De onde veio a Intercessão dos Santos/Mártires no Cristianismo?

Kertelen Ribeiro

Kertelen Ribeiro

É quase certo que tenha surgido como uma herança judaica no Cristianismo. Ao contrário daqueles que advogam em torno de uma paganização, a verdade é que os apóstolos e os primeiros seguidores destes não precisaram ir tão longe para encontrar a ideia de exemplares intercessores no além, a sulicar por pedintes na terra, porque eles eram judeus e muitas interpretações e tradições do meio judaico já possuíam essas concepções ao seu alcance [sem serem reprovadas] e acabaram legando modelos de como o Cristianismo entenderia o além. O Professor Emérito de Estudos Religiosos Jan N. Bremmer, da Universidade de Groningen, na Holanda, mencionou essa questão em sua obra The Rise and Fall of the Afterlife [Trad. “A Ascensão e a Queda da Vida Após a Morte”], na qual ele afirma categoricamente que ambas as religiões já tinham seu próprio modelo de patronos humanos no outro mundo a compartilhar seus méritos em favor de almas suplicantes da terra, e que provavelmente o Cristianismo apenas deu continuidade à tendência já bastante difundida na religião judaica, com suas próprias peculiaridades:

 

A atenção dada ao assunto demonstra claramente o suposto poder dos mártires. A própria ideia de intercessão provavelmente deriva do contexto judaico do cristianismo, visto que ambos, tanto nos apocalipses judaicos quanto nos do cristianismo primitivo, figuras exemplares — como Esdras ou Paulo — intercedem em favor dos condenados. Um dos efeitos das perseguições foi a substituição dessas figuras exemplares pelos mártires. Essa ideia já aparece em Orígenes — embora, em sua obra, a origem judaica ainda seja visível —, mas o status elevado dos mártires manifesta-se claramente nas práticas funerárias dos primeiros cristãos, que, em massa, desejavam ser sepultados ao lado dos seus túmulos ou, por vezes, até mesmo dentro deles. Um excelente exemplo encontra-se nas *Atas de Maximiliano*, o relato da execução de um jovem mártir africano em 12 de março de 295. Após o martírio, uma dama romana chamada Pompônia recolheu o corpo de Maximiliano, transportou-o em sua própria carruagem e sepultou-o junto ao túmulo de Cipriano — um Padre da Igreja executado por sua fé no ano 257 d.C.; ela própria foi sepultada no mesmo local ao falecer, apenas treze dias mais tarde. Fica evidente que essa dama não deixou nada ao acaso. Mas o que ela e os demais cristãos esperavam dos mártires? As inscrições funerárias deixam poucas dúvidas a esse respeito: cabia aos mártires “defender” ou “interceder” junto a Cristo em favor de “seus” mortos no momento do Juízo Final […]

Jan N. Bremmer, “The Rise and Fall of the Afterlife”, Routledge, 2002, p. 65-66.

 

É, inclusive, muito facilmente provada essa presença de intercessores em documentos judaicos antigos, como por exemplo, nos dois livros de Macabeus presentes na Bíblia Católica. Datados de um período de 124 anos antes de Cristo nascer, eles mencionam dois intercessores que haviam sido mortos rezando por Jerusalém no outro mundo: o sacedote Onias e o profeta Jeremias:

 

Eis o que tinha visto: Onias, que foi sumo sacerdote, homem nobre e bom, modesto em seu aspecto, de caráter ameno, distinto em sua linguagem e exercitado desde menino na prática de todas as virtudes, com as mãos levantadas, orava por todo o povo judeu. Em seguida, apareceu do mesmo modo um homem com os cabelos todos brancos, de aparência muito venerável e nimbado por uma admirável e magnífica majestade. Então, tomando a palavra, disse-lhe Onias: ‘Eis o amigo de seus irmãos, aquele que reza muito pelo povo e pela cidade santa, Jeremias, o profeta de Deus’.

