Quem é o Espírito Santo para os Católicos?

Kertelen Ribeiro

Kertelen Ribeiro

 

“E porei dentro de vós o meu Espírito, […]” Ez 36: 27

 

A 1ª coisa a saber é que o Espírito de Deus existe, e é por meio dEle que somos levados a crer e ser salvos ao ouvirmos a mensagem das Boas Novas. Nós ouvimos sobre Ele no Novo Testamento, ao menos eu pela primeira vez, e geralmente vem juntamente com outras denominações tradicionais, como “O Espírito da Verdade”, ou “O Consolador”, mas o que Ele é de fato? Sabemos que Ele veio do Pai e do Filho, pertence a Jesus Cristo, pois [“Tudo quanto o Pai tem é meu”], tendo a função de Testemunhar a Verdade e “coisas vindouras”, daquilo que viu junto ao Pai e ao Filho:

 

 

Quando vier, porém, Aquele, o Espírito da verdade, Ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá o que tiver ouvido, e vos anunciará as coisas vindouras. Ele me glorificará, porque receberá do que é meu, e vo-lo anunciará. Tudo quanto o Pai tem é meu; por isso eu vos disse que ele, recebendo do que é meu, vo-lo anunciará.

João 16: 13- 15

 

É Ele quem nos dá a fé:

 

683. «Ninguém pode dizer “Jesus é o Senhor” a não ser pela ação do Espírito Santo» (1Cor 12, 3). «Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: “Abbá! Pai!’» (Gl 4, 6). Este conhecimento da fé só é possível no Espírito Santo. Para estar em contato com Cristo, é preciso primeiro ter sido tocado pelo Espírito Santo. É Ele que nos precede e suscita em nós a fé. Em virtude do nosso Batismo, primeiro sacramento da fé, a Vida, que tem a sua fonte no Pai e nos é oferecida no Filho, é-nos comunicada, íntima e pessoalmente, pelo Espírito Santo na Igreja:

O Batismo «dá-nos a graça do novo nascimento em Deus Pai, por meio do Filho no Espírito Santo. Porque aqueles que têm o Espírito de Deus são conduzidos ao Verbo, isto é, ao Filho: mas o Filho apresenta-os ao Pai, e o Pai dá-lhes a incorruptibilidade. Portanto, sem o Espírito não é possível ver o Filho de Deus, e sem o Filho ninguém tem acesso ao Pai, porque o conhecimento do Pai é o Filho, e o conhecimento do Filho de Deus faz-se pelo Espírito Santo».

Catecismo da Igreja

 

Gênesis 1,1 testifica que no princípio o Espírito de Deus pairava por sobre as águas, e o trecho base de Ezequiel e variados outros exemplos demonstram claramente que não é este um termo adicionado por Cristo apenas no Novo Testamento, mas estava presente nas primeiras profecias do Senhor, e mais! => Este Espírito é uma presença revelada na Terra que testifica aos homens sobre a existência e a vontade de Deus.

 

João 14. 17 =[…] e Ele (o Pai) vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre; O Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós.

 

Aqui Jesus afirma que a Igreja não ficariam sozinhos depois de sua partida até vir à Terra novamente, mas eles esperariam consolados durante um “breve tempo” pelo Espírito, que lhes prestaria assistência eternamente. Este Consolador é dado ao que crê e abraça a fé da Igreja no Batismo, não podendo ser revelado ao mundo porque este não o reconhece (e nem pode), e em razão de ser carnal, não compreende as coisas eternas, pois estas lhes parecem loucura. Porém este Espírito viverá na Igreja:

 

Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido. Porque quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo.

1 Coríntios 2:14-16

 

A Igreja declara a fé apostólica concernente ao Espírito no segundo concílio ecumênico em Constantinopla (381): “Cremos no Espírito Santo, Senhor e doador da vida, que procede do Pai”. Por esta confissão, a Igreja reconhece o Pai como “a fonte e a origem de toda a divindade”. Mas a origem eterna do Espírito não está dissociada da origem do Filho... Ele não é chamado apenas de Espírito do Pai… mas de Espírito tanto do Pai quanto do Filho. São Gregório Nazienzo declara a maneira progressiva como Deus foi se revelando:

 

O Antigo Testamento proclamava manifestamente o Pai e mais obscuramente o Filho. O Novo manifestou o Filho e fez entrever a divindade do Espírito. Agora, porém, o próprio Espírito vive conosco e manifesta-se a nós mais abertamente. Com efeito, quando ainda não se confessava a divindade do Pai, não era prudente proclamar abertamente o Filho: e quando a divindade do Filho ainda não era admitida, não era prudente acrescentar o Espírito Santo como um fardo suplementar, para empregar uma expressão um tanto ousada […] É por avanços e progressões “de glória em glória ” que a luz da Trindade brilhará em mais esplendorosas claridades.

