A Pornografia é uma Diversão Inofensiva?

Kertelen Ribeiro

Kertelen Ribeiro

A noção  de que a pornografia é apenas “uma diversão inofensiva”, tão amplamente difundida e estimulada por veículos de informação, pela mídia e pela cultura ocidental, tem sofrido finalmente danos em razão de seus resultados catastróficos, sobretudo em países como a Inglaterra e Islândia. A maior defesa contra essa ideia permanece uma só: a segurança da Infância.

 

As Crianças são as mais Afetadas

 

A ideia da pornografia recreativa tem sido combatida com maior rigor a partir de 2010, quando um estudo notificou que “uma em cada três crianças acessa um ‘tsunami’ de imagens pornográficas explícitas na internet até os dez anos de idade. Quatro em cada cinco adolescentes procuram regularmente fotos ou filmes inadequados em seus computadores ou celulares, também sugeridos. Os ativistas alertaram que a exposição a essas imagens causa ‘sérios danos mentais’ às crianças e as impede de formar relacionamentos adultos saudáveis ​​mais tarde na vida”. Tal foi a repercussão do estudo em 2010, veiculado pelo Daily Mail, jornal de grande circulação, que medidas começaram a ser tomadas. Finalmente! Ainda que tenha havido algum avanço, a acessibilidade à pornografia online ainda levanta preocupações no mundo. Isso porque, mesmo com as medidas, em 2022, 10% dos entrevistados em uma pesquisa sobre consumo de conteúdo adulto relataram que tinham idade entre 12 e 13 anos quando acessaram conteúdo pornográfico online pela primeira vez. É possível que a situação já preocupante piore sobretudo agora com o advento da IA [Inteligência Artificial].

 

Idade dos jovens adultos na Grã-Bretanha (GB) quando acessaram pela primeira vez conteúdo pornográfico online em maio de 2022, por faixa etária:

 

 

O jornal britânico Daily Mail, informou, em seu recente artigo Menino de 14 anos estuprou menina de 10 anos após assistir pornografia online: Juiz critica efeito nocivo de sites e envia adolescente para unidade de detenção por quatro anos (12/6/14), que as próprias garotas adolescentes em Londres estão reciclando o conceito de “dama de companhia” (uma mulher normalmente mais velha ou casada, que acompanha em público uma mulher solteira para sua proteção) para se proteger das demandas sexuais de namorados que estão crescendo imersos na pornografia e na imoralidade. O juiz informou que o adolescente acusado simplesmente “trata as mulheres como objetos e não como pessoas”. A mãe dele nem ao menos sabia que ele estava acessando pornografia online. Essa é a realidade da maioria dos pais, infelizmente. A campanha do jornal, inclusive, passou a exigir que os provedores de serviços de internet bloqueiem conteúdo adulto [a menos que uma residência opte por visualizá-lo], tamanho os danos que têm causado, sobretudo aos adolescentes [e até a crianças]. De acordo com especialistas, a onipresença da pornografia online está literalmente transformando os jovens em predadores sexuais!

A BBC tem recomendado novos regulamentos para tentar conter a onda de imagens sexualizadas acessíveis às crianças. Um relatório publicado pela Common Sense Media em 2023 reconheceu que a sexualização da adolescência está tendo um efeito devastador e perigoso, expondo crianças a abusos de pessoas próxmas que, sem essa onda de poluição e acesso irrestrito, não seriam estimuladas precocemente à violência sexual e à hiperssexualização. O relatório ainda adverte que o conteúdo sexual explícito não está mais restrito apenas a sites pornográficos e que a maioria dos adolescentes, tanto meninas quanto meninos, assiste pornografia diariamente [inclusive nas escolas]. Isso não é muito diferente no Brasil. O relatório entrevistou 1.300 adolescentes e revelou que a introdução de 75% deles à pornografia se deu aos 12 anos. E 80% disseram já ter assistido, no conteúdo adulto acessado “estupro, estrangulamento ou alguém sofrendo”. É simplesmente assombroso que, em uma idade tão prematura, estes meninos tenham tido acesso a tal nível de violência e de perversão sexual. E esse é o tipo de conteúdo que estas crianças estão assistindo.

