E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro,
e a Jesus Cristo, a quem enviaste.
João 17, 3
A FALSA GUERRA SANTA: SEM CARIDADE E HUMILDADE
É importante destacar o quanto a vida na Fé nos equipa para triunfar sobre a diversas heresias e os erros, antigos ou modernos, que encarceram variadas almas no mundo inteiro. Uma doutrina sã é aquela que arma a nossa razão e aperfeiçoa nosso intelecto de modo a nos tornar capazes de destruir “argumentos e toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus”, levando “cativo todo pensamento para torná-lo obediente a Cristo” [2 Cor 10, 5]. Essa é uma verdade cristã e piedosa, todavia, alguns, interpretando mal este versículo, tornaram toda a sua vida um campo de batalha sem estratégia e enfadonho, hostil a qualquer interação com aqueles que pensam diferente.
Cristo jamais agiu de maneira tão imprópria, posto que a Verdade não precisa de grito e hostilidade para se afirmar soberana. Ela simplesmente se impõe por sua mera presença. Além de muitos terem disvirtuada noção do que seria uma apologética saudável e frutífera, que edifica verdadeiramente, o que traz muito dano à cosciência dos incrédulos, também há os que demonstram mínima ou nenhuma percepção da misericórdia divina diante de pessoas que pouco ou nada sabem da Fé Cristã. Os cristãos não são algozes do mundo. Nosso papel, segundo a Bíblia, é instruir com temor e humildade [de modo que nós mesmos não caiamos ao corrigir nosso irmão – Gálatas 6,1-2]. Essa atitude também prejudica o Catolicismo. Leia mais sobre isso aqui.
É claro que o oposto é completamente rejeitado.
O PECADO DA INDIFERENÇA COM A RELIGIÃO
Não devemos considerar a Fé como algo meramente acessório, mas levar a sério aquilo que nos foi confiado, “sabendo de quem o temos recebido” [2 Tm 3, 14] Veja o que a Igreja diz sobre a ideia de Relativização da Doutrina [ou o chamado “Indiferentismo Religioso]:
3. Entre os muitos males deploráveis que perturbam e afligem tanto a sociedade eclesiástica quanto a civil, dois se destacam em nossos dias e são justamente considerados a causa dos demais. De fato, vocês estão cientes dos inúmeros e fatais danos que o hediondo erro do indiferentismo causa à sociedade cristã e civil. Ele nos leva a esquecer nossos deveres para com Deus, em quem vivemos, agimos e existimos. Faz-nos negligenciar nossa preocupação com a santa religião e abala quase até a destruição o próprio fundamento de toda lei, justiça e virtude. Há pouca diferença entre essa forma hedionda de indiferença e o sistema diabólico de indiferença entre as diferentes religiões. Essa crença abrange pessoas que se desviaram da verdade, que são inimigas da verdadeira fé e esquecem sua própria salvação, e que ensinam crenças contraditórias sem doutrina firme. Elas não fazem distinção entre os diferentes credos, concordam com todos e sustentam que o refúgio da salvação eterna está aberto aos sectários de qualquer religião. A diversidade dos seus ensinamentos não os preocupa, desde que concordem em combater aquilo que é a única verdade.
4. Vejam, caríssimos filhos e veneráveis irmãos, quanta vigilância é necessária para impedir que a doença deste terrível mal infecte e mate seus rebanhos. Não cessem de defender diligentemente seu povo contra esses erros perniciosos. Saturem-nos com a doutrina da verdade católica, cada dia com maior precisão. Ensinem-lhes que, assim como há um só Deus, um só Cristo, um só Espírito Santo, também há uma só verdade divinamente revelada. Há uma só fé divina, que é o princípio da salvação para a humanidade e o fundamento de toda justificação, a fé pela qual o justo vive e sem a qual é impossível agradar a Deus e entrar na comunidade de Seus filhos. Há uma só Igreja verdadeira, santa e católica, que é a Igreja Apostólica Romana. Há uma só Sé, fundada em Pedro pela palavra do Senhor, fora da qual não podemos encontrar nem a verdadeira fé nem a salvação eterna. Quem não tem a Igreja por mãe não pode ter Deus por pai, e quem abandona a Sé de Pedro, sobre a qual a Igreja está estabelecida, confia falsamente que está na Igreja. Assim, não pode haver crime maior, mancha mais hedionda do que opor-se a Cristo, dividir a Igreja gerada e comprada pelo seu sangue, esquecer o amor evangélico e combater com o furor da discórdia hostil a harmonia do povo de Deus.
5. O culto divino consiste nestas duas coisas: doutrinas piedosas e boas obras, de tal modo que as doutrinas sem boas obras não podem agradar a Deus, nem Deus aceita obras divorciadas das doutrinas religiosas. O caminho estreito e difícil que conduz à vida não se encontra apenas na prática das virtudes ou na observância dos preceitos, mas no caminho da fé. Despertai constantemente o vosso povo fiel para que persevere cada vez mais firmemente e constantemente na profissão da religião católica.
