaicas a anjos e a outros intermediários que podem ser encontradas em fontes dos primeiros séculos d.C.”
O que o doutor Meir Bar-Ilan afirmou sobre os judeus dos primeiros séculos não é surpresa para os leitores do livro de 2 Macabeus, isto é, para os católicos, que sabem que essa prática está presente no Judaísmo há muito tempo. O relato de Calebe, por exemplo, testifica um acontecimento que se deu num período muito antigo, e embora o Talmud tenha sido compilado por volta do século II, considerando que a tradição judaica era predominantemente repassada e transmitida às próximas gerações por via oral antes da Mishná, imaginar que foi um costume que surgiu naquele momento do registro, ou depois a partir do contato com o Cristianismo/culturas pagãs é simplesmente ingenuidade… Isso, no entanto, evidencia não somente a presença e a antiguidade dessa prática na cultura judaica, mas também o fato de ela ter permanecido de forma ininterrupta com o passar dos séculos. O Judaísmo é uma religião milenar; isso significa que as pessoas simplesmente não se apegam e desapegam às(das) tradições facilmente. Essas práticas não surgem simplesmente no ar. Acredito que a conclusão mais lógica é que a religião mais nova tenha recebido elementos característicos da mais antiga, o que faz muito sentido considerando que o Cristianismo veio do Judaísmo.
Os Méritos dos Intercessores
O conceito do mérito dos mortos sendo aplicado aos vivos deu origem ao Zechut Avot (o mérito dos ancestrais), doutrina judaica presente na liturgia diária com a oração Avot (“Lembrai-vos da fidelidade de nossos ancestrais e, portanto, traz redenção aos filhos de seus filhos…”). Ou seja, a fidelidade dos ancestrais mortos seria apresentada à memória de Deus como forma intercessória em favor daquele povo. A noção do mérito (galardão) também está presente no Cristianismo com respeito aos mártires fiéis, que conforme a crença, mesmo mortos, auxiliam os vivos por meio de suas orações e méritos, como Santo Agostinho muito bem explica:

SANTO AGOSTINHO
21. É verdade que os cristãos prestam honra religiosa à memória dos mártires, tanto para nos estimular a imitá-los como para que possamos obter a participação em seus méritos e a ajuda de suas orações. (Contra Faustum, Livro XX)
Mais fontes Judaicas
O Sefer Chasidim (452) é um texto atribuído a Judah ben Samuel de Regensburg, que oferece o relato da vida religiosa dos judeus na Alemanha medieval, com suas crenças e tradições:
“Há uma noite em que as almas saem de seus túmulos, como na véspera de Hoshana Rabba, quando saem e rezam. E duas pessoas já foram e se esconderam no cemitério, ouvindo que uma delas estava chamando sua companheira: ‘Vamos rezar juntas! Todas as almas saíram e rezaram e pediram misericórdia para que a morte não fosse decretada sobre os vivos, e quanto àqueles que vão morrer, pediram que retornassem de seus maus caminhos […]’.”
O Ta’anit 16a diz:
“E um disse que vai ao cemitério para que o falecido peça misericórdia em nosso nome. A Gemara pergunta: Qual é a diferença prática entre eles? A Gemara responde que a diferença prática entre eles diz respeito aos túmulos dos gentios. Se o propósito de ir aos túmulos é dizer que eles estão diante de Deus como os mortos, os túmulos dos gentios seriam suficientes. No entanto, se eles vão ao cemitério para o falecido pedir misericórdia em seu nome, eles devem visitar sepulturas especificamente judaicas.
Men. 53b também demonstra o seguinte diálogo intercessório:
Abraão disse a Deus: Eu vim tratar de assuntos relativos a meus filhos, para descobrir por que Deus está destruindo o Templo e os exilando de Eretz Yisrael. Deus disse a Abraão: A razão é que seus filhos pecaram e, portanto, estão sendo exilados da terra. Abraão disse a Deus: Talvez eles tenham pecado involuntariamente e não mereçam um castigo tão terrível. Deus disse a ele: “Visto que ela praticou lascívia [hamzimmata]”, ou seja, suas más ações foram intencionais. Abraão disse ainda a Deus: Talvez apenas uma minoria de judeus tenha pecado, e o resto do povo deveria ser poupado da punição…
Ora vejam só, parece que os judeus mantiveram no decorrer da História uma visão parecida com aquela de Jesus apresentada nos Evangelhos quando Ele diz, em resposta àqueles que afirmavam que Abraão estava morto e não poderia vê-lo: “Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos” [Marcos 12:27 e Mateus 22:32 e Lucas 20:38]. Os mortos justos continuam sendo capazes de interceder pelos seus entes queridos vivos diante de Deus.