Oratio 31 (Theologica 5), 26: SC 250, 326 (PG 36, 161-164).

 

O que esse santo padre quer dizer é basicamente a razão das poucas referências a esse Espírito como dotado de pessoalidade no começo da revelação. Martin McNamara cita esse ponto ao tratar dos Targums (traduções aramaicas da Bíblia). Comentando o Targum palestino do Pentateuco na Biblioteca do Vaticano (Codex Neofiti 1), Ele fala da expressão “Espírito Santo”, que se dá apenas 13 vezes, enquanto em Onkelos, a única designação é “Espírito de profecia”. Havia também certas expressões que poupavam o termo: Shekinah é uma delas; do verbo shaken [habitar, se colocar no meio], trazida sempre ao texto toda vez que o escritor desejava dar a ideia de Deus habitando no meio do povo, ou trazendo a Sua presença santa para a terra:

 

E me farão um santuário, e habitarei no meio deles. Ex 25,8

Homens ou mulheres, lançai-os fora do acampamento no meio do qual habito, para que não o manchem”. Nm 5,3

Mas, doravante, eles afastarão de mim as suas prostituições e os cadáveres de seus reis, e eu estabelecerei definitivamente minha morada entre eles. Ez 43,9

 

No Codex Nf 1, esse termo ocorre muito raramente sem estar acompanhado da expressão “Glória”. Vindo quase sempre com a seguinte ideia: “A glória da shekinah do Senhor”. Indica “presença de glória do Senhor”, [como em Nf Êx. 15,17, que diz “habitação da Vossa santidade”]. Para o Port., temos: “Vós o conduzireis e o plantareis na montanha que vos pertence, no lugar que preparastes para vossa habitação, Senhor, no santuário, Senhor, que vossas mãos fundaram”. Em Êx. 24, 17, é dito: “a Aparência da Shekinah do Senhor era como um fogo consumidor”. Quando Jesus sobe para o Pai, após ressuscitar, Ele orienta os discípulos a aguardar a promessa de que essa presença de glória que era a própria habitação de Deus em seu meio seria derramada sobre eles: “Eu vos mandarei o Prometido de meu Pai; entretanto, permanecei na cidade de Jerusalém, até que sejais revestidos da força do alto” [Lc 24, 49]. Essa era a habitação da presença de glória prometida a Israel, a vida divina em seu meio, tal como foi dito ao profeta Joel 3, 1-4 [2,28-31]:

 

 

Depois disso, acontecerá que derramarei o meu Espírito sobre todo ser vivo: vossos filhos e vossas filhas profetizarão; vossos anciãos terão sonhos, e vossos jovens terão visões. Naqueles dias, derramarei também o meu Espírito sobre os escravos e as escravas. Farei aparecer prodígios no céu e na terra, sangue, fogo e turbilhões de fumo. O sol se converterá em trevas e a lua, em sangue, ao se aproximar o grandioso e temível dia do Senhor.

 

E se cumpriu em Pentecostes, como lemos:

 

Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reu­nidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo, que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.

Atos 2:4-4

 

 

Jesus assegurou aos seus que essa relação com o Divino se manteria até o fim do mundo [“Eis que estou convosco até a consumação dos séculos” – Mateus 28, 20]. Ele ficaria com eles, não importando o que ocorresse. A Promessa da permanência e assistência perpétua do Espírito divino no meio da Igreja é a razão de a Fé cristã professar no Credo Apostólico: “Creio na Santa Igreja Católica” após a cláusula “Creio no Espírito Santo” .Cremos na Igreja porque cremos no Espírito Santo, porque Deus prometeu ficar com ela, guiá-la para sempre a toda Verdade e preservá-la do erro e do mal. No Concílio de Jerusalém, em Atos 15, seguindo a ordem do Senhor Jesus, segundo a qual, quando houvesse controvérsia ou disputa entre fiéis, os cristãos deveriam levar o caso às autoridades eclesiásticas para solução dos confitos [Mt 18, 17], os apóstolos se reuniram para deliberar o caso. E eles, ao fim, apontaram para a presença do Espírito Santo guiando o Concílio como seu dirigente silencioso e invisível, seu poderoso suporte e o confirmador final da decisão:

 

Com efeito, pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor outro peso além do seguinte indispensável […] 

Atos 15:28

 

A doutrina concernente o Espírito Santo é parte do mistério da Santíssima Trindade.

 

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Mas quem é o Espírito Santo?

 

Na cidade imperial de Constantinopla, no ano 381 d. C., um outro Concílio foi provocado entre os cristãos, suscitado em razão de heresias variadas. Uma delas era a ideia de que Cristo não possuía uma alma humana, o que foi condenado devidamente e com razão. Contudo, uma das heresias que se discutiu dizia respeito exatamente à divindade do Espírito Santo. A Igreja manteve o posicionamento solene e ortodoxo dos 318 pais do antecedente Concílio de Niceia, reafirmando a Trindade e condenando esse erro.

