INTRODUÇÃO
A Patrística é uma terra disputada, e como sabemos, Santo Agostinho é extremamente amado por grupos diversos de cristãos. Sempre alguém vai puxar uma citação da manga em um debate acirrado, para fundamentar a doutrina, compreensão e interpretação de sua vertente, o que é legítimo. E esse santo, de quem gosto muito, vire e mexe se torna o centro das atenções em alguma polêmica. Por conta disso, há alguns pontos que merecem esclarecimento com respeito ao padre africano Agostinho de Hipona.
𝟭. 𝘼𝙂𝙊𝙎𝙏𝙄𝙉𝙃𝙊 𝙁𝘼𝙇𝘼 𝙎𝙊𝘽𝙍𝙀 𝙑𝙄𝙎𝙊̃𝙀𝙎 𝙀 𝙎𝙊𝙉𝙃𝙊𝙎 𝙌𝙐𝙀 𝙊𝙎 𝙑𝙄𝙑𝙊𝙎 𝙏𝙀̂𝙈 𝘿𝙊𝙎 𝙈𝙊𝙍𝙏𝙊𝙎
A polêmica trata de uma obra de Agostinho intitulada “O Cuidado Devido aos Mortos” e começa com um protestante dizendo: “ɴᴇsᴛᴇ ʟɪᴠʀᴏ, ᴀɢᴏsᴛɪɴʜᴏ ᴠᴀɪ ʀᴇʙᴀᴛᴇʀ ᴀs ᴄʀᴇɴᴅɪᴄᴇs ᴅᴀ ᴇ́ᴘᴏᴄᴀ, ɪɴᴄʟᴜɪɴᴅᴏ ᴀ ɴᴏᴄ̧ᴀ̃ᴏ ᴅᴇ ǫᴜᴇ ᴏs ᴍᴏʀᴛᴏs ᴘᴏᴅᴇʀɪᴀᴍ sᴇ ᴀᴘʀᴇsᴇɴᴛᴀʀ ᴇᴍ sᴏɴʜᴏs ᴇ ᴠɪsᴏ̃ᴇs ᴀᴏs ᴠɪᴠᴏs ᴇ ᴇsᴛᴀʀᴇᴍ ᴄɪᴇɴᴛᴇs ᴅᴏs ᴀssᴜɴᴛᴏs ᴅᴏs ᴍᴏʀᴛᴀɪs”. A primeira coisa que me chamou atenção foi essa sentença. Fiquei curiosa para saber como o autor chegou a essa conclusão, então continuei lendo à medida que ele formulava sua argumentação em torno primeiramente de um trecho em que Agostinho havia tratado de sonhos de pessoas vivas envolvendo os mortos.
ᴇʟᴇ ᴄɪᴛᴀ ᴀɢᴏsᴛɪɴʜᴏ:
ᴘʀᴏᴛᴇsᴛᴀɴᴛᴇ: ᴇ́ ᴇᴠɪᴅᴇɴᴛᴇ ǫᴜᴇ ᴏ ᴘᴇɴsᴀᴍᴇɴᴛᴏ ᴅᴇ ᴀɢᴏsᴛɪɴʜᴏ ᴀǫᴜɪ ᴇ́ ǫᴜᴇ ᴀs ᴀʟᴍᴀs, ᴛᴀɴᴛᴏ ᴅᴏs sᴀɴᴛᴏs ǫᴜᴀɴᴛᴏ ᴅᴏs ɪ́ᴍᴘɪᴏs, ᴇsᴛᴀ̃ᴏ ʟɪᴍɪᴛᴀᴅᴏs ᴅᴏ ᴄᴏɴʜᴇᴄɪᴍᴇɴᴛᴏ ᴅᴀs ᴄᴏɪsᴀs ǫᴜᴇ ᴀᴄᴏɴᴛᴇᴄᴇᴍ ɴᴀ ᴛᴇʀʀᴀ, ᴇ ᴇssᴀ ʟɪᴍɪᴛᴀᴄ̧ᴀ̃ᴏ ᴇ́ ᴘᴀʀᴀ ᴇʟᴇ ᴀʟɢᴏ ᴇsᴘᴀᴄɪᴀʟ ᴇ ᴛᴇᴍᴘᴏʀᴀʟ, ᴀssɪᴍ ᴄᴏᴍᴏ ᴀᴄᴏɴᴛᴇᴄᴇ ᴄᴏᴍ ᴏs ғɪᴇ́ɪs ɴᴀ ᴛᴇʀʀᴀ.