Singulari Quidem (17 de março de 1856)
Ainda assim, a mesma Encíclica do Papa do nosso reverendíssomo Papa Pio IX declara expressamente: “Fora da Igreja, ninguém pode esperar vida ou salvação a menos que seja desculpado por ignorância além do seu controle”. [SQ 7]
SANTOS E DOUTORES ANTIGOS TAMBÉM DECLARARAM ESSA VERDADE
Ao apresentar uma exposição da Verdade Católica, Santo Agostinho, ao mesmo tempo em que advertia sobre o perigo de uma alma se encontrar fora do Rebanho de Deus, a Igreja, também demonstrou Percepção e sensibilidade acerca das diversas e complexas realidades humanas que cercam a experiência de cada pessoa com a Fé, ao argumentar o seguinte:
1. O apóstolo Paulo disse: “Rejeiteo herege, depois da primeira e da segunda admoestação, pois você sabe que esse tal está transtornado e peca, estando condenado por si mesmo.”
(Tito 3:10-11) “ Mas, ainda que a doutrina que os homens professam seja falsa e perversa, se eles não a sustentam com obstinação apaixonada, especialmente quando não foram eles quem a inventaram por temeridade própria, mas a mantêm porque a receberam de seus pais que foram enganados e caíram em erro, e se essas pessoas buscam com afinco a verdade e estão dispostos a serem corrigidas quando a encontrarem, tais homens NÃO devem ser considerados hereges. Se fosse o caso, talvez não lhes escrevesse.”E, no entanto, mesmo no caso de um herege, por mais que esteja cheio de uma odiosa presunção e insana pela obstinação de sua perversa resistência à verdade, embora alertemos outros para que o evitem, para que não engane os fracos e inexperientes, não nos recusamos a lutar por todos os meios ao nosso alcance por sua correção.
Ao demonstrar entender que a Heresia requer uma obstinação consciente no erro, Agostinho, mesmo que não elaborasse naquele primeiro momento com maior profundidade ou atenção especial àquele tema [algo que a Igreja faria mais tarde], demostrou ter noção perfeita desta verdade: há pessoas que caminham por determinadas heresias e abraçam erros de doutrina por culpa sua e há outras pessoas que o fazem por culpa de outrem. É evidente que devemos apresentar a Verdade a todos, na esperança de que todos se salvem, mas também devemos ter misericórdia e sensibilidade diante da vivência e da história de cada pessoa em particular.
CATECISMO DA IGREJA
Como mencionado, a Igreja elaborou em tempos mais atuais acerca de algumas particularidades que têm o poder de diminuir a culpabilidade de uma pessoa, mantendo-a em desvios teológicos, as quais se deram por variados motivos, seja por “ignorância, inadvertência, violência, medo, hábito, apegos desordenados e outros fatores psicológicos ou sociais” (O Catecismo Nº1735 enumera os tais como atenuantes da culpa), sem, no entanto, evitar a advertência que isso nos fornece: 1) não excusa o fiel do anúncio da Verdade; e, menos ainda, 2) isso [a ignorância ou os demais fatores de diminuição da culpabilidade] não evita que essa alma tenha tido prejuízos terríveis, ainda que a Graça tenha operado em sua vida.
BÍBLIA SAGRADA
Por fim, devemos nos lembrar que a própria Bíblia nos apresenta a noção de Ignorância como mitigadores de culpabilidade e, consequentemente, de punição decorrente de falta em decorrência dela. Isso ocorre, por exemplo, na Parábola de Jesus e no discurso do Apóstolo Paulo sobre a Vinda do Evangelho aos gentios:
E disse o Senhor: Qual é, pois, o mordomo fiel e prudente, a quem o senhor pôs sobre os seus servos, para lhes dar a tempo a ração? Bem-aventurado aquele servo a quem o seu senhor, quando vier, achar fazendo assim. Em verdade vos digo que sobre todos os seus bens o porá. Mas, se aquele servo disser em seu coração: O meu senhor tarda em vir; e começar a espancar os criados e criadas, e a comer, e a beber, e a embriagar-se, Virá o senhor daquele servo no dia em que o não espera, e numa hora que ele não sabe, e separá-lo-á, e lhe dará a sua parte com os infiéis. E o servo que soube a vontade do seu senhor, e não se aprontou, nem fez conforme a sua vontade, será castigado com muitos açoites; Mas o que a não soube, e fez coisas dignas de açoites, com poucos açoites será castigado. E, a qualquer que muito for dado, muito se lhe pedirá, e ao que muito se lhe confiou, muito mais se lhe pedirá.
Lucas 12:42-48
Ora, não levou Deus em conta os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam; porquanto estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos. Quando ouviram falar de ressurreição de mortos, uns escarneceram, e outros disseram: A respeito disso te ouviremos noutra ocasião.
Atos 17, 30-33
Veja que tanto Jesus quanto o Apóstolo Paulo apresentaram a ignorância como fator que diminui o rigor do castigo ou que o suspende completamente, dependendo da situação. Deus nos abençoe.




