A passagem de Êxodo 20 refere-se especificamente à adoração de ídolos.
Se ela fosse uma proibição a toda e qualquer curvatura e reverência, não teríamos a Bíblia recomendando tais atos ou mesmo permitindo-os como manifestações legítimas de piedade religiosa ou dever civil. O salmista declara alegremente: “Prostrai-vos perante o seu Monte Santo” (Salmo 99,9). Ele diz isso porque fazia uma boa exegese de Êxodo 20, e não o compreendia como proibitivo de toda e qualquer ação de mesura, genuflexão, ósculo, etc., protagonizados em relação a coisas e pessoas (além de Deus). O Monte Sinai, citado por ele, é para o povo judeu um memorial da história de redenção de sua terra. Eles consideram um ato de verdadeira e genuína religião demonstrar respeito às coisas que Deus escolheu, santificou e exaltou. Também quem faz uma boa exegese do texto de Êxodo 20, e lê 2 Reis 2,14-15, quando a Escritura atesta: “Os filhos dos profetas que estavam em Jericó, vendo o que acontecera defronte deles, disseram: ‘O espírito de Elias repousa em Eliseu’. Foram-lhe ao encontro, prostraram-se por terra diante dele.”, é incapaz de ver ali, na prostração diante do profeta de Deus, um ato de ímpia idolatria.
O mesmo se repete em:“O profeta Natã (…) veio perante o rei e se prostrou diante dele” (1 Reis 1,22-23), o que demonstra que nem mesmo o profeta de Deus, que sem dúvida entendia bem as Escrituras, sendo inpirado pelo Espírito de DEUS, interpretava de maneira tão fechada o texto de Êxodo 20. Ele mesmo se curva diante de coisas e pessoas sem qualquer dor na consciência. Ainda temos que os próprios homenageados não recusavam essas expressões de carinho e reverência: a Sunamita, por exemplo, prostra-se diante do Profeta Eliseu e toca-lhe os pés, numa atitude de apreço, deferência e humilhação [2 Reis 8, 27]. E quando Geazi, servo do profeta, tenta retirá-la de seus pés, Eliseu responde: “Deixa-a, porque a sua alma nela está triste de amargura, e o Senhor mo encobriu e não mo manifestou”. Para os católicos, a única resposta possível a todas essas passagens, que evita a ideia de que essas pessoas eram idólatras e que há ali uma contradição bíblica, é simples: Deus permite a prostração e a curvatura perante coisas e pessoas desde que você não tenha no seu coração a ideia de que essas coisas e pessoas são “deuses” [um “deus” paralelo e concorrente ao verdadeiro e único Deus é chamado de ídolo na Bíblia]. Essa ação claramente traria escândalo aos que veem, além de te afastar da presença de Deus, caindo em pecado mortal de Idolatria.
Gerbrand van den Eeckhout (1621-1674) – Domínio Público
Alguns apontam, em resposta ao argumento católico, o texto de Apocalipse 19, sobre o qual você pode ler aqui, e o de Atos 10, em que São Pedro recomenda ao centurião Cornélio que se levante:

“Quando Pedro estava para entrar, Cornélio saiu para recebê-lo e prostrou-se aos seus pés para adorá-lo. Pedro, porém, o ergueu dizendo: Levanta-te! Também sou um homem!”
Atos 10,25-26
Os defensores da definição de idolatria como qualquer mesura, prostração, beijo e genuflexão a coisas e pessoas que não são Deus argumentam que a ação negativa de S. Pedro, de explicar ao centurião que era também um homem como ele, ordenando-lhe que se levantasse, é motivo para crermos que essa prática é condenada como idolátrica de maneira categórica. Todavia, há muitos possíveis motivos para essa reação, além da ideia de que a Bíblia é contraditória e que inúmeros santos do passado eram idólatras. O próprio Apóstolo Paulo não teve a mesma reação quando o carcereiro fez o mesmo em Atos 16:

O carcereiro pediu luz, entrou correndo e, trêmulo, prostrou-se diante de Paulo e Silas. Então levou-os para fora e perguntou: “Senhores, que devo fazer para ser salvo?” Eles responderam: “Creia no Senhor Jesus, e serão salvos, você e os de sua casa”.