Isso é verdade, OS MORTOS ESTÃO LIMITADOS, mas Agostinho não está dizendo que os mortos ESTÃO ABSOLUTAMENTE INACESSÍVEIS, ou que NADA PODEM SABER DOS VIVOS, ou que jamais ATUAM realizando OBRAS INTERVENCIONISTAS NA TERRA em seu favor. Ele está dizendo que essa é sua limitação natural, citada pelo protestante de forma correta, mas isso não o coloca numa situação de negar que diversas vezes essa circunstância é superada pelo PODER SOBRENATURAL de Deus, que permite a agência dos santos no mundo para louvor de sua glória. Agostinho defendia isso.
𝟮. 𝘼𝙂𝙊𝙎𝙏𝙄𝙉𝙃𝙊 𝘼𝘾𝙍𝙀𝘿𝙄𝙏𝘼𝙑𝘼 𝙌𝙐𝙀 𝙊𝙎 𝙈𝙊𝙍𝙏𝙊𝙎 𝙄𝙉𝙏𝙀𝙍𝙑𝙄𝙉𝙃𝘼𝙈 𝙉𝘼 𝙑𝙄𝘿𝘼 𝘿𝙊𝙎 𝙑𝙄𝙑𝙊𝙎 𝙍𝙀𝙎𝙋𝙊𝙉𝘿𝙀𝙉𝘿𝙊 𝙎𝙐𝘼𝙎 𝙊𝙍𝘼𝘾̧𝙊̃𝙀𝙎 𝙀 𝘼̀𝙎 𝙑𝙀𝙕𝙀𝙎 SE MANIFESTAVAM 𝙉𝙊 𝙈𝙐𝙉𝘿𝙊 𝙑𝙄𝙎𝙄́𝙑𝙀𝙇
O autor protestante, apressadamente e erroneamente concluiu, pelo fato de Agostinho não negar a limitação natural dos mortos, que ele estava assumindo que eles não atuavam na vida dos vivos ou que era certo que não sabiam do que ocorria na terra, sendo, portanto fútil dirigir-lhes orações:
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É conveniente mencionar Agostinho citando explicitamente e de forma positiva a prática de sua mãe de levar petições aos oratórios dos santos mortos porque se tornou comum entre os protestantes enfatizar a distinção entre invocação (petição) e intercessão, como se algum santo padre como Agostinho pudesse conceber a ideia de que os santos intercedem no céu por necessidades dos mortais que eles absolutamente desconhecem, as quais não foram levadas a eles em oração pelo poder divino em resposta às palavras dirigidas pelo fiel vivo na terra. É claro que, como foi dito, não se nega a barreira natural que existe entre os vivos e os mortos. E sobre essa questão, vale repetir a pergunta do bispo de Hipona: “como os mártires QUE SE INTERESSAM PELAS COISAS HUMANAS SE MANIFESTAM, ATENDENDO AS NOSSAS ORAÇÕES… se os mortos ignoram o que fazem os vivos?” Isto é, “como atendem as nossas orações, se deveriam [naturalmente] ignorar as ações dos vivos?” E nisso temos um ponto importante, pois Agostinho conclui que tal fenômeno se dá por permissão de Deus. E é óbvio! Jamais um católico sustentará que os mortos em sua condição comum e natural seriam capazes de se manifestar aos vivos. Isso nunca foi ensinado. A Igreja sustenta que tais manifestações da graça divina ocorrem porque Deus assim permite, em razão do triunfo da Igreja sobre a morte por causa da ressurreição de Cristo, que concede dons aos homens. Agostinho não acreditava que os mortos poderiam naturalmente servir aos vivos ou respondê-los, pois a morte é um rompimento de relações. Para firmar seu argumento, ele sustenta o exemplo da aparição de um santo de sua época a alguns fiéis que testemunharam o evento no túmulo do finado. Tratava-se de São Félix de Nola, a quem Agostinho faz referência com o fim de demonstrar que aquilo fora uma manifestação sobrenatural, isto é, algo que ultrapassava as concepções humanas e o curso natural das coisas.
ᴀɢᴏsᴛɪɴʜᴏ ᴘʀᴏssᴇɢᴜᴇ:
Veja que a situação em que esses eventos ocorrem jamais é tirada do âmbito sobrenatural por Agostinho, já que naturalmente, os mortos não deveriam saber o que os vivos fazem. Muitos argumentam que tais provas não são contundentes o suficiente, mas a verdade é que temos mais do que o bastante quando pensamos em evidências sólidas das doutrinas de Agostinho: 1) o relato seguro do próprio Agostinho tratando como verdadeira e digna de fé a aparição de um homem santo depois de morto a pessoas cristãs da Igreja e além disso 2) uma citação mostrando o seu apoio à prática de petição aos santos em interação com duas de suas mais próximas influências pessoais, Santa MÔNICA, sua mãe, e Santo AMBRÓSIO (Leia). Sobre ele, veja a doutrina presente nos ensinos do grande Bispo que foi o verdadeiro Pai espiritual de Santo Agostinho e o grande cooperador para sua conversão e formação teológica:
AMBRÓSIO DE MILÃO (340 – 397 d.C)
MENTOR DE AGOSTINHO, DEFENDIA A INVOCAÇÃO DOS SANTOS E ANJOS

Que Pedro, que chorou tão eficazmente por si mesmo, chore por nós [também] e faça com que o semblante benigno de Cristo volte-se para nós.
