É verdade que a Igreja passa por crises no mundo, todavia, nenhum católico demonstra acreditar que elas têm poder para fazer sucumbrir a Noiva de Cristo. Como disse o Senhor, “as portas do inferno não prevalecerão”. Santo Tomás de Aquino escreveu o seguinte:
A Igreja sempre se mostrou indestrutível. Seus perseguidores falharam em destruí-la; na verdade, foi em tempos de perseguição que a Igreja cresceu mais e mais; enquanto os próprios perseguidores, e aqueles que a Igreja destruiria, são os mesmos que se tornaram nada… De novo, erros a assaltaram; mas, na verdade, quanto maior o número de erros que surgiram, mais a verdade se manifestou… Tampouco a Igreja falhou diante dos ataques dos demônios: pois ela é como uma torre de refúgio para todos que lutam contra o Diabo.
Tal é a esperança católica. A Igreja não cairá. Alguns anticatólicos afirmam não negar esta verdade declarada por Cristo no Evangelho, contudo, basta dedicarmos algum tempo a analisar suas doutrinas para logo percebermos que não é bem assim. Todos eles, em defesa de sua religião, precisam recorrer a uma crença na Apostasia Generalizada da Fé logo nos primeiros anos de Cristianismo. Ou seja, todos os anticatólicos, igualmente, sustentam que a Igreja caiu tragicamente em um estado de heresia universal de tal modo que precisou de uma restauração em tempos modernos, comumente realizada pelo grupo religioso do qual fazem parte, considerado como tendo trazido de volta o “puro e verdadeiro cristianismo”, perdido, após anos de amortecimento e ataques reiterados de heresias que triunfaram e sufocaram a Cristandade. Os católicos, no entanto, diferem de todos esses ramos religiosos que apontam para essa precoce Apostasia generalizada justamente por defender o contrário. Para nós, a Igreja sempre foi vitoriosa. Em todo tempo, heresias se levantaram, porém os católicos sustentam firmemente que elas nunca triunfaram sobre a Fé.
A TENTAÇÃO DE UMA IGREJA INVISÍVEL
Qual é a cidadela da Apostasia Generalizada? Os criadores dessa tese se refugiam numa ideia como fundação principal de suas reivindicações: a ideia da Igreja Invisível. Isso me lembra a questão da realidade da igreja, isto é, uma instituição para além das esferas das idealizações. É fácil aceitar uma igreja invisível simplesmente porque ela não é real. E a imaginação é sempre tentadora. O que quero dizer é que a ideia da igreja invisível é tentadora porque ela não te desafia a acreditar de verdade na igreja, já que ela te livra das consequências da edificação de uma Igreja de pessoas reais na História e, claro, consequentemente, você também não precisa crer na promessa de Deus para a igreja. Essa igreja deveria, caso seja real, tomar decisões vinculantes, realizar concílios, organizar-se doutrinariamente, possuir uma administração, enviar missionários, estabelecer formas de verificação de heresias, instituir bispos e decidir sobre o cânon da Escritura. Essa é uma Igreja que ultrapassaria os séculos e teria sua presença marcada na História de maneira objetiva e rastreável. Os católicos precisam permanecer no mundo real, pois eles creem nessa Igreja real. Seria isso um tendão de Aquiles para nós? Alguns dizem que sim. Mas eu penso que essa é justamente a força do Catolicismo. Os católicos não arredam o pé do que foi dito: “As portas do inferno não prevalecerão”. Ponto final.
Logo, a explicação que surge como fundamento da Fé dos Católicos na vitória da Igreja é precisamente a ideia de que o Evangelho é, ele próprio, inerrante, de modo que ele seria mentiroso caso a Igreja fosse falível, pois é ele mesmo a apontar para a realidade da Igreja no mundo, além de ser ela a sustentação e a origem de sua autoridade. E a própria eleição dos livros da Bíblia impede os católicos também de crer em uma igreja que é uma idealização espectral e quimérica, mesmo que a fantasia seja um apelo sedutor diante da fraqueza humana dos membros da Noiva de Cristo. Somos obrigados a permanecer fincados na promessa do Senhor. Santo Agostinho chegou a tratar deste tema em uma carta. Veja o que ele diz:
SANTO AGOSTINHO DE HIPONA

Portanto, é muito mais justo e seguro para mim, tendo em um momento depositado minha fé nos católicos, não me converter a você […]. Para me convencer, então, você precisa deixar o Evangelho de lado. Se você ficar preso ao Evangelho, eu ficarei preso àqueles que me ordenaram a crer nele [no Evangelho]; e, em obediência a eles, não acreditarei em você de forma alguma. Mas se por acaso você conseguir encontrar no Evangelho um testemunho incontestável do apostolado de Maniqueu, você enfraquecerá minha consideração pela autoridade dos católicos que me disseram para não crer em você; e o efeito disso será que eu também não poderei mais crer no Evangelho, pois foi por meio dos católicos que obtive minha fé nele; e assim, tudo o que você trouxer do Evangelho não terá mais peso para mim. Portanto, se nenhuma prova clara do apostolado de Maniqueu for encontrada no Evangelho, eu acreditarei nos católicos em vez de acreditar em você. Mas se você ler ali alguma passagem claramente a favor de Maniqueu, eu não acreditarei nem neles nem em você: não neles, porque mentiram para mim a seu respeito; Nem em você, pois você me cita as Escrituras em que eu acreditava com base na autoridade daqueles mentirosos. Mas longe esteja de mim não crer no Evangelho […]
Contra a Epístola de Maniqueu [Fundamental] 5, 6
Veja que a base do argumento de Santo Agostinho é que a autoridade do Evangelho seria prejudicada caso a autoridade da Igreja Católica fosse solapada. Ele chega a desafiar os hereges dizendo que eles podem até se esforçar em provar, se puderem, que a Igreja Católica falhou. Todavia, se o fizerem, eles destruirão a própria autoridade do Evangelho e todos, de fato, deixariam de crer na Igreja Católica, mas também, em consequência, no Evangelho: “o efeito disso será que eu também não poderei mais crer no Evangelho, pois foi por meio dos católicos que obtive minha fé nele”.
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