Não.
Ver Deus sempre foi percebido com terror pelos sábios e profetas do velho testamento, pois os oráculos frequentemente explicavam que os homens poderiam morrer ao ver Deus diante deles, em razão da santidade de Deus e da pecaminosidade dos homens. Logo, podemos perceber facilmente pela lógica que pecado e Deus não se misturam, o que explica a razão de essa metáfora do fogo ter se tornado tão comum na bíblia para falar de Deus e de sua santidade. É evidente que não se trata de fogo de verdade e literal nas inumeráveis descrições de profetas sobre Deus num trono rodeado de chamas, tal como em Isaías 6, em Zacarias 13 e em outros, mas como a visão diz respeito a uma descrição escatológica que foge à nossa realidade, Deus desejou fazer uso de recursos simbólicos do conhecimento do imaginário do profeta, pois ele é ser humano, sendo essa similitude a favorita da Bíblia [pelo menos é a que mais aparece] para que pudéssemos compreender a natureza divina através de uma mensagem que usasse algo que nos é acessível no mundo. O purgatório é constantemente percebido como uma condição de purificação em face do Juízo divino sobre uma alma que ainda retém certos pecados remanescentes, todavia não com faltas suficientemente danosas para condená-la. Dessa forma, essa figura foi utilizada com muita frequência para descrição tanto do inferno quanto purgatório. Sobre esta última condição, podemos ter uma ideia de como será o encontro com o Juiz de nossas almas da seguinte maneira: assim como o fogo faz à matéria que entra em contato com ele, assim também será o efeito da santidade divina sobre o pecado ou sobre o mal que é posto diante dela. Apenas, pois, um edifício espiritual forte, isto é, uma alma preparada e desapegada do pecado, por estar sustentada em uma base firme e inabalável, poderá resistir às “chamas” do julgamento vindouro.
A IMAGEM DO FOGO COMO FIGURA DA PRESENÇA SANTA DO JUIZ É RECORRENTE NA ESCRITURA
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Pois o nosso “Deus é um fogo consumidor”.
Hb 12:29
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Veja como sempre que a Bíblia deseja fazer alusão ao Julgamento, ela dá preferência à figura do fogo. Atenção: Não digo que a Bíblia só apresente essa única imagem [ela usa também as ondas do mar, por exemplo], porém é clara a recorrência desse uso. E essa passagem diz respeito precisamente ao Juízo sobre aqueles que não retiveram a fidelidade na Velha Aliança. Deus é, então, apresentado como um Juiz zeloso, semelhante ao fogo: “Vede que não rejeiteis ao que fala; porque, se não escaparam aqueles que rejeitaram o que na terra os advertia, muito menos nós, se nos desviarmos daquele que é dos céus…” [v. 25] Tenha isso em mente, portanto, meus caros: Deus declara que ninguém pode entrar no céu se não for santo e a Santidade não é algo automático, mas um processo espiritual. E nem todos são achados tendo perfeita comunhão na hora da morte, isto é, tendo confessado todos os seus pecados [mesmo os menores] e abandonado-os. Malaquias declara mais sobre a imagem do Juízo de Deus vindo como figura de fogo [entre outras]:
Mas quem poderá suportar o dia da sua vinda? Quem poderá ficar de pé quando Ele aparecer? Pois Ele será como o fogo do fundidor ou o sabão do lavador. Ele se sentará como fundidor e purificador de prata; ele PURIFICARÁ os levitas e os refinará como ouro e prata.
Malaquias 3:2-3
Você pode ler mais sobre o Purgatório aqui.
Outros versos bíblicos revelam bem isso:
E o parecer da glória do Senhor era como um FOGO consumidor no cume do monte, aos olhos dos filhos de Israel.
Êxodo 24:17
Mas uma certa expectação horrível de juízo, e ardor de FOGO, que há de devorar os adversários.
Hebreus 10:27
Porque o Senhor teu Deus é um FOGO consumidor, um Deus zeloso.
Deuteronômio 4:24
Se alguém constrói sobre esse alicerce usando ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, a sua obra será mostrada, porque o Dia a trará à luz. Ela será revelada pelo FOGO, e o FOGO provará a qualidade da obra de cada um.
1 Coríntios 3, 12-13
Os metais se tornam limpos de impurezas quando passam pelo fogo, de modo que assim seu brilho resplandece. É por isso que durante a história do Cristianismo a condição purgatorial foi retratada como “um passar pelas chamas divinas”. Lembre-se que não há fogo natural na eternidade. Mas podemos entender o que ocorrerá após o encontro da alma em juízo como algo que chega perto do efeito do fogo sobre certas matérias de menor qualidade, como mencionado acima [palha, madeira, feno, etc.]. Sobre a presença santa de DEUS COMO JUIZ E O USO DA METÁFORA DO FOGO, Confira a Encíclica de Bento XVI SPE SALVI 45-47, na qual o nosso antigo Papa relembra o posicionamento de alguns teólogos, que afirmavam o fogo purgatorial como o próprio Logos, isto é, Cristo, o Juiz que “queima ao mesmo tempo em que salva”. Sobre essa última passagem de Paulo, observe a descrição completa:
Contudo, veja cada um como constrói. Porque ninguém pode pôr outro alicerce além do que já está posto, que é Jesus Cristo. Se alguém constrói sobre esse alicerce usando ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, a sua obra será mostrada, porque o Dia a trará à luz. Ela será revelada pelo fogo, e o fogo provará a qualidade da obra de cada um. Se o que alguém construiu permanecer, este receberá uma recompensa. Se a obra que alguém construiu for consumida, este sofrerá prejuízo; contudo, será salvo como alguém que escapa através do fogo. Vocês não sabem que são templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vocês?Leia também sobre como alguns Pais da Igreja entenderam a figura do fogo e do juízo de Deus em 1 Coríntios 3, 15 e o purgatório aqui.




