Como vocês sabem [ou não estariam neste post], grande é a controvérsia envolvendo as imagens sagradas, tanto na primeira vez em que esse debate surgiu no século VIII no Império Bizantino, quanto na segunda vez na Europa do século XVI. Grande parte da querela pode ser resolvida se fizermos uma pergunta: “A que se refere a palavra ‘Imagem’ em Êxodo 20 [“Não farás para ti imagem”]? Duas interpretações são sempre evocadas e defendidas com vigor: a) a interpretação restritiva; e b) a interpretação extensiva. O que ambas significam? Basicamente, dizem respeito ao alcance da palavra “imagem”. Veja o quadro abaixo:

Fonte: Arquivo da autora (2026)
O conjunto maior, abraçado por pessoas que negam o uso de imagens, indica a interpretação extensiva, que abarca toda e qualquer imagem [leia-se “em ambiente de culto”, pois nunca vi um iconoclasta completamente averso a pinturas e fotografias genéricas]. Já o conjunto menor, que tem um alcance voltado para apenas um tipo específico de imagem, isto é, aquelas que são idolátricas, representa a interpretação restritiva, de alcance limitado. O Catolicismo adota a segunda.
1. Há Razões para se crer na Interpretação Restritiva [católica] de Êxodo 20 na Escritura?
Os católicos adotam a interpretação restritiva por dois motivos: 1) A Bíblia revela outras imagens sendo confeccionadas no ambiente de culto sob comando de Deus, como de querubins na Arca e da serpente de bronze [Êxodo 26, 10; Nm 21, 8-9, etc.]; e 2) A Bíblia tratava de um certo tema, isto é, dos chamados “deuses” das nações, quando traçou esta proibição, o que parece ser muito lógico que a linha seguinte continuasse relacionada a eles. Muitos isolam a frase “não faça imagens”, mas ela tem um contexto. Veja:

Os católicos acreditam que as imagens com OBJETIVO ICÔNICO sempre existiram e nunca foram proibidas. Portanto, a proibição “Não farás ídolo” (distorção que desvia os homens de Deus) é a maneira mais apropriada de leitura, já que o versículo se referia aos “deuses” diante de Deus, ou seja, paralelos ao Único. Mas sempre foi possível ao homem fazer ícone (janela que leve os homens a glorificar a Deus), pois a Bíblia o aprova, como mencionamos nos versos acima, quando ordenou a feitura de ícones de querubins [revelando realidades celestes] e da serpente de bronze [que em figura apontava para Cristo e seu sacrifício. Cf. Jo 3, 14-15].
Deve-se reconhecer que, no cristianismo, alguns elementos presentes no judaísmo da Antiga Aliança foram preservados e outros foram transformados à luz da Encarnação e Ressurreição de Cristo. Evidentemente, a arte cristã sempre foi permitida [algo confirmado pela própria Bíblia]. E também devemos entender que estamos tratando até agora de imagens gerais no culto, não da confecção de imagens específicas da Pessoa de Deus, que eram proibidas de fato, dentre outros textos, por Êxodo 33, 20-23 e Deuteronômio 4, 12 e 15 – 19. Porém, entenderemos essa questão como uma daqueles elementos “transformados” com o Advento do Messias: a proibição passou a ser lida a partir do ato decisório do próprio Deus ao encarnar-se. Mas como dito, este é um tipo especial de imagens que é tratada [considerando suas características peculiares] no tópico 3.
Antônio van Dyck (1599–1641)
Alguns afirmam, em resposta, que Deus teria “flexibilizado” o mandamento nos casos elencados, apenas para um momento único e específico, a caminhada de Israel. Ou seja, somente ao judeu na Velha Aliança foi permitida a confecção de imagens, nunca jamais sendo o feito repetido. Pois Deus ficaria zangado. Os cristãos de hoje, na Nova Aliança, por exemplo, não podem. Na prática, quem diz isso torna a experiência vivida pelos hebreus no deserto como superior à experiência da nova conjuntura em Cristo. Este, no entanto, ao assumir um corpo, ficou delimitado e apresentável/representável à vista, algo que nunca nos foi dito de Deus no período do Antigo Testamento. Para os católicos, isso amplia ainda mais nossas possibilidades, ao invés de restringi-las, como sugerem os partidários dessa argumentação. A Encarnação é uma realidade nova da Divindade [Deus assumiu a carne], coisa impossível a um Deus essencialmente inatingível e espiritualizado sem contato com a matéria. E foi decisão dEle. Deus quem tornou isso possível, pois, de outra forma, como alguém ousaria fazer? Quando olhamos para Deus, o Deus do Antigo Testamento, sem rosto, poderíamos nos contentar com essa ideia. Mas não é possível no Novo, com um Deus-Homem. Quando alguém lê a Escritura, um batismo é mencionado, por exemplo. O que vem à mente quando é lido sobre uma voz vinda do céu? Uma imagem mental se forma em nossa mente: Um rio – dois homens – uma pomba. Mesmo quando não podemos dizer que sabemos a aparência exata dos dois homens: a cor de seus cabelos, sua altura e a fisionomia de seus rostos, não faz diferença! Também não sabemos se é uma pombinha cinza ou branca. Mas logo a imagem padrão de homem que temos em nosso acervo memorial surge. Bem como também de uma pomba. E construímos uma imagem.
Como exatamente teríamos um retrocesso com isso? E por que os judeus devem ter acessos a mais recursos do que nós? A Bíblia afirma que a Velha Aliança é inferior à Nova [Hb 11, 13], e, portanto, não faz sentido aceitar esse argumento.