3. INTERCESSÃO NO VELHO TESTAMENTO
A ideia de que nós participamos da salvação uns dos outros não é estranha na Bíblia, que incentiva a intercessão desde o Antigo Testamento. O evento descrito abaixo, por exemplo, parece com uma descrição antiga bastante conhecida dos leitores de Gênesis, quando Abraão intercedeu por Sodoma e Gomorra em Gênesis 18. A compreensão de intermediários/intercessores de pé diante de Deus pelo povo sempre foi familiar à Escritura:
Então viraram aqueles homens os rostos dali, e foram-se para Sodoma; mas Abraão ficou ainda em pé diante da face do Senhor. E chegou-se Abraão, dizendo: Destruirás também o justo com o ímpio? Se porventura houver cinquenta justos na cidade, destruirás também, e não pouparás o lugar por causa dos cinquenta justos que estão dentro dela? Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra? Então disse o Senhor: Se eu em Sodoma achar cinquenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles. […] E retirou-se o Senhor, quando acabou de falar a Abraão; e Abraão tornou-se ao seu lugar.
Gênesis 18:22-33
Disse mais o Senhor a Moisés: Tenho visto este povo, e eis que é povo obstinado. Agora, pois, deixa-me, para que o meu furor se acenda contra eles, e os consuma, e eu farei de ti uma grande nação. Pórem Moisés suplicou ao Senhor seu Deus, e disse: Ó Senhor, por que se acende o teu furor contra o teu povo, que tu tiraste da terra do Egito com grande poder e com mão forte? Por que hão de falar os egípcios, dizendo: Para mal os tirou, para matá-los nos montes, e para destruí-los da face da terra? Torna-te do furor da tua ira, e arrepende-te desse mal contra o teu povo. Lembra-te de Abraão, de Isaque, e de Israel, os teus servos, aos quais por ti mesmo juraste, e lhes disseste: Multiplicarei a vossa semente como as estrelas dos céus, e darei à vossa semente toda esta terra, de que falei, para que a possuam por herança eternamente. E o Senhor arrependeu-se do mal que dissera que haveria de fazer ao seu povo.
Êxodo 32: 9-14
Tomai, pois, sete bezerros e sete carneiros, e ide ao meu servo Jó, e oferecei holocaustos por vós, e o meu servo Jó orará por vós; porque deveras a ele aceitarei, para que eu não vos trate conforme a vossa loucura; porque vós não falastes de mim o que era reto como o meu servo Jó [Deus fazendo diferença entre oração dos amigos de Jó que eram injustos e a de Jó, que era Justo, e cuja petição, portanto, seria aceita e ouvida].
Jó 42:8
A noção de homens e mulheres que foram justos e santos na terra intercedendo pelo povo no além não é, portanto, vista como improvável diante da perpectiva da vida eterna trazida nas Escrituras Hebraicas. Os fiéis simplesmente começaram a acreditar que o trabalho desses justos continuariam além dos limites de suas vidas terrenas. E, no último caso, Deus inclusive incentiva os amigos de Jó a irem até ele, pois o Senhor só receberia a oferta caso ela fosse realizada por meio do justo Jó e de suas orações. Isso revela pontos muito esclarecedores! Sobretudo quando consideramos o que aconteceria no Novo Testamento em relação a Cristo, de modo a intensificar a visão de triunfo e vitória sobre a morte que os cristãos patrísticos abraçariam posteriormente.
4. JUDAÍSMO FRAGMENTADO E O CRISTIANISMO
É verdade que o Judaísmo não é homogêneo, contendo disputas registradas até mesmo no texto bíblico tratando de doutrinas post mortem: por exemplo, havia divisão entre os saduceus que negavam a ressurreição e os fariseus que a defendiam como uma verdade; os saduceus negavam os anjos e demônios, enquanto os fariseus sustentavam todas essas coisas. Alguns recorrerão a essa falta de unanimidade acerca da intercessão dos tzadikim (justos) no Judaísmo como forma de assumir como lógica a total rejeição à prática. Todavia, como foi dito, o mesmo ocorreu com a ressurreição, com a demonologia e angeologia, e o Cristianismo ainda assim fez sua escolha. Ele foi um divisor de águas para revelar o caminho certo de forma categórica. Assim… Há três coisas que permanecem:
1) a origem e a procedência da doutrina NÃO pode ser considerada pagã;
2) Jesus demonstrou rejeitar o ramo MENOS espiritualista da disputa;
3) a Igreja Primitiva também rejeitou:
(a verdade da ressurreição é reforçada em Mateus 22: 23-32, Atos 4: 1-2; a atuação de anjos e demônios no mundo em Mateus 18: 10, Mateus 4: 1-11; Marcos 1: 34; Lucas 22: 31-32; João 8: 44 e há relatos no Novo Testamento que depõem em favor da consciência e intercessão dos santos mortos, negadas pelos saduceus também). Vamos analisar o porquê disso?
