Como deixei o Protestantismo e abracei o Catolicismo Romano

Felipe Rocha

Felipe Rocha

“Não podemos calar-nos acerca do que vimos e ouvimos” (At 4, 20).

Isto foi o que os apóstolos responderam quando compelidos a interromper sua pregação. Perdão, santos apóstolos, se reivindico as mesmas palavras sem vossa força de expressão. Se o faço, é porque reconheço que não posso omitir a grandeza do que Deus me permitiu conhecer. Com efeito, ninguém pode ficar apático uma vez iluminado pelo Evangelho: este possui uma beleza tão antiga, mas sempre nova — para parafrasear as palavras de Santo Agostinho.

Minha trajetória começou num lar batista. Minhas primeiras memórias são de assíduas orações, leitura da Bíblia e frequência à escola dominical. Desde cedo, vovó Anunciada foi para mim um exemplo de seriedade na fé. Seus versículos decorados e corinhos cantarolados imprimiram em mim uma reverência por Deus que o tempo não apagaria.

 

Símbolos

 

Para que se entenda meu caminho, explico o “mapa” que então guiava meus passos. Talvez o leitor católico não imagine que há muita diversidade entre evangélicos e protestantes. Na Igreja Católica, há uma unidade em torno do Papa, dos bispos e dos mesmos sete sacramentos — como uma família que, apesar das diferenças, se reconhece parte do mesmo corpo e se assenta à mesma mesa para partilhar o pão. No ambiente em que cresci, havia outra dinâmica. Sem uma autoridade única e viva para arbitrar, de modo definitivo, os limites da fé cristã, a interpretação das Escrituras ficava legada ao conteúdo das confissões, às decisões sinodais e, em última instância, à consciência particular do fiel — afinal, sínodos e concílios podiam falhar. Para mim hoje, este é um ponto decisivo de tensão.

Como batistas, carregávamos essa identidade no nome. Para nós, o batismo não era um sacramento que apaga o pecado original e os pecados atuais, mas sim um símbolo público da decisão que já havíamos tomado. Por isso, os batistas não batizam bebês.

 

Foto de Marcos Paulo Prado na Unsplash

 

O mesmo acontecia com a “Ceia do Senhor”. Para o menino que eu era, aquele pão e aquele vinho (que no mais das vezes era apenas suco de uva) eram apenas lembranças. Os batistas não acreditam que a eucaristia é um sacramento em que Cristo está verdadeiramente presente em corpo e sangue. Era um memorial afetuoso, um modo de “trazer à memória” o sacrifício da Cruz. Foi com esses olhos sinceros, mas condicionados por essa visão simbólica, que vivi durante a infância.

Foto de Nico Smit na Unsplash

Passaram-se os anos e, em meados de 2015, a vida levou-me a São Paulo. Foi nesta ocasião que minha mãe e eu passamos a frequentar uma pequena congregação da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB). Creio que a recepção calorosa com que fomos acolhidos contribuiu para superar as diferenças doutrinárias que nos mantinham distantes dos presbiterianos enquanto batistas de origem. No meu caso, o delicioso café comunitário servido após os cultos dominicais fez o trabalho principal. Aos doze anos, sem maiores raciocínios teológicos, os vínculos sociais adquiriam certa primazia sobre perspectivas teológicas, desde que fossem tradicionais o suficiente para não parecerem muito estranhas à minha mãe e a mim. De qualquer modo, a IPB lançou as sementes do que seriam minhas perspectivas teológicas por todos os anos seguintes.

 

Nascido Escravo

 

2017 não foi apenas mais um ano no calendário; foi um divisor de águas para mim enquanto protestante. Com as celebrações dos 500 anos da Reforma Protestante, mergulhei na teologia dos reformadores. De servo arbitrio, publicado em português pela Editora Fiel sob o título “Nascido Escravo”, foi a primeira obra que li da tradição reformada. Martinho Lutero travava um debate acalorado com o humanista católico Erasmo de Roterdã. Enquanto Erasmo mantinha o livre-arbítrio, Lutero exclamava, com um vigor que me impressionou: “Não há quem entenda, não há quem busque a Deus” (Rm 3, 11)! Olhando para o espelho da alma, passei a crer que o pecado original não apenas nos feriu, mas corrompeu nossa natureza de tal modo que o homem é incapaz de dar um só passo em direção a Deus, ou mesmo de preparar-se para isso. Com o salmista, eu confessava: “Eis que eu nasci na iniqüidade, minha mãe concebeu-me no pecado” (Sl 51, 7). Entendi, então, que eu seria incapaz de cooperar com Deus na minha própria salvação. Era preciso que Deus tomasse, digo, não apenas a iniciativa, mas as rédeas de todo o processo, vestindo-me com a justiça de Cristo. Isto foi para mim uma segurança inabalável.