3. A Nova Abordagem com respeito à Representação de Deus é manifesta na Encarnação do Verbo
A imagem é algo que pode ser comunicado pelo elemento do “gesso”, razão pela qual alguns zombam dos católicos aqui no Brasil chamando-os “lambedores de gesso”. Eu particularmente prefiro minhas imagens de resino. Contudo, imagem [como citado acima acerca da imagem mental] vai além do instrumental utilizado pelo homem para comunicá-la: o Gesso, a resina, a madeira, o metal… e a Carne. Em que diferem? Se usarmos os termos químicos, poderemos nos ater a muita coisa com essa questão, mas se tomarmos todos eles como simples matéria em seu mais claro conceito, podemos chegar mais longe e mais rápido. Toda matéria produz naturalmente uma imagem em contato com a luz. Deus se fez matéria. Uma vez que isso se deu, o mandamento foi flexibilizado, mas não do jeito que querem dizer os partidários de “apenas os judeus podiam, nós cristãos não”. Foi flexibilizado pelo próprio Deus na mistura da carne com a Divindade. Sabemos que Jesus é Deus, mas nós católicos não cremos que Sua humanidade foi apagada ou absorvida pela Divindade na Encarnação, tampouco as características dela, como a capacidade de formar imagens. “Igual a nós em tudo, exceto no pecado” [Hb 4, 15].
Uma imagem pode ser definida como a representação de um objeto quando os raios de luz, vindos de uma fonte, se encontram ou parecem se encontrar após reflexão ou refração. Cristo, ao se fazer Carne, se fez o OBJETO sobre o qual os raios de luz incidem produzindo uma imagem em consequência. Ponto. De que Deus nos deu permissão, portanto, podemos ter certeza ao poderar sobre o fato de que, com Sua decisão de tornar-se matéria, nosso próprio corpo faz isso [uma imagem] naturalmente por meio da retina. “Ah, mas apenas os apóstolos o viram”. Alguém responde. E a verdade é que não necessariamente, já que quando ouvimos do Evangelho fazemos essa imagem [mesmo que mental]. Em ambos os casos há, por necessidade, a feitura de imagem. Então temos isso:
1. Aquela imagem formulada pelo cérebro [no caso das testemunhas oculares de Jesus no passado]; e 2. Aquela imagem que é formulada também naturalmente pelo nosso cérebro quando lemos a bíblia e imaginamos o que é descrito lá.
Voltamos à pergunta de Shamuel de The Chosen: Se Deus fizesse isso [assumir carne humana],… “essa pessoa teria de andar por aí com o rosto coberto!”
Contra-argumento: “O argumento de que Deus podia, mas nós não” é suscitado com frequência. Todavia, ele seria aceitável se resolvesse o problema que cria. Deus não faria algo se aquilo fosse essencialmente mau por Sua própria natureza benevolente. E como toda matéria, passível de representação, seja a partir de um desenho ou pintura, seja a partir de uma imagem erigida ou mental, Deus ao assumi-la, assumiu essa característica. E se devemos pensar que trata-se de algo idolátrico em essência, por implicação Deus expôs seu povo à Idolatria. Como o profeta Isaías pôde ter dito de Jesus: “olhando nós para ELE, não víamos parecer nem formosura…” [Is 53,2], se Sua imagem não pôde ter sido contemplada profeticamente por ele em visão? E como podemos chamar de mentirosos os apóstolos, que visualmente/realmente contemplaram-no na carne [1 Jo 1, 2]? E aquelas testemunhas oculares que o viram? Como Deus poderia fazer todo esse povo pecar por meio disso? Não seria possível assumir que Deus se encarnou sem essa necessidade e característica básica da matéria. E também não podemos pensar que Ele fez isso para nos levar a pecar, pois Ele é bom. Logo, há algo que não devemos perder de vista, que é a razão real da proibição da visão divina ao homem. Leia sobre isso aqui.
4. Aqueles que adotam a Interpretação Extensiva (iconoclastas e outros) relativizam o Mandamento e não o cumprem.
Boa parte dos críticos aceita que se façam imagens, mesmo que banquem os superiores em debates com os católicos. Muitos deles só não admitem a outra parte proibida do mandamento: a veneração. Ora, isso é uma incoerência na obediência da ordem divina [cumprida pela metade], pois o mandamento trouxe duas regras: 1) “Não faça”; e 2) “não se curve”. Se alguém considera a interpretação abrangente do termo imagem [leia acima], deve ser coerente o suficiente para não aceitar nenhuma confecção, porém poucos estão dispostos a abraçar tal rigorismo. Muitos dizem: “Eu posso fazer imagens de Cristo, contanto que eu não me curve”. Porém essa pessoa deve ser sincera o suficiente para admitir que o mandamento não diz isso. Se essa interpretação for adotada, é claro, pois os católicos não têm problema com isso.
Isso é particularmente difícil pelo fato de ser parte essencial da Fé cristã a noção de que Deus se encarnou, o que indica que Ele fez coisas representáveis, como andar por um campo, comer peixe e beber vinho, morrer numa cruz… coisas não somente imaginadas, mas também elaboradas de forma educativa e útil em meios missionários. Os cristãos teriam de, absolutamente, abster-se de muitas áreas promissoras ao Evangelismo, como o cinema, o teatro, as bíblias ilustradas. Por ser a implicação lógica que torna o Cristianismo único, a Encarnação dificulta a vida do iconoclasta em vários sentidos.
Foto de David Billington na Unsplash




