Pois que edificais os sepulcros dos profetas e adornais os monumentos dos justos…
Mateus 23:29
Estava lendo o Evangelho e me deparei com a imagem mental de antigos judeus adornando os túmulos dos profetas. A pergunta que veio em sequência foi “por quê?”. Um artigo do Catholic Answers sobre a Intercessão dos Santos no Judaísmo ajuda a esclarecer esse dilema. Uma leitura apressada não nos fornece o quadro todo, e pode ser que sejamos levados a ignorar o elemento espiritual e litúrgico da prática, se não tomarmos cuidado. O autor, Suann Sonna, bacharel em filosofia pela Universidade Estadual do Kansas e mestre em Estudos do Novo Testamento pela Universidade de Harvard, elabora sua argumentação em prol de uma motivação mais espiritualista do costume a partir da leitura de uma obra datada da primeira metade do século I d.C intitulada “As Vidas dos Profetas”. O livro em questão tem como escopo o local de sepultamento dos justos e profetas juntamente com a descrição de suas vidas (biografia), “incentivando o leitor a visitá-lo e honrá-lo” [cf. Mateus 23:29-30]. O costume de visita e ornamentação do túmulo dos homens ilustres e santos é testificado pela Escritura, todavia, a fonte em questão, também datada da época em que Jesus e os Apóstolos viveram, revela nuances da prática citada na Bíblia e explica o costume judaico como tendo sua motivação vinculada às orações a Deus feitas pelos mortos no pós-vida [em favor dos seus pedintes]. Nela se lê, por exemplo [acerca do Profeta Isaías]:
“Por isso, até hoje ela jorra intermitentemente, para que o mistério se manifeste. E, visto que isso [o milagre] aconteceu por intermédio de Isaías [quando estava vivo,], o povo o sepultou ali perto, com todo o cuidado e grande honra, para que, por meio de suas orações, mesmo depois de sua morte, pudessem desfrutar do benefício da água, pois também lhes fora dado um oráculo a respeito dele”
(The Lives of the Prophets 1:7-8).
Então decidi trazer alguns apontamentos que podem ser de grande valor para os interessados no tema. Um dos pontos de debate diz respeito aos dados históricos de que dispomos e que testificam a prática, quase todos sofrendo alguma censura. Eu abordei um pouco do tema em outro texto, mas aqui buscarei ser mais específica, comentando informações de material publicado academicamente, tendo como foco um historiador e professor judeu, cuja pesquisa nos legou descobertas interessantíssimas acerca do pano de fundo cultural e religioso da passagem de Mateus 23 [e de outras]. Trata-se do doutor Meir Bar-Ilan. Seu artigo, chamado “Prayers of Jews to Angels and Other Mediators in the First Centuries CE” [Trad. Orações de judeus a anjos e outros mediadores nos primeiros séculos da era cristã], tem muito a nos dizer sobre a prática testificada no texto Bíblico. A primeira parte do artigo começa chocando a todos com o seguinte trecho:
Afirma-se que anjos com poder divino não têm lugar no judaísmo, que é uma religião monoteísta, pois a força de tal religião reside na exclusividade da divindade. Os anjos não podem ser mais do que mensageiros, cumprindo os mandamentos de Deus. De fato, na oração judaica tradicional parece não haver menção ao status dos anjos em geral, tampouco ao seu papel como intermediários na oração em particular. O Sidur, ou o Livro de Orações, parece indicar de forma superficial que os judeus não oram aos anjos ou a outros agentes divinos, mas somente ao Senhor. Contudo, este não é o caso. Uma análise realizada de forma extensiva nas várias fontes da literatura talmúdica revela que há alguma substância nas alegações polêmicas dos primeiros cristãos de que os judeus naquela época rezavam aos anjos. O presente artigo procura reunir todas as evidências de orações judaicas a anjos e a outros intermediários que podem ser encontradas em fontes dos primeiros séculos d.C.
De cara encontramos duas proposições: 1) Os primeiros cristãos diziam que os judeus rezavam aos anjos [pressuposto sem citação das fontes, mas alegado como algo de conhecimento geral por parte da comunidade a quem o artigo se destina]; 2) Há fontes talmúdicas que confirmam o fato [as quais serão apresentados pelo autor e comentadas com análise crítica]. Mas vamos por partes.
Quem é Meir Bar-Ilan?
O Professor Meir Bar-Ilan nasceu em 1951 e estudou sete anos na Universidade Bar-Ilan nos departamentos de História Judaica, Talmud e Filosofia Judaica, juntamente com quatro anos de estudo no Higher Talmud Institute da universidade. Após seu doutorado (1983), ele obteve uma bolsa de estudos de um ano na Universidade Hebraica. Em 1988, recebeu o prêmio Holon por seu livro “Sitrey Tefila ve-Hekhalot” [Mistérios da Oração Judaica e dos Palácios Celestiais], e no ano seguinte conseguiu uma bolsa de um ano na Universidade de Harvard. Desde 1979, Bar-Ilan leciona na Bar-Ilan University, em Israel, nos departamentos de Talmude e História Judaica, atuando como presidente do departamento de Talmude de 2007 a 2008. Bar-Ilan participou de inúmeras conferências profissionais em Israel, Canadá, França, Dinamarca, Inglaterra, México, Suíça e publicou cinco livros e cerca de 120 artigos, principalmente em hebraico e inglês. Dificilmente poderíamos dizer que ele é alguém que desconhece a cultura judaica.
Tradição Antiga
Ad Fontes
+ Intercessão dos Anjos
+ Intercessão dos Justos
Petição a Corpos Celestes e Terrestres [ou a Anjo representante]

Foto de Will Gullo na Unsplash