Conforme Aristóteles, o homem possui um desejo inato de saber. Eu experimentaria isso de modo vívido a partir de 2018, ano em que passei a cursar o Ensino Médio. A adolescência é um período de importância singular na formação da nossa identidade. É quando muitos de nós percebemos que não nos bastamos a nós mesmos e surge a necessidade de pertença — a um grupo social, a uma escola filosófica, ou, como sucederia comigo, a uma tradição educacional. Em 2019, o desejo de conhecer levou-me a trilhar um caminho pouco usual para um adolescente: o estudo autodidata do latim. Diferente do português, onde a ordem das palavras determina seu sentido, no latim é a estrutura interna da palavra que indica sua função. Este rigor linguístico educou minha mente de modo analítico. Conforme percebia que a realidade, assim como o latim, possuía uma estrutura que eu precisava decifrar, meu relacionamento com a fé, já intelectual, tornava-se menos emocional e mais racional. Este foi o tempo em que a educação clássica se tornou meu ideal de formação humanística.

 

De Admiração a Incômodo

 

Imagine o leitor minha situação. Criado num ambiente protestante, era esperado que meu contato com a religião católica enquanto tal fosse superficial e acidental. O latim fez isso mudar, pois o canto gregoriano logo passou a ser um instrumento pedagógico que me mantinha em contato com a língua. A sacralidade e a solenidade da música litúrgica convergiram perfeitamente para elevar minha oração à contemplação. Não foi à toa que o Concílio Vaticano II declarou o gregoriano como o canto litúrgico por excelência da Igreja Latina. Além disso, a educação clássica era então promovida quase sempre por expoentes católicos, como o Prof. Clístenes Hafner Fernandes com a iniciativa do Instituto Hugo de São Vítor. Não é incomum que um protestante pense num católico como alguém descompromissado com a fé e sem grandes aptidões intelectuais, mas o que eu via nesses mestres era o exato oposto. A religião católica não era um setor à parte de suas vidas, mas o ponto de partida dos seus empreendimentos intelectuais e o referencial de sua conduta. Ad majorem Dei gloriampara a maior glória de Deus — era o lema jesuíta que condensava o que faziam. Claro que isso não me fez rezar o rosário, mas revestia sua mensagem de uma credibilidade que comecei a observar com atenção.

Essa admiração silenciosa pela intelectualidade católica logo se tornaria um incômodo barulhento. Ao deparar-me com a campanha editorial do Centro Dom Bosco “Protestantes, Voltem Para Casa”, fiquei contrariado. Até então, meu contato com os católicos dividia-se entre os intelectuais admiráveis que se tornaram meu modelo de educação e aqueles mornos que, num falso ecumenismo de gentilezas, diziam que “o que importa é acreditar em Deus”. Eu não queria gentilezas, mas sim a verdade.

 

Ad Fontes [Conhecendo a Patrística]

 

Como reformado convicto, considerava os católicos idólatras e tentava fazê-los “aceitar Jesus” sem nenhuma hesitação. Ver, pela primeira vez, católicos que não pediam desculpas por existirem, mas combatiam a “heresia protestante” foi um choque. Meu primeiro passo não foi a rendição, mas o contra-ataque. O fato é que agora eu queria conhecer o Catolicismo para refutá-lo e provar que minha religião reformada estava certa. Decidi começar pelo princípio: os Pais Apostólicos. Se a Igreja se corrompeu, pensei eu, as sementes da herança reformada deveriam estar vivas naqueles que conviveram com os apóstolos. Comecei pela Carta de Clemente Romano aos Coríntios. O impacto foi ligeiro e desconfortável. Ao tratar de uma rebelião em Corinto, Clemente não apelava para um livre-exame das Escrituras ou para a subjetividade da consciência individual. Ele apelou para a hierarquia.

 

Clemente I, Papa de Roma. Mosaico da Basílica de Santa Sofia de Kiev, século XI.
Nas áreas danificadas (parte inferior da composição) — pintura a óleo do século XVIII.