II Macabeus, 15: 12-14 – Bíblia Católica Online

 

Isso ajuda a entendermos porque a visão de S. João em Apocalipse 6, 9-10 de mártires mortos rezando do céu por justiça na Terra não se tornou um tabu, uma polêmica ou um escândalo para os destinatários dessa carta, seus compatriotas judeus convertidos ao Cristianismo. Eles já estavam habituados à ideia. A Bíblia também não é o único documento a revelar essas tendências. Como mencionado por Jan Bremmer, os apocalipses judaicos também apresentam de forma comum a imagem de espíritos de justos que morreram se tornando intercessores no além em favor dos peregrinos no mundo. Podemos perceber isso com a obra The Lives of the Prophets, um documento do século I d. C., que nos mostra que havia judeus que acreditavam na intercessão do profeta Isaías no além, o qual havia sido sepultado próximo à fonte de Siloé. O acadêmico norte-americano James Charlesworth, professor de Literatura e grego helenístico em várias universidades e diretor do Projeto dos Manuscritos do Mar Morto no Seminário Teológico de Princeton, chega a enfatizar a antiguidade dessa fonte, dizendo: “O texto original foi provavelmente composto a partir de diversas e antigas tradições orais, em algum momento pouco antes ou durante o primeiro século d.C.” (T. Schermann, “Peropheten- und Apostellegenden nebst Jüngerkatalogen des Dorotheus und verwandter Texte” [TU 31.3] Leipzig: Hinrichs, 1907; p. 119, 126; Torrey, Lives , p. 11; idem, Apoc. Lit., p. 135; RH Pfeiffer, IB 1 [1952] 425, grifo nosso). Veja:

 

E, visto que isso [o milagre] aconteceu por intermédio de Isaías [quando estava vivo,], o povo o sepultou ali perto, com todo o cuidado e grande honra, para que, por meio de suas orações, mesmo depois de sua morte, pudessem desfrutar do benefício da água, pois também lhes fora dado um oráculo a respeito dele”.

The Lives of the Prophets 1:7-8

 

Segundo notamos, havia uma tradição oral de que na época do Rei Ezequias, o profeta Isaías orou pedindo por água e uma fonte brotou para os filhos de Israel como um milagre envido por Deus, por isso a fonte se chama “Enviado” [Siloé]. É verdade que Isaías é contemporâneo do Rei Ezequias, e essa fonte de fato é mencionada pelo profeta, ao convocar o povo a crer na salvação e ajuda de Deus e não buscar o socorro do inimigo estrangeiro em Isaías, o que prova que não seria uma grande surpresa se isso de fato tivesse acontecido, já que Isaías aponta para a fonte como prova da Providência em seus escritos. Mas mesmo se não tiver ocorrido, pois não temos essa descrição disso na Bíblia, essa tradição oral repassada na cultura e relatada neste documento do primeiro século prova que os judeus acreditavam na intercessão dos justos no além já naquele remoto período. No Talmud, mais uma descrição nos serve de prova. Trata-se da Oração de Calebe aos Patriarcas mortos, pedindo por intercessão, no episódio dos espias de Números. Isso chama a atenção, porque permanece este relato em um documento que os judeus ainda mantêm como parte da coleção de livros sagrados de sua religião. O Talmude é um compilado de textos que são considerados centrais ao judaísmo rabínico, e ele declara:

 

Calebe se separou do plano dos espias e foi e se prostrou sobre os túmulos dos patriarcas, dizendo-lhes: ‘Meus Pais, orem por mim para que eu seja liberto do plano dos espias’

Sotah 34b

 

Mas mesmo que não houvesse qualquer precedente da doutrina no meio religioso apostólico, isto é, na vivência espiritual dos contemporâneos dos apóstolos, os católicos ainda manteriam sua fé na Vida Eterna e na obra de Cristo na Cruz, que nos permite ter esperança na ação e na intercessão dos santos, aperfeiçoados no céu e em total comunhão com Deus pelo Sangue do Cordeiro. Espero que tenha sido edificante a você saber dessas coisas. Se quiser ler mais sobre o tema, sugiro que clique aqui e aqui. Deus os abençoe.

 

Imagem: “Santos Marcos e Marcelino sendo conduzidos ao martírio”
de Paolo Veronese (1528–1588) – Domínio Público

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Kertelen Ribeiro

Kertelen Ribeiro é uma ex-protestante convertida ao catolicismo romano. Sendo leiga, faz parte da Legião de Maria. Ama ícones, arte e se arrisca no desenho, mas ainda não sabe fazer sombra direito. Graduada em Letras – Português e pós-graduada em Tradução do Inglês pela Estácio, atua como tradutora freelancer e deseja servir a Cristo, se esforçando para fazer a Sua vontade. Livros sempre foram o caminho.

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Kertelen Ribeiro é uma ex-protestante convertida ao catolicismo romano. Sendo leiga, faz parte da Legião de Maria. Ama ícones, arte e se arrisca no desenho, mas ainda não sabe fazer sombra direito. Graduada em Letras – Português e pós-graduada em Tradução do Inglês pela Estácio, atua como tradutora freelancer e deseja servir a Cristo, se esforçando para fazer a Sua vontade. Livros sempre foram o caminho.

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