Uma análise intitulada “Agressão e Comportamento Sexual na Pornografia Mais Vendida”, examinou 50 dos vídeos adultos, revelando pelo menos 12 tipos de atos de abuso infligidos a atrizes pornôs por cena, dentre os quais Estupro coletivo, que era bem comum. 

Foto de Lucas Metz na Unsplash

 

“Adolescentes e Pornografia” (Robb e Mann, 2023) cita pesquisas recentes (Rothman et al., 2021; Wright et al., 2021) que revelam que o consumo de pornografia por jovens leva a:

 

  • Aumento da agressão sexual
  • Ansiedade e depressão
  • problemas de relacionamento interpessoal
  • Comportamentos sexuais perigosos, como estrangular alguém durante o sexo.

 

O aumento da agressão está vinculada à hiperssexualização, em uma idade em que o domínio próprio ainda está em construção, ou seja, é uma lição que os adultos ainda estão tentando ensinar. Um estudo inclusive apresenta potencial para desenvolvimento de comportamentos abusivos contra outras crianças: pois o que pode acontecer quando um adolescente hiperssexualizado e com pouco domínio próprio [já que se encontra na transição entre a infância e a vida adulta] fica sozinho com uma criança menor? Vimos no Daily Mail: um menino de 12 anos estuprou uma menina de 10. Esta não é uma situação que acontece em todos os casos, mas é uma possibilidade, dada a circunstância. Está na hora de parar de tratar a pornografia como algo inofensivo, sobretudo quando ela se encontra tão presente e acessível a um clique de distância na nossa cultura, e já demonstrou malgnos e terríveis resultados. O escritor americano Sean Covey escreveu um livro chamado The 6 Most Important Decisions You’ll Ever Make.[As 6 Decisões Mais Importantes Que Você Tomará na Vida], no qual ele dá destaque à pornografia no capítulo sobre VÍCIOS, e ele a chama de “o vício do século XXI”. 

 

UM VÍCIO PERIGOSO PORQUE É SILENCIOSO

 

Como mencionado, a maioria dos pais não está ciente de que seus filhos consomem pornografia. Então quando eles crescem como predadores sexuais, com um vício não tratado, é sempre um choque. Um estudo na Islândia [ah, só para constar: Este país pode se tornar o primeiro ocidental a banir Pornografia da web] detectou que material pornográfico e violento disponível na internet estava contribuindo para um crescimento na intensidade dos ataques sexuais registrados no país. Outro estudo mostrou que crianças expostas desde cedo a material pornográfico violento podem desenvolver os mesmos traumas daquelas que sofreram abusos sexuais durante a infância. A pornografia é um problema sério em nossa cultura, principalmente pelo fato de ser algo tido pela mídia e pela cultura [sobretudo a brasileira] como banal e sem importância, talvez mesmo inofensiva [ou estimulada no caso dos meninos], o que não é verdade. A pornografia mata o amor por desvirtuar os relacionamentos e criar idealizações irreais e falsas sobre o ato sexual. Isso é preocuante, pois molda o comportamento com respeito ao sexo oposto de uma maneira não somente negativa, mas perigosa.

 Um estudo de 2016 da Universidade de Middlesex com jovens britânicos de 11 a 16 anos constatou que:

 

  • Mais da metade dos meninos (53%) disseram acreditar que a pornografia na internet é uma “representação realista do sexo”.
  • Quatro em cada dez meninas concordaram.
  • Aos 13 ou 14 anos, 40% dos meninos disseram que queriam imitar os comportamentos que tinham visto.