“Ao sumo sacerdote foram confiados ofícios litúrgicos particulares; aos sacerdotes foi designado seu lugar particular; e aos levitas foram impostos serviços particulares. O leigo está ligado aos preceitos leigos”.

(I Clemente 40,5)

 

Essa analogia entre os cargos do sacerdócio levítico e a nova ordem cristã me trouxe perplexidade. Ele falava de sacerdotes e leigos. Como protestante, eu só admitia o sacerdócio universal de todos os crentes. A ideia de Clemente trazia de volta o conceito de sacrifício — algo que eu negava. No entanto, seu raciocínio era de um vigor desconfortante: “Os apóstolos receberam do Senhor Jesus Cristo o Evangelho que nos pregaram. Jesus Cristo foi enviado por Deus. Cristo, portanto, vem de Deus, e os apóstolos vêm de Cristo” (I Clemente 42,1-2).

Mais adiante: “Nossos apóstolos conheciam, da parte do Senhor Jesus Cristo, que haveria disputas por causa da função episcopal. Por esse motivo, prevendo exatamente o futuro, instituíram aqueles de quem falávamos antes, e ordenaram que, por ocasião da morte desses, outros homens provados lhes sucedessem no ministério” (I Clemente 44,1-2). Em outras palavras, assim como Cristo veio de Deus e os apóstolos de Cristo, os sucessores dos apóstolos perpetuavam essa missão divina. Clemente estava a dizer-me, em pleno século I, que o episcopado não era uma instituição humana para organizar a Igreja, mas um desejo do próprio Cristo para evitar disputas. Eu queria refutar o Catolicismo, mas Clemente mostrava-me a estrutura que eu tanto combatia, mesmo antes de o último apóstolo morrer. Eu queria refutar Roma, mas o sucessor de Pedro estava a refutar-me a mim! Se Clemente insinuava um sacrifício, Santo Inácio de Antioquia não abria margem para qualquer dúvida:

 

“Eles se afastam da eucaristia e da oração, porque não professam que a Eucaristia é a carne de nosso Salvador Jesus Cristo, que sofreu por nossos pecados e que, na sua bondade, o Pai ressuscitou”.

(Inácio aos Esmirniotas 7,1)

 

Vi meu edifício ruir para não tornar a ser construído. Para mim, o sacrifício eucarístico era uma ofensa ao sacrifício perfeito de Cristo. Para Inácio, era o penhor da nossa salvação: “…partindo o mesmo pão, que é remédio de imortalidade, antídoto para não morrer, mas para viver em Jesus Cristo para sempre” (Inácio aos Efésios 20,2). Aqui, o realismo eucarístico era afirmado como um distintivo entre os hereges e os ortodoxos — perceba o leitor que, segundo este critério, eu estava carregando o distintivo da heresia. Como se não bastasse, Inácio não era menos enfático que Clemente ao tratar da hierarquia como fundamento visível da unidade da Igreja: “Sem o bispo, ninguém faça nada do que diz respeito à Igreja. Considerai legítima a eucaristia realizada pelo bispo ou por alguém que foi encarregado por ele. Onde aparece o bispo, aí esteja a multidão, do mesmo modo que onde está Jesus Cristo, aí está a Igreja católica” (Inácio aos Esmirniotas 8,1-2). Neste ponto, a neutralidade seria uma falha moral. Afinal, conheci a verdade e, como deve ser, verdade conhecida é verdade obedecida. Mas não pense o leitor que foi fácil. A conversão nunca é apenas uma simples mudança de ideia. Um processo como esse representa ruptura, de paradigmas, vínculos afetivos — alguns inclusive antigos —, planos… Juntei as forças que ainda tinha e busquei meios de evitar ou pelo menos atrasar uma decisão.

No entanto, a verdade é que minha teimosia não podia silenciar a voz da consciência. A derrocada intelectual não me deixou apenas sem respostas; trouxe-me fome de uma vida cristã que fosse, de fato, possível. No ambiente em que cresci, a receita para a santidade parecia resumir-se àquela conhecida música infantil: “Leia a Bíblia e faça oração, se quiser crescer”. Embora correta, essa proposta apresentada de um modo tão vago era insuficiente para a idade adulta que a juventude começava a mostrar. A experiência humana na concretude do cotidiano é muito complexa — e por vezes contraditória — para caber numa fórmula simplista.