– O trabalho dos Seis Dias 5:25:90, ano 393 d. C.
Elas (As viúvas) devem recorrer aos Apóstolos, que podem nos ajudar, e devem ser introduzidas pela intercessão dos anjos e dos mártires.
– Sobre as Viúvas 9, ano 340-397 d. C.
Os anjos devem ser invocados (obsecrandi, alvo de súplicas), os quais nos foram dados como guardiões; os mártires devem ser invocados, cujo patrocínio reivindicamos para nós mesmos pelo penhor de seus corpos.
ibid. 55, ano 340-397 d. C.
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PETIÇÕES DIRETAMENTE AO SANTO?
Além disso, sobre a ideia de petições diretas, a Igreja não considera a petição ou invocação o único meio de se requerer a intercessão do mérito de um santo. Isso de fato é o mais comum. O ato de proferir palavras, como:”Santo tal, rogai por mim”, ou “Peço que leve minha causa a Deus São fulano” NÃO é a única forma de invocação. Mas essa é apenas uma das obras de requerimento, vamos dizer assim (a petição oral). Todavia, é possível pedir intercessão de um santo por meio de OUTRAS OBRAS ALÉM DA MERA AÇÃO DE PROFERIR PALAVRAS, como por exemplo com o ato de levar uma criança doente diante da relíquia de um santo mártir, na esperança de receber do santo aquela intercessão, uma AÇÃO DIFERENTE DE PROFERIR O NOME DO MÁRTIR. Mas que também é um pedido de intercessão de mérito para a Igreja Católica. Veja o caso em relação a um menino ferido citado por Agostinho em outra obra:
Audurus é o nome de uma propriedade onde existe uma igreja que contém um santuário memorial do mártir Estêvão. Aconteceu que, quando um menino brincava na quadra, os bois que puxavam uma carroça saíram da trilha e o esmagaram com a roda, de modo que imediatamente ele pareceu dar seu último suspiro. Sua mãe o agarrou e o colocou no santuário, e ele não apenas voltou à vida, como também apareceu ileso.
Cidade de Deus, XXII, cap. 8
Ainda que seja uma obra diferente da obra de proferir palavras, ainda assim não deixa de ser uma súplica, isto é, um pedido na forma de uma ação NÃO ORAL/VERBAL. Agostinho concordava que aquela ação constituia também uma súplica, contudo, ele também achava que era necessária a ação de proferir palavras em adição. E ele chega a dizer isso:
Aquela mãe cristã de que me falaste desejou que o corpo de seu filho fosse depositado na basílica de um mártir por ter aquele expirado na fé. É que ela acreditava que a alma do finado poderia ser ajudada pelos méritos desse mártir. Essa fé, a seu modo, já era uma SÚPLICA; e súplica útil, se admitirmos isso, à medida em que voltar o seu pensamento frequentemente em direção a esse túmulo e, cada vez mais, recomendar o filho em suas orações… e é isto o que realmente será útil para a alma do finado.
O Cuidado devido aos mortos, Cap. 4
Para quem argumenta que Santo Agostinho apenas recomendava uma súplica não oral, esse trecho é uma bomba. Além disso, eu dei outro exemplo, o de sua própria Mãe levando petições aos santos. E o contexto é muito claro, já que ela mesma praticava outras ações além dessa, e devo dizer mais excessivas, coisa que fez com que Santo Ambrósio a repreendesse. Agostinho também comenta casos de pessoas PEDINDO AOS SANTOS DIRETAMENTE elogiando-as ou recomendado sua ação como algo nobre e justo (não condenando-as). Como o seguinte do mesmo livro da citação das relíquias de Estêvão:
Havia um velho chamado Florêncio, nosso filho de Hipona, homem piedoso e pobre. Vivia da sua arte de alfaiate. Havia perdido seu casaco e não tinha com o que comprar outro. ELE PEDIU aos 20 mártires, tão celebrados entre nós, e PEDIU-LHES em alta voz algo com o que se vestir. Uns adolescentes brincalhões ouviram-no e o seguiram, caçoando dele. Ele ia caminhando e viu um enorme peixe encalhado na praia ainda a agitar-se. Apanhou-o e vendeu-o a um certo cozinheiro chamado Catoso, bom cristão, a quem contou tudo o que aconteceu. O cozinheiro, ao abrir o peixe, encontrou no ventre um anel de ouro e imediatamente, tomado de compaixão e possuído de religioso temor, entregou-o ao homem, dizendo: Veja como os vinte mártires te vestiram.