Os apóstolos registraram uma aparição de santos que vieram do outro mundo para conversar com Jesus (Mateus 17:1-13 e Lucas 9:28-36).
Não há indicação de que Jesus e os apóstolos negassem as doutrinas de intercessão dos tzadikim e tampouco qualquer texto bíblico condenando a ideia. Além disso, os relatos canônicos (emboram você não encontre textos prescritivos do tipo “faça isso” ali) dizem o contrário, reforçando a realidade da intervenção dos mortos em eventos protagonizados pelos vivos. Vemos ao menos o interesse e a crença popular materializada, tanto no que foi exposto acima acerca da prática ritualística de visita aos túmulos dos santos e profetas, como no relato em que o clamor de Jesus “Deus meu Deus meu, por que me desamparaste” ao Pai – Eli, Eli, lamá sabactâni [Mateus 27:46 e Marcos 15:34] é confundido pelos presentes ouvintes como se Jesus estivesse pedindo a intercessão do profeta Elias [o que é admitido por pastores protestantes]. As Escrituras (direta ou indiretamente) apontam para as noções cristãs que vimos acima em Agostinho e em João Crisóstomo como uma conclusão natural. O registro da aparição de Moisés e Elias do além é algo que depõe em favor da ideia patrística de aproxmação do céu com a terra e do poder do primeiro nos assuntos do segundo, sob a agência divina, que permite sua intervenção na história. Este não é um caso isolado, pois, como foi dito, Cristo advoga em favor da crença da intercessão ao ensinar a Parábola do Rico e do Lázaro (Lucas 16:19-31). Em tal história, vemos Abraão não somente consciente no limbo, mas ainda instado a interceder pelos irmãos vivos do homem rico, que lhe roga que ressuscite Lázaro para alertá-los da verdade, pedido este que se recusa a atender: “Eles têm Moisés e os Profetas, que os ouçam”. Também temos citação do apóstolo João com respeito a homens redimidos no céu orando por justiça à terra em Apocalipse 8 e levando o incenso (que são as orações dos santos) a Deus, além do testemunho de Mateus no cap. 27 de um episódio misterioso em que os santos ressurgem dos mortos após a crucificação de Jesus. Veja só: Devemos crer no testemunho de cristãos que disseram ter visto espíritos de mortos santos retornando [de alguma forma] do além em resposta à obra de Jesus no Calvário. Tudo isso fornece mais do que indícios da razão da adesão a essas doutrinas por parte da Igreja primitiva. A ênfase na vitória de Cristo sobre a morte, que é a ideia principal da ressurreição, nos revela que esse foi o caminho natural do Cristianismo. Leia: Orações aos Santos e Anjos na Igreja dos primeiros séculos.

Para aqueles que ainda ficam na dúvida em razão da disputa interna judaica, é conveniente dizer: a Igreja Cristã, ao nascer no meio deste cenário, historicamente adotou a interpretação do ramo espiritualista por razões óbvias, já que se ela adotasse a outra visão, ela iria contra seus próprios princípios e negaria todos estes versículos da Escritura. Jesus seria considerado mentiroso, supersticioso ou lunático, caso ele apresentasse sua história evangelística a judeus que repudiavam tais coisas como impossíveis. Na verdade, Jesus nem foi considerado por aqueles judeus que eram tão fechados nesses sistemas rígidos e materialistas, pois seus ensinos eram absurdos para eles. O fato de ter sido Cristo uma testemunha ocular de uma APARIÇÃO de SANTOS QUE VIERAM DO ALÉM FALAR COM ELE, coisa negada pelos judeus Mortalistas, que ensinavam que os mortos não poderiam orar pelos vivos, muito menos lhes aparecer, tornava-o uma personagem ridícula e excêntrica. Entenda: Jesus apareceu para os discípulos depois de morto, seus discípulos relataram ter visto santos mortos aparecendo a eles (“E, saindo dos sepulcros, depois da ressurreição dele, entraram na cidade santa, e apareceram a muitos” –Mateus 27:53) e todos esses eventos, tiveram sua cereja de bolo com um discípulo citando a visão de mártires no céu orando pelos vivos em Apocalipse, narrativas listadas no Novo Testamento. Diante de tudo, fica claro o motivo de a Igreja ter seguido pelo caminho que seguiu, afinal, era o único que havia.