 

Mas o que nos confirma convosco em Cristo e o que nos ungiu é Deus, O qual também nos selou e deu o penhor do Espírito em nossos corações.

2Co 1: 21- 22

 

Ele disse que Deus, o Pai, tinha selado seus santos na promessa e dado seu Espírito como penhor a eles. Segundo o dicionário Aurélio: Penhor (sm):  “Um direito real que vincula alguma coisa móvel a uma dívida, como garantia de pagamento desta mesma dívida”. Mas isso não pode ser entendido, de modo algum, como um indício da impessoalidade do Espírito Santo. Os pontos essenciais do dogma devem ser cridos por todos os fiéis e podem ser resumidos nas seguintes proposições:

 

    • O Espírito Santo é a terceira pessoa da Santíssima Trindade.
    • Embora seja realmente distinto, como Pessoa, do Pai e do Filho, Ele é consubstancial a Eles; sendo Deus como Eles, Ele possui com Eles uma mesma Essência ou Natureza Divina .
    • Ele procede, não por meio da geração, mas por meio da espiração, do Pai e do Filho juntos, como de um único princípio.

 

Essa é a crença que a fé católica exige.

 

SEITAS CONTRÁRIAS AO ENTENDIMENTO ORTODOXO ACERCA DO ESPÍRITO

 

  • Nos séculos II e III, os monarquistas dinâmicos ou modalistas (certos ebionitas, diz-se, Teódoto de Bizâncio, Paulo de Samósata, Praxeas, Noétoo, Sabélio e os patripassianos em geral) sustentavam que a mesma Pessoa Divina, de acordo com suas diferentes operações ou manifestações, era chamada, por sua vez, de Pai, Filho e Espírito Santo; assim, reconheciam uma Trindade puramente nominal.
  • No século IV e posteriormente, os arianos e seus numerosos descendentes heréticos — anomanos ou eunomianos , semiarianos , acacianos , etc. — embora admitissem a tríplice personalidade, negavam a consubstancialidade. O arianismo foi precedido pela teoria da subordinação de alguns escritores ante-nicenos, que afirmavam uma diferença e uma gradação entre as Pessoas Divinas além daquelas que surgem de suas relações de origem.
  • No século XVI, os socinianos rejeitaram explicitamente, em nome da razão, juntamente com todos os mistérios do cristianismo, a doutrina das Três Pessoas em um Só Deus.
  • Podem também ser mencionadas as doutrinas de Johannes Philoponus (século VI), Roscellinus, Gilbert de la Porrée, Joachim de Flora (séculos XI e XII) e, nos tempos modernos, Günther, que, ao negarem ou obscurecerem a doutrina da unidade numérica da Natureza Divina, na realidade estabeleceram uma divindade tríplice.

 

Além desses sistemas e desses autores, que entraram em conflito com a verdadeira doutrina sobre o Espírito Santo apenas indiretamente e como resultado lógico de erros anteriores, houve outros que atacaram a verdade diretamente:

 

  • Por volta de meados do século IV, Macedônio , bispo de Constantinopla, e, depois dele, vários semiarianos, embora aparentemente admitissem a divindade do Verbo, negavam a do Espírito Santo. Colocavam-no entre os espíritos, ministros inferiores de Deus, mas superiores aos anjos. Foram condenados pelo Concílio de Constantinopla, em 381, sob o nome de pneumatomáquios ( Mansi , III, col. 560).
  • Desde os tempos de Fócio, os gregos sustentam que o Espírito Santo, verdadeiro Deus como o Pai e o Filho, procede somente do primeiro.

 

Enciclopédia Católica

 

 

 

 

Foto de David Bumgardner na Unsplash

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Kertelen Ribeiro

Kertelen Ribeiro é uma ex-protestante convertida ao catolicismo romano. Sendo leiga, faz parte da Legião de Maria. Ama ícones, arte e se arrisca no desenho, mas ainda não sabe fazer sombra direito. Graduada em Letras – Português e pós-graduada em Tradução do Inglês pela Estácio, atua como tradutora freelancer e deseja servir a Cristo, se esforçando para fazer a Sua vontade. Livros sempre foram o caminho.

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Kertelen Ribeiro é uma ex-protestante convertida ao catolicismo romano. Sendo leiga, faz parte da Legião de Maria. Ama ícones, arte e se arrisca no desenho, mas ainda não sabe fazer sombra direito. Graduada em Letras – Português e pós-graduada em Tradução do Inglês pela Estácio, atua como tradutora freelancer e deseja servir a Cristo, se esforçando para fazer a Sua vontade. Livros sempre foram o caminho.

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