Cidade de Deus Livro XXII, Capitulo VIII
Alguém pode sugerir que Agostinho apenas CITAVA A PRÁTICA nesses versos, não RECOMENDANDO-AS, mas esse tipo de abordagem ignora os claros sinais de sua aprovação, já que nos primeiros casos que citei vemos Agostinho literalmente orientando pessoas a ENCOMENDAREM seus espíritos aos santos mártires – COISA ESTRANHA DE DIZER SE ELES ESTÃO APENAS ORANDO A DEUS, UMA VEZ QUE PEDEM QUE DE ALGUMA FORMA O MÁRTIR PARTICIPE DESSA RELAÇÃO…. E depois ele cita sua mãe em 2 situações:
1) FAZENDO ALGO INCORRETO
e
2) FAZENDO ALGO CORRETO:
entre os atos corretos estão “petições aos mártires”
Ary Scheffer Wikimedia Commons
No último caso, ainda vemos Agostinho citando uma série de Milagres que pelo começo do capítulo, sabemos se tratar de uma DEFESA DA FÉ NOS MILAGRES. Ele diz claramente de um homem fiel: “pediu”… a quem? “Aos 20 MÁRTIRES”. E começa essa série de exemplos de milagres deste livro específico dizendo: “Pois mesmo agora milagres são realizados em nome de Cristo, seja por seus sacramentos ou por meio das relíquias e orações de seus santos” (Cidade de Deus 22: 8, ano 419 d. C.). Ele está aprovando a prática! E mais: está usando-a como conduta piedosa. Quanto aos anjos, temos a aprovação manifesta de Agostinho com respeito às palavras proferidas sob sua intermediação e intercessão quando o vemos, numa carta escrita a uma cristã chamada Proba, ele dizer: “Sejam os vossos pedidos conhecidos por Deus (Filipenses 4:6), isso não deve ser entendido como se assim eles se tornassem conhecidos da parte de Deus, que certamente já os conhecia antes de serem proferidos, mas neste sentido, que eles devem ser ‘divulgados’ a nós mesmos na presença de Deus”. E então ele cita os anjos em seguida, dizendo que podemos mencionar nossos pedidos a eles também, para que eles os levem até o Senhor:
Ou talvez que elas [nossas petições] possam ser divulgadas também aos anjos que estão na presença de Deus, para que esses seres possam de alguma forma apresentá-las a Deus, e consultá-Lo a respeito delas, e sejam assim capazes de nos trazer a nós, de forma manifesta ou secreta, aquilo que, ao dar ouvidos ao mandamento dEle, eles descobriram ser Sua vontade, e aquilo que deve ser cumprido por eles de acordo com o que discerniram ser seu dever; pois o anjo disse a Tobias [Tobias 12:12]: Agora, pois, quando você orava, e Sara, sua nora, eu trazia a lembrança das tuas orações diante do Santo.
Carta 130: 9,18, Para Proba , ano 412 d. C.
𝟯. 𝘾𝙊𝙉𝘾𝙊𝙍𝘿𝘼𝙈𝙊𝙎 𝘾𝙊𝙈 𝙊 𝙁𝘼𝙏𝙊 𝘿𝙀 𝙌𝙐𝙀 𝘼𝙂𝙊𝙎𝙏𝙄𝙉𝙃𝙊 𝙅𝘼𝙈𝘼𝙄𝙎 𝙀𝙉𝙎𝙄𝙉𝙊𝙐 𝙌𝙐𝙀 𝙊𝙎 𝙀𝙑𝙀𝙉𝙏𝙊𝙎 𝘿𝙀 𝙄𝙉𝙏𝙀𝙍𝙑𝙀𝙉𝘾̧𝘼̃𝙊 𝘿𝙊𝙎 𝙈𝙊𝙍𝙏𝙊𝙎 NAS VIDAS DOS VIVOS OCORRIAM SEM A PERMISSÃO DIVINA E QUE ELE DEFENDIA QUE TAIS EVENTOS NÃO ERAM CONCEDIDOS A TODOS OS MORTOS
Voltando ao livro do nosso estudo “O Cuidado devido aos Mortos”, Agostinho ensinava que as manifestações miraculosas dos mártires estavam sob a supervisão divina, ocorrendo para propósitos específicos determinados pela Providência e não com todos os mortos em geral. Nisso o autor protestante acertadamente concorda com Agostinho, bem como também com a Igreja Católica. Lembremo-nos que Agostinho sempre fez uma clara distinção entre os mortos por quem os cristãos oram e oferecem o sacrifício [missa] em seu nome, e aqueles que, tendo alcançado a coroa pelo martírio, estão hoje a interceder e a orar no céu pelos que estão na terra, como vemos anunciado em um de seus sermões:
“Existe uma disciplina eclesiástica, como sabem os fiéis, quando os nomes dos mártires são lidos em voz alta naquele lugar do altar de Deus, onde não se faz oração por eles. A oração, no entanto, é oferecida por outros mortos que são lembrados. É errado orar por um mártir, a cujas orações nós mesmos devemos ser recomendados”.