5. PERMANÊNCIA DA PRÁTICA HOJE NO JUDAÍSMO
Como foi mencionado, o assunto continua sob disputa. De fato, a doutrina embrionária que teria sido a fonte da intercessão dos santos cristã permanece ainda hoje no Judaísmo. Sem dúvidas, a religião antiga na qual Jesus e os apóstolos nasceram, sendo eles judeus, teve reflexos no Cristianismo, que surgiu a partir daquela fé antiga, com costumes próprios e distintivos daquela comunidade. O ensino é disputado, mas como foi estabelecido pelos escritos apostólicos e dos Pais da Igreja, não é um problema para os cristãos. Na verdade, a Intercessão dos “Tzadikim“, ou Intercessão dos Justos no Céu, da mesma forma como o Messianismo de Jesus, foi aceita pelos cristãos e colocada em prática não somente nos tratados teológicos dos apologistas católicos da religião nascente que debatiam diariamente com hereges e pagãos, mas também na Liturgia (como você pode ver aqui) e nos concílios sagrados. Tzadik significa “justo” em hebraico, porque conforme as Escrituras, a justiça é imortal (Sabedoria 1: 15), e isso significa que uma alma justa não morre de verdade, já que “as almas dos justos estão na mão de Deus, nenhum tormento as tocará” (Sab 3: 1). Nada mais condizente com o Cristianismo!
Um rabino conhecido chamadoTzvi Freeman, falando da prece de um tzadikim e da visita aos túmulos, diz que a prática é expressão da unidade da alma judaica em um só corpo e da fé na vida eterna do justo. Isso soa familiar?
Alguns dizem que isso é simplesmente para lembrar aqueles que estão jejuando de sua própria mortalidade – um cemitério pode ser um balde frio de inspiração magicamente eficaz quando você está se sentindo presunçoso e autoconfiante. Mas outros dizem que é para se conectar para pedir às almas dos justos que estão enterrados lá que intercedam em nosso nome. Na verdade, o Zohar afirma que, se não fosse pela intercessão das almas que residem naquele outro mundo, nosso mundo não duraria nem por um momento. Então, por que isso não é chamado de “suplicar aos mortos?” E por que pedir a qualquer tzadik, vivo ou morto, para interceder em nosso nome não constitui um intermediário entre nós e D’us? Esta mesma questão foi levantada por uma das principais autoridades da lei judaica do século XIX, o rabino Moshe Shik (conhecido como “o Maharam Shik”), um aluno do Chatam Sofer. Ele explica da seguinte forma: A um judeu não é permitido ter um intermediário. Não deve haver nada entre o judeu e D’us. No entanto, como estabelecido anteriormente, é permitido a um judeu pedir a outro judeu que seja um intermediário entre ele e D’us. O rabino Shik explica essa aparente anomalia em nome de seu mestre, o Chatam Sofer: Quando um judeu se aproxima de outro e conta a dor que está sofrendo, o outro judeu a sente da mesma forma que ele. Agora ambos que precisam de oração. O judeu não sente que está orando por um “outro” – ele está orando por si mesmo. Em outras palavras, todos os judeus podem ser considerados como UM SÓ CORPO. Se o dedo está doendo, precisa da cabeça e do coração para ajudá-lo. Da mesma forma, se eu precisar, posso convocar todos os outros judeus – e especialmente aqueles que são a cabeça e o coração de nosso povo – para orar por mim também. Porque se um judeu está sofrendo, todos nós estamos sofrendo. O rabino Shik também estende isso ao falecido. De acordo com o Talmud e o Zohar, aquelas almas justas que partiram deste mundo ainda estão muito em contato com seus alunos e familiares e cuidam deles e de seus problemas. Pedimos a eles que orem em nosso nome – e eles o fazem e muitas vezes suas orações são mais eficazes do que as nossas. Afinal, em muitos casos nós não avaliamos a gravidade desses problemas a partir de nossa perspectiva limitada tanto quanto eles poderiam avaliar de sua visão muito mais elevada.
CONCLUSÃO
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