Atos 16,29-31
Essa situação pode ser explicada se nós entendermos que S. Pedro estava sendo simplesmente humilde ou cuidadoso quanto a dar uma adequada representação de sua identidade, visto que o centurião havia vindo de um contexto pagão. A visão de Cornélio ordenando-lhe a ter com o Apóstolo poderia criar uma certa expectativa exagerada, que deveria, julgou talvez Pedro, ser corrigida de antemão. São Paulo, no entanto, não precisava explicar ao carcereiro que era um homem comum, já que ele havia sido açoitado e preso pelo homem diante de si. Ele só precisava que ele cresse no Deus que foi o motivo de sua prisão.
O Único Ato Externo Exclusivo à Adoração (latria) é o Sacrifício
Veja que a resposta católica a esta aparente contradição faz muito mais sentido não somente pelo fato de ela evitar ao fiel o caminho de afirmar que todos esses homens de Deus do passado eram simplesmente idólatras incorrigíveis e que a Bíblia se contradiz, mas também porque ela nos leva a uma noção mais aprofundada e complexa da própria impiedade da Idolatria. Ela é uma erva daninha a se alastrar a partir do centro da mente do fiel, não simplesmente por uma ação dos sentidos, mas é escondida no coração. A Enciclopédia Católica (EC) explica bem essa questão, ao afirmar que aquilo que é interior naturalmente será exteriorizado em atos:
O elemento primordial e fundamental da adoração é um ato interior da mente e da vontade; a mente percebendo que a perfeição de Deus é infinita, a vontade nos impele a exaltar e adorar essa perfeição. Sem alguma medida dessa adoração interior “em espírito e em verdade”, é evidente que qualquer demonstração exterior de culto divino seria mera pantomima e falsidade. Mas é igualmente evidente que a adoração sentida interiormente buscará expressão exterior.
Enciclopédia Católica: “adoração”.
Esses sentimentos de adoração, que buscarão naturalmente a expressão exterior, no entanto, são variados. Note que a EC revela, em seguida, que aquilo que é interno do coração possui, na manifestação externa, um acervo de distintos atos capazes de comunicar a adoração sentida no coração do fiel, dentre os quais: beijos, prostração, etc. Isso explica a incorreta recusa de muitos anticatólicos de usar meios lícitos para honrar seres humanos ou objetos. Isso ocorre porque eles temem que, ao permitir aos membros de sua comunidade eclesiástica fazer uma simples genuflexão diante do altar, por exemplo, eles estarão inclinando-os à idolatria. Veja bem: esses atos de fato “podem” constituir ações idolátricas. Mas eles também podem significar outras coisas. A idolatria, portanto, não depende desses atos isolados, mas depende, para se concretizar, da disposição do coração. Ou seja, alguém de fato pode se curva diante de um altar, de uma imagem, de um profeta ou santo simplesmente como forma de devoção e amor. Sem necessariamente manifestar adoração. O único ato que sempre significa adoração em seu sentido mais perfeito e puro é o Sacrifício, isto é, aquilo que os católicos manifestam na Missa. Leia:
É de se esperar, então, que os homens tenham concordado com certas ações convencionais como expressões de adoração ao Ser Supremo. Dessas ações, uma tem como significado Adoração de forma preeminente e exclusiva, e essa é o Sacrifício. Outros atos têm sido amplamente utilizados para o mesmo propósito, mas a maioria deles — com exceção do sacrifício — não foi reservada exclusivamente para o culto divino; eles também foram empregados para manifestar amizade ou reverência por figuras importantes. Assim, Abrão “prostrou-se com o rosto em terra” diante do Senhor (Gênesis 17:3). Este foi claramente um ato de adoração em seu sentido mais elevado; Contudo, sabemos que o termo poderia ter outros significados, por exemplo, em 1 Reis 20:41, que diz que Davi adorou “prostrando-se com o rosto em terra” diante de Jônatas , que viera adverti-lo do ódio de Saul. De maneira semelhante, Gênesis 33:3 narra que Jacó, ao encontrar seu irmão Esaú, “inclinou-se com o rosto em terra sete vezes”. Lemos sobre outras formas de adoração entre os hebreus, como tirar as sandálias (Êxodo 3:5), curvar-se (Gênesis 24:26), e somos informados de que o publicano contrito orava de pé, e que São Paulo se ajoelhava quando adorava com os anciãos de Éfeso. Entre os primeiros cristãos, era comum adorar a Deus de pé, com os braços estendidos e voltado para o leste.
Enciclopédia Católica: “adoração”.