Sermões 159:1, ano 411 d.C.
Isso é claro!
Nem todos os mortos APARECEM aos vivos, e nem todos estão cientes dos eventos da terra. Quando Agostinho diferencia no seu trecho acima os mártires no céu e os mortos no purgatório, ele demonstra crer nisso também. Todavia, o autor protestante faz uso da linguagem prudente do padre africano ao se referir à natureza não corriqueira e sobrenatural de tais eventos extraordinários para insinuar que Agostinho ensinou que os homens rezam em vão aos santos.
Agostinho de fato diz que os mortos que teriam mais motivos para aparecer a pessoas específicas deveriam fazê-lo por sua relação íntima com aqueles vivos, também diz que fariam se pudessem, e que o fato de isso não ocorrer COM FREQUÊNCIA demonstra que os mortos não possuem um passe-livre para fazerem o que bem entenderem.
No trecho, Agostinho cita então Abraão e Jacó, que deveriam se manifestar aos seus descendentes, mas não o fazem, bem como também sua mãe Mônica, que provavelmente, se fosse deixada a seu bel prazer, todo dia o visitaria, aparecendo do além para ter com ele. Os mortos, portanto, não estão plenamente livres para fazer o que quiserem. Mas o bispo africano conclui o pensamento mencionando casos em que tais eventos ocorreram, e que foram registrados na Bíblia, testificando que ele não os negava, mas apenas defendia que eles não ocorriam sem permissão e sem um propósito divino:
“[…] o que dizer de Moisés, cujo livro do Deuteronômio nos certifica da sua morte, aparecendo vivo ao lado de Elias – que não morreu – como lemos no Evangelho? (Cap. 15)
ᴘʀᴏᴛᴇsᴛᴀɴᴛᴇ: ᴀǫᴜɪ, ᴀɢᴏsᴛɪɴʜᴏ ᴅᴀ́ ᴜᴍ ᴘʀᴀᴛᴏ ᴄʜᴇɪᴏ ᴘᴀʀᴀ ᴀ ᴘᴀ́ɢɪɴᴀ ǫᴜᴇ ᴇsᴘᴀɴᴛᴀʟʜᴏᴜ ᴍᴇᴜ ᴄᴏᴍᴇɴᴛᴀ́ʀɪᴏ: ᴏs ᴍᴀ́ʀᴛɪʀᴇs ᴘᴏᴅᴇᴍ sᴀʙᴇʀ ᴅᴏ ǫᴜᴇ ᴀᴄᴏɴᴛᴇᴄᴇ ᴇɴᴛʀᴇ ᴏs ᴠɪᴠᴏs ᴀᴛʀᴀᴠᴇ́s ᴅᴇ ᴜᴍᴀ ᴄᴏɴᴄᴇssᴀ̃ᴏ ᴜ́ɴɪᴄᴀ, ᴠɪsᴛᴏ ǫᴜᴇ ɴᴀ̃ᴏ ᴇ́ ɴᴀᴛᴜʀᴀʟ ᴘᴀʀᴀ ᴏs ᴍᴏʀᴛᴏs ᴛᴇʀᴇᴍ ɪɴᴛᴇʀᴇssᴇ ɴᴏs ᴠɪᴠᴏs.