 

Uma Nuvem de Testemunhas [Hebreus 12,1]

 

Deixei passar a citação anterior de Santo Inácio sem comentar o termo “Igreja católica” por um motivo. Do grego kath’holon, “católico” não significa meramente extensão geográfica, como alguns de nós nos acostumamos a pensar, mas literalmente “segundo o todo”. Ser “católica” significa que a Igreja possui todos os remédios de que a alma humana necessita. E um dos remédios que descobri foi o fascinante papel dos santos.

“Sede meus imitadores, como eu mesmo o sou de Cristo” (1Co 11, 1), escreveu São Paulo. Os santos não eram ídolos que obscureciam o papel de Cristo; eram, ao contrário, a prova de que o Evangelho funciona em todas as épocas e lugares. Se eu era um jurista em formação tentando entender a Justiça, havia a vida de São Thomas More para eu conseguir inspiração. Se era um jovem buscando viver a castidade, os Padres do Deserto tinham um itinerário concreto e, mais importante, praticável para alguém de carne e osso tentando seguir Jesus na vida cotidiana. De fato, os santos eram uma “nuvem de testemunhas” (Hb 12, 1) ao meu redor. Se estava lutando o combate, os santos lutaram o mesmo combate que eu — e venceram. A santidade católica é concreta: tem rosto, história e, sobretudo, um caminho que eu podia facilmente imitar, saindo da fragilidade solitária de minhas próprias interpretações para a segurança da experiência dos meus irmãos mais velhos que, sendo tão humanos quanto eu, provaram que a graça de Deus não é uma teoria, mas uma força capaz de transfigurar a carne e tornar os homens “participantes da natureza divina” (2Pe 1, 2).

Se a Igreja possuía essa plenitude de meios para santificar o homem, era imperativo que também tivesse os meios para conservar sua unidade. Afinal, a santidade não floresce na divisão. Santo Inácio já havia mostrado que o episcopado foi instituído para evitar disputas locais. Mas uma pergunta permanecia: o que aconteceria quando as Igrejas discordassem entre si? A quem pertenceria a última palavra?

 

O Sucessor de Pedro

 

A resposta começaria a surgir na atitude de São Clemente Romano: “Irmãos, pelas desgraças e adversidades imprevistas, que nos aconteceram uma após outra, acreditamos ter demorado muito para dar atenção às coisas que entre vós se discutem” (I Clemente 1,1).

Como alguém que buscava entender o funcionamento das instituições, essa frase me chamou atenção. Corinto ficava na Grécia; Clemente estava em Roma. Mais do que isso: o apóstolo João ainda estava vivo, em Éfeso, muito mais próximo a Corinto. Por que Roma intervinha onde um apóstolo poderia arbitrar? Apenas duas justificativas explicavam esse pedido de desculpas: ou os coríntios solicitaram uma intervenção da Igreja Romana, reconhecendo nela uma instância superior, ou Clemente tinha consciência de uma responsabilidade que ultrapassava os limites da sua própria comunidade. Em ambos os casos, era forçoso concluir que Roma já exercia, na Igreja nascente, uma autoridade que eu sempre considerei uma invenção tardia. Outros elementos da carta suscitaram reflexões sobre a autoridade romana: “Para nós, não seria culpa leve se exonerássemos do episcopado aqueles que apresentaram os dons de maneira irrepreensível e santa” (I Clemente 44,4). Clemente opunha a instituição divina do episcopado à pretensão dos coríntios de deporem seus ministros. Mas, ao que parece, esperavam da Igreja Romana uma resposta definitiva. Seja como for, implícito a essa expectativa estava o reconhecimento de que Roma tinha autoridade para depor bispos de outras Igrejas. Mas o tom mais imperativo da carta estava reservado para o final: “Se alguns desobedecem ao que nós lhe dissemos da parte de Deus, saibam eles que estão incorrendo em falta e não poucos perigos” (I Clemente 59,1).

 

 

Palavras tão assertivas não eram o conselho de um igual, mas a sentença de um superior.