Essa questão já foi inclusive debatida na Igreja Primitiva, com Santo Agostinho explicando ao herege Fausto o motivo de os cristãos venerarem os santos. Ele também argumenta que para a Igreja de sua época, Adoração também só era manifesta de forma exclusiva no Sacrifício da Missa: “O que é culto propriamente divino, aquilo que os gregos chamam de LATRIA, e para o qual não existe palavra em latim, tanto na doutrina quanto na prática, nós damos somente a Deus. A este culto pertence a Oferta de Sacrifícios…

Filipe de Champaigne (1602–1674) – Domínio Público
SANTO AGOSTINHO SOBRE A HONRA AOS MÁRTIRES (SANTOS)
E O SACRIFÍCIO DA MISSA
É verdade que os cristãos prestam honra religiosa à memória dos mártires, tanto para nos estimular a imitá-los como para obtermos a participação em seus méritos e a ajuda de suas orações. Mas nós construímos altares não para qualquer mártir, mas para o Deus dos mártires, embora seja em memória aos mártires. Ninguém oficiando no altar no cemitério dos santos jamais declara: Nós trazemos uma oferta a você, ó Pedro! Ou a ti, ó Paulo! Ou a tu, ó Cipriano! A oferenda é feita a Deus, que deu a coroa do martírio, enquanto é realizada em memória dos que foram assim coroados. A emoção aumenta pelas associações do lugar, e o amor é estimulado tanto por aqueles que são nossos exemplos (os santos) quanto por Aquele por cuja ajuda podemos seguir tais exemplos. Consideramos os mártires com a mesma intimidade afetuosa que sentimos para com os homens santos de Deus nesta vida (na terra), quando tomamos ciência de que seus corações estão preparados para suportar o mesmo sofrimento pela verdade do evangelho.
Há mais devoção em nosso sentimento para com os mártires, porque sabemos que seu conflito acabou; e podemos falar com maior confiança em louvor daqueles que já são vencedores no céu, do que daqueles que ainda estão na batalha aqui. O que é culto propriamente divino, aquilo que os gregos chamam de LATRIA, e para o qual não existe palavra em latim, tanto na doutrina quanto na prática, nós damos somente a Deus. A este culto pertence a Oferta de Sacrifícios; como vemos na palavra “idolatria”, que significa dar esta adoração a ídolos. Sendo assim, nunca oferecemos, ou exigimos que alguém ofereça, Sacrifício a um mártir, ou a uma alma santa, ou a qualquer anjo. Qualquer pessoa que caia nesse erro é logo instruída pela doutrina, seja no sentido de correção ou para ter cautela […] Sacrificar aos mártires, mesmo em jejum, é pior do que retornar para casa embriagado da festa: digo sacrificar aos mártires, que é diferente de sacrificar a Deus em memória dos mártires, como fazemos constantemente, em conformidade com a maneira exigida desde a revelação do Novo Testamento…
– Santo Agostinho, Contra Faustum, Livro XX, 397 d. C.
Se você compreender a noção de Idolatria de Santo Agostinho e da Igreja Católica, você certamente se livrará de considerar versos da Bíblia como instruções pecaminosas aos fiéis, tais como a recomendação de se curvar diante de um Monte ou de um Templo: “Inclinar-me-ei para o teu santo Templo” (Salmo 138, 2), que também refletem a ideia judaica e cristã de respeito às coisas sagradas que DEUS escolheu. Além disso, é importante não pecar segundo a condenação de Isaías 5, 20 [“Ai daquele que chama o bem de mal”], chamando a ação piedosa de homens de Deus como Josué, que “rasgou suas vestes e prostrou-se com a face por terra até a tarde, diante da Arca do Senhor, tanto ele como os anciãos de Israel, e cobriram de pó as suas cabeças.” (Josué 7,6), como má e idolátrica. Se você chama algo que Deus considera bom de mal, você cai em pecado, além de acusar de maneira temerária um irmão na Fé. Quem vai por esse caminho deve certamente ter cuidado. E podemos saber que o Senhor aprovou a ação de Josué pelo fato de que, graças a isso, o povo foi ouvido por Deus e recebeu auxílio na Batalha. Pela ação de Josué e dos anciãos de Israel de se prostrarem diante da Arca da Aliança em humildade, veneração e sujeição, durante um dia inteiro, Israel entendeu aquilo que deveria ser corrigido no seu meio e venceu todo os seus inimigos.
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