Mas Agostinho estava mesmo dizendo que, por ser a emissão totalmente dependente do poder divino, em vão fazem os vivos suas preces aos santos? Ou apenas queria dizer que os santos não agem por conta própria, pelo seu poder ou para seu intuito pessoal? Já que somente sabem do que Deus lhes informa? Se fosse o caso de eles terem total liberdade para fazerem o que quiserem e quando, haveria muitas almas retornando toda noite para visitar seus parentes por pura saudade, e não para que Deus fosse glorificado e para confirmar a fé da Igreja. Mas Agostinho jamais nega a agência deles. E por que ele diria na mesma obra que os finados encontrariam ajuda quando fossem sepultados no lugar onde descansam os mártires, pelo fato de serem “encomendados, pela oração [dos parentes visitantes], à proteção dos santos junto ao Senhor” (Cap. 4), se ele cresse que os santos não ficam de algum modo cientes desses pequenos agrados que os mortais lhes dispensam pela fé? É evidente, no entanto, e concordamos nisso, que tal experiência não ocorre com todos os mortos, tampouco sem a atuação do poder de Deus.
Vemos, portanto, que Agostinho não negava a possibilidade de relação entre vivos e os mortos (extraordinariamente), tampouco a EFICÁCIA das petições dos vivos dirigidas a eles, ou não as teria recomendado e elogiado sua mãe por tal prática, mas sustentava a dependência divina para essas manifestações, já que os santos, assim como nós na terra, n’Ele (em Deus) vivemos, nos movemos e existimos. E nossa comunhão decorre de nossa relação como corpo do Senhor, existindo na sua composição. Na Natividade das mártires Perpétua e Felicity, Agostinho em homenagem a elas, chega a tratar dessa comunhão de dons entre a Igreja na terra e os santos no céu. Ele diz:
6. Que as mártires (Santa Perpétua e Felicity) tenham misericórdia de nós e rezem por nós. Sendo assim, celebremos suas solenidades, como de fato fazemos, com muita devoção, com alegria sóbria, assembleia casta, pensamento fiel, pregação fiel. […] Não nos deveria parecer pouco o fato de sermos membros do seu corpo, não podendo nós sermos iguais. Porque se um membro sofre, todos os membros simpatizam com o tal: assim, quando um membro é glorificado, todos os membros se alegram (1Co 12:26). […] dessa forma, as mártires imitaram e entregaram as suas almas pelos seus irmãos, e para que a mais abundante fertilidade dos povos brotasse tal como os rebentos, elas regaram a terra com o seu sangue. Portanto, também somos fruto do seu trabalho. Nós as admiramos, elas sentem compaixão de nós. Nós as homenageamos, e elas oram por nós.
Santo Agostinho, Sermão 280,6, In Natali martyrum Perpetuae et Felicitatis, ano 391-430 d.C.
𝟰. 𝘼𝙂𝙊𝙎𝙏𝙄𝙉𝙃𝙊 𝘿𝙄𝙕𝙄𝘼 𝙎𝙀𝙍 𝘼𝙇𝙂𝙊 𝙄𝙉𝘿𝙐𝘽𝙄𝙏𝘼́𝙑𝙀𝙇 𝙊 𝙁𝘼𝙏𝙊 𝘿𝙀 𝙊𝙎 𝙈𝘼́𝙍𝙏𝙄𝙍𝙀𝙎 (𝙎𝘼𝙉𝙏𝙊𝙎) 𝙎𝙀 𝙈𝘼𝙉𝙄𝙁𝙀𝙎𝙏𝘼𝙍𝙀𝙈 𝙉𝘼 𝙑𝙄𝘿𝘼 𝘿𝙊𝙎 𝙑𝙄𝙑𝙊𝙎 𝙍𝙀𝙎𝙋𝙊𝙉𝘿𝙀𝙉𝘿𝙊 𝙎𝙐𝘼𝙎 𝙊𝙍𝘼𝘾̧𝙊̃𝙀𝙎 𝙀 𝙎𝙊𝘾𝙊𝙍𝙍𝙀𝙉𝘿𝙊-𝙊𝙎, 𝙈𝘼𝙎 𝙀𝙇𝙀 𝘼𝘿𝙈𝙄𝙏𝙄𝙐 𝙌𝙐𝙀 𝙉𝘼̃𝙊 𝙀𝙉𝙏𝙀𝙉𝘿𝙄𝘼 𝘾𝙊𝙈𝙊 𝙄𝙎𝙎𝙊 𝙊𝘾𝙊𝙍𝙍𝙄𝘼
A Dúvida de Agostinho
Algo importante que merece destaque é que o autor protestante da postagem que estou comentando argumenta que a dúvida de Agostinho encontrada nos trechos seguintes de sua obra diziam respeito à ciência dos santos. Se eles sabiam ou não dos problemas que os vivos tinham e que eram objeto de suas orações dirigidas a eles. O ponto-chave com essa argumentação é que Agostinho jamais quis sugerir a mera confusão quanto a isso. Se os mártires se interessavam ou não pelos vivos, isso era um fato.