E, para assegurar que sua autoridade não fosse esvaziada pelo descumprimento das suas decisões, Clemente enviou legados: “Nós vos enviamos homens fiéis e sábios, que viveram de maneira irrepreensível em nosso meio, desde a juventude até à velhice. Eles serão testemunhas entre nós e vós” (I Clemente 63,3). Estava diante dos meus olhos o exercício prático da primazia romana. Ele não apenas se via como guardião das outras Igrejas, mas sabia impor decisões e enviar emissários para garantir seu cumprimento. Vi-me forçado a admitir: se isto não era um embrião do Papado, nada mais poderia sê-lo. Reconhecer a autoridade de Roma e a voz dos Santos Padres foi como aceitar a legitimidade de um tribunal que antes eu considerava incompetente. Mas restava uma dúvida: o que essa Igreja, cada vez mais credível aos meus olhos, ensinava de fato? Foi com essa disposição que comecei a leitura do Catecismo Romano. Decidi lê-lo de capa a capa. Afinal, se eu ia entrar naquela casa, precisava conhecer todos os seus cômodos. O que encontrei, no entanto, não foi um amontoado de arbitrariedades, mas uma catedral em que cada dogma era um vitral que fazia a luz irradiar por todo o edifício, revelando a profunda conexão de cada ponto na “hierarquia das verdades” (Concílio Vaticano II, Unitatis Redintegratio, n. 11). Chegou um ponto em que minha resistência foi vencida. Em seu lugar, teve espaço o assentimento de um filho que passava a ser educado pela Igreja como Mãe e Mestra. Eu já era católico, ainda que não tivesse todas as respostas.

 

A Grande Decisão

 

Havia chegado o momento em que a convicção exigia a coerência da atitude. Meu coração era católico, mas eu continuava a ocupar um banco presbiteriano. Isso mudaria rapidamente quando postei uma citação do Catecismo Romano nos stories do Instagram. Quase imediatamente, a esposa do pastor visualizou — e respondeu. Uma visita foi marcada para minha casa na sexta-feira da mesma semana.

Chegou então o dia. Sentamos o pastor, sua esposa, minha mãe e eu ao redor da mesa da nossa cozinha. O assunto veio à tona: “Você é católico?”. A pergunta não foi desarrazoada. A profunda transformação interior por que passei foi um processo difícil e introspectivo — acrescento também, silencioso. Exceto por duas pessoas mais atentas aos detalhes, ninguém esperava ouvir da minha conversão ao Catolicismo. Mas foi o que aconteceu. Com um alívio indescritível, malgrado a tensão inevitável, professei diante de todos: “Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica” (Credo Niceno-Constantinopolitano). Eu sabia que estava deixando para trás tudo que edificara até então, mas, como dizia São Leão Magno, “não pode haver construção estável, exceto naquela pedra que o Senhor colocou como fundamento” (Epístola 104, 3). Tomei a firme decisão de entrar na casa edificada sobre a Rocha (Mt 7, 24-25; 16, 18). Foi assim que, no dia 1º de abril de 2022, enquanto outros celebravam a mentira, celebrei a minha rendição. Deixei de ser um náufrago da própria consciência para navegar seguro na barca de Pedro. A Comunhão Imperfeita (Concílio Vaticano II, Unitatis Redintegratio, n. 3) dava lugar à plenitude dos meios da salvação (Ibidem). Naquela mesa de cozinha, entre o silêncio da minha mãe e o espanto do meu pastor, compreendi que a Igreja não era uma ideia que eu escolhera, mas uma Mãe que me resgatara.

Hoje, quatro anos depois, a jornada continua. Como o metal que, abrasado pelo fogo, brilha irradiando o calor da mesma chama sem deixar de ser metal, busco diariamente que a graça de Deus transfigure minha natureza. Já não caminho sozinho ou guiado pela fragilidade da minha interpretação individual. Tenho a intercessão dos santos — meus irmãos mais velhos — e o olhar doce e terno da Virgem Maria. Sou um filho que, finalmente, assentou-se à mesa da família para partilhar o “pão vivo descido do céu” (Jo 6, 51).

 

Ad majorem Dei gloriam.

 

Foto Principal de Clay Banks na Unsplash

Picture of Felipe Rocha

Felipe Rocha

Felipe Rocha, 22 anos, residente em Limoeiro/PE, é um ex-protestante convertido ao Catolicismo. Estudante de Direito pela Faculdade de Ciências Aplicadas de Limoeiro (FACAL), também se dedica ao conhecimento da própria fé, partilhando-o com aqueles à sua volta.

Picture of Felipe Rocha

Felipe Rocha

Felipe Rocha, 22 anos, residente em Limoeiro/PE, é um ex-protestante convertido ao Catolicismo. Estudante de Direito pela Faculdade de Ciências Aplicadas de Limoeiro (FACAL), também se dedica ao conhecimento da própria fé, partilhando-o com aqueles à sua volta.

Compartilhe:

Mais postagens deste autor