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ᴀɢᴏsᴛɪɴʜᴏ:
Veja que Agostinho compreendia categoricamente que, fosse como fosse, os santos respondem as orações de seus devotos e até se lhes manifestam, se houver permissão divina, porém, era Deus, que “não está confinado dentro de nós e muito menos afastado de nós” atendia as orações dos mártires em nosso favor, fazendo brilhar sua luz e glória ao coroar e honrar os méritos daquele servo fiel, seja nas suas relíquias ou sepultura, tudo para confirmar a fé da Igreja.
𝟱. 𝘼𝙂𝙊𝙎𝙏𝙄𝙉𝙃𝙊 𝘾𝙃𝙀𝙂𝘼 𝘼̀ 𝘾𝙊𝙉𝘾𝙇𝙐𝙎𝘼̃𝙊 𝘿𝙀 𝙌𝙐𝙀 𝙀́ 𝙋𝙊𝙎𝙎𝙄́𝙑𝙀𝙇 𝙌𝙐𝙀 𝘼𝙎 𝙊𝙍𝘼𝘾𝙊̃𝙀𝙎 𝘼𝙊𝙎 𝙈𝘼́𝙍𝙏𝙄𝙍𝙀𝙎 𝙁𝙊𝙎𝙎𝙀𝙈 𝙍𝙀𝘾𝙀𝘽𝙄𝘿𝘼𝙎 𝙀 𝘼𝙏𝙀𝙉𝘿𝙄𝘿𝘼𝙎 𝙋𝙊𝙍 𝙈𝙀𝙄𝙊 𝘿𝙀 𝘿𝙊𝙄𝙎 𝙋𝙍𝙊𝘾𝙀𝙎𝙎𝙊𝙎: 𝙋𝙀𝙇𝘼 𝘼𝘾̧𝘼̃𝙊 𝘿𝙊𝙎 𝘼𝙉𝙅𝙊𝙎 𝙊𝙐 𝙋𝙀𝙇𝘼 𝘼𝘾̧𝘼̃𝙊 𝘿𝙊𝙎 𝙋𝙍𝙊́𝙋𝙍𝙄𝙊𝙎 𝙈𝘼́𝙍𝙏𝙄𝙍𝙀𝙎 𝙈𝙊𝙍𝙏𝙊𝙎
Ele então propôs duas respostas às perguntas que fez no tópico anterior, quanto à relação direta ou indireta entre os santos e seus devotos, nenhuma das quais condenando as orações dos fiéis aos mártires ou negando que os santos de fato possuam o conhecimento delas pelo poder divino, podendo assisti-los com curas e milagres. Mas o que ele ainda não entendia era se isso ocorria por meio dos anjos que lhes comunicavam e também recebiam a ordem de Deus para executar a oração que o mártir fez em seu favor, ou se eram os próprios mártires que operavam de forma pessoal todas aquelas coisas, se fazendo presentes na hora em que eram invocados pelos vivos e depois eles mesmos agindo em resposta à concessão de Deus. Essa era a dúvida de Agostinho!
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Retornamos, então, à questão do primeiro tópico, com respeito ao ministério dos anjos que atuam nos sonhos. Agostinho não negou a agência dos espíritos dos mártires através disso, mas como ele acreditava que nem todos os defuntos podem receber a permissão divina para aparecer a um mortal, na primeira parte desse texto, ele chega à conclusão de que os mortos que aparecem nas visões e sonhos dos vivos são na verdade anjos, já que nem todos os mortos podem aparecer. Preste atenção: “Assim, é necessário que NÃO SE CREIA QUE TODOS OS DEFUNTOS – sem exceção – PODEM INTERVIR nos problemas dos vivos apenas pelo fato de que os MÁRTIRES tenham obtido curas ou prestado outros socorros” (Cap. 16). Isso não implica dizer que um mártir (um santo glorificado) não possa aparecer em um sonho ou visão de um vivo, com a permissão divina, para comunicar-lhe algo, possibilidade que Agostinho deixa em suspenso o seu método de ocorrência, já que tinha dúvidas quanto à maneira como os santos atuam no mundo, se direta ou indiretamente.
𝟲. 𝙎𝙊𝘽𝙍𝙀 𝙊 𝘼𝙍𝙂𝙐𝙈𝙀𝙉𝙏𝙊 𝘿𝙀 𝘼𝙂𝙊𝙎𝙏𝙄𝙉𝙃𝙊 𝘿𝙀 𝙌𝙐𝙀 𝙊𝙎 𝙈𝙊𝙍𝙏𝙊𝙎 𝙋𝙊𝘿𝙀𝙈 𝙎𝘼𝘽𝙀𝙍 𝙊 𝙌𝙐𝙀 𝙊𝘾𝙊𝙍𝙍𝙀 𝙉𝘼 𝙏𝙀𝙍𝙍𝘼 𝙋𝙊𝙍 𝙈𝙀𝙄𝙊 𝘿𝙀 𝙊𝙐𝙏𝙍𝙊𝙎 𝙈𝙊𝙍𝙏𝙊𝙎 𝙌𝙐𝙀 𝙑𝙀̂𝙈 𝘼𝙏𝙀́ 𝙀𝙇𝙀𝙎, 𝙋𝙀𝙇𝘼 𝙄𝙉𝙁𝙊𝙍𝙈𝘼𝘾̧𝘼̃𝙊 𝙌𝙐𝙀 𝙀́ 𝙏𝙍𝘼𝙕𝙄𝘿𝘼 𝘿𝙊𝙎 𝘼𝙉𝙅𝙊𝙎 𝙊𝙐 𝙋𝙀𝙇𝙊 𝙀𝙎𝙋𝙄́𝙍𝙄𝙏𝙊 𝙎𝘼𝙉𝙏𝙊
Agostinho retoma a questão quanto ao método empregado pela providência divina para que os mortos respondam às orações de seus devotos. Veja que Agostinho em nenhum momento questiona ou tem dúvida quanto a se aquelas experiências citadas são de fato fruto da agência dos santos. Quanto a isso, ele não tem dúvidas. Mas suas perguntas são relacionadas ao método como tais manifestações intervencionistas ocorrem, o que deixa claro quando menciona um monge santo de sua época chamado João, o qual, ao receber de uma mulher um pedido de visita, negou-lhe dizendo que à noite apareceria em sonho para ela, de modo a instruir-lhe, coisa que de fato ocorreu. Agostinho então relata que se o encontrasse, perguntar-lhe-ia se sua experiência era semelhante às dos mártires, “SE ELES APARECEM PESSOALMENTE DURANTE O SONO OU DE OUTRO MODO, sob figura que lhes apraz…… SE A SUA INTERVENÇÃO SE PRODUZ POR ORDEM DE DEUS E PELO MINISTÉRIO DOS ANJOS…
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O interessante é que tal multiplicidade de métodos possíveis para a resposta à oração de um santo é apontado como uma falha na doutrina católica, quando na verdade é uma evidência que lhe é favorável. Agostinho destrói, com tais hipóteses, um dos principais e mais utilizados argumentos protestantes contra a doutrina católica, que é a falta de onisciência dos santos. Para o protestante que se desdobra dizendo que os santos não poderiam ter acesso à causa de seus pedintes no mundo físico, aqui Agostinho propõe um leque de possibilidades para que as orações dos fiéis, bem como os próprios eventos da terra, cheguem ao interesse dos mártires no céu, embora de maneira limitada. Ao dizer que os santos no além possuem conhecimento do que acontece no mundo pelas informações que outros mortos lhes fornecem, ou mesmo pelas visitas dos anjos que lhes comunicam as coisas que ocorrem na terra… e até pelo próprio Deus na pessoa do Espírito Santo, Agostinho apenas concorda com a doutrina da Igreja Católica. Pois é evidente que não seria algo contraditório dizer que os anjos têm a capacidade de levar, tal como fazem com as causas dos pequeninos apresentadas diante da face de Deus (Mt 18: 10 e Tobias 12: 12), as petições daqueles que sussurram os nomes dos mártires, pedindo por sua intercessão. Também Agostinho não apresenta essa única via, mas argumenta que a informação que os santos obtêm também é proveniente de Deus, coisa que é muito mais enfatizada na condição em que se encontram agora em razão da theosis, i. e., de sua participação na Divindade, a visão beatífica. Isso não é difícil de conceber, já que os profetas e outros homens piedosos da Bíblia tiveram acesso a informações de fatos que só lhes foram dados a conhecer em razão da própria ação de Deus, que lhes revelou.
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Por acaso, Moisés não soube que os israelitas caíram em idolatria porque Deus lhe deu a conhecer tal informação, já que estava em sua presença? E então ele intercedeu por eles (Êxodo 32: 7-11)? Isso não ocorreu quando ele se encontrava ausente deles no corpo, acima no monte, e destituído de qualquer contato com o que ocorria abaixo entre seus irmãos? Tal multiplicidade de meios pelos quais os santos podem ter acesso aos eventos na terra, é claro, apenas se dão em submissão à vontade divina, algo que a Igreja não nega.
𝟳. 𝘾𝙊𝙉𝘾𝙇𝙐𝙎𝘼̃𝙊