 

Em 2012, a revista Sexual Addiction & Compulsivity (vol. 19) publicou uma revisão de pesquisa de Eric Owens et al., intitulada “O impacto da pornografia na internet sobre os adolescentes”. Nela, analisou-se diversos relatórios e dados acerca do comportamento de adolescentes em vários países. E o que concluíram:

 

  • Meninas relatam sentir-se fisicamente inferiores às mulheres que veem em material pornográfico. Meninos temem não conseguir ter o mesmo desempenho que os homens nos filmes pornográficos.
  • Quanto mais os adolescentes assistem a pornografia, maior a probabilidade de alguns se envolverem em comportamentos sexuais de alto risco, como sexo anal, sexo com múltiplos parceiros e sexo sob o efeito de drogas.
  • Quando adolescentes assistem a pornografia que retrata violência, é mais provável que se tornem agressivos em seu próprio comportamento sexual.
  • Quanto mais pornografia os meninos assistem, maior a probabilidade de concordarem que é aceitável imobilizar uma menina e forçá-la a fazer sexo.

 

A pornografia, segundo a dra pode influenciar o que o cérebro vê no colega e reduzir a capacidade de alcançar relacionamentos sexuais normais com pessoas reais. Além de enfraquecer a resistência às crises da vida, o que pode levar à depressão ou à ansiedade diante da frustração e do fracasso em alguma área da vida. Querendo ou não, a pornografia funciona como um escape de prazer, tornando o usuário um dependente químico daquele “estado de excitação”. Conforme Yassin, assistir “a pornografia também libera os hormônios cortisol e testosterona. Durante a adolescência, a exposição persistente ao cortisol pode levar a alterações cerebrais de longo prazo que prejudicam as habilidades cognitivas e a resiliência ao estresse na vida adulta”, habilidades indispensáveis à vida adulta, pois preparam a mente para as crises comuns da existência humana. O livro Good Pictures, Bad Pictures de Kristen Jenson e Gail Poyner instrui acerca do que um adulto deve dizer a seu filho quando se deparar com pornografia [além de educar acerca da maneira como eles devem se comportar em lugares públicos e nas redes sociais, com conselhos como “Fotos ruins mostram as partes íntimas do corpo que cobrimos com um traje de banho”]:

O plano de ação de 5 passos para usar caso encontrem pornografia:

 

  1. Feche os olhos.
  2. Sempre conte a um adulto de confiança.
  3. Diga o nome quando vir.
  4. Se distraia.
  5. Ordene que o cérebro pensante seja o chefe!

O interessante é que este não é um livro de caráter moralizante, nem mesmo cristão. Acontece que até mesmo pessoas céticas estão percebendo os terríveis efeitos da pornografia na sociedade e tudo que desejam é proteger suas crianças dessa onda devastadora da cultura contemporânea.

 

Como mencionado antes, os comportamentos sexualizados [inclusive potenciais abusos] podem ser introduzidos até mesmo por outras crianças que tiveram acesso a pornografia e se tornaram hiperssexualizadas ou sofreram algum abuso sexual, as quais acabam despertando o interesse de seus colegas, muitas vezes na escola ou em círculos pessoais. Veja alguns conselhos aqui. É preciso, portanto, que o adulto desenvolva uma relação de confiança com seu filho, de modo que ele se sinta seguro para se abrir e não constrangido. A Escritura, é verdade, dá bons conselhos para adultos e adolescentes em geral [e bem parecidos com os citados acima]: Fujam da imoralidade. Qualquer outro pecado que o homem comete, é exterior ao seu corpo; mas quem se entrega à imoralidade peca contra o seu próprio corpo.(1Co 6:18). Ela diz: “FUJAM” [algo sempre aconselhável e mais saudável também]. Curta e grossa. Mas ela também contém alguns trechos muito alarmantes. Evite estes até que haja idade adequada e maturidade para compreensão. De fato, você deve ter cuidado com abordagens alarmantes. As crianças e adolescentes não têm muita noção de tudo que a pornografia envolve [muitas delas só estão curiosas] e por isso elas não devem ser “colocadas contra a parede”, por assim dizer, de maneira descuidada. Além disso, elas desejam a aprovação dos pais, e uma reação exagerada ou punitiva deles pode causar a tentativa de ocultamento da situação, o que seria extremamente prejudicial para ajudá-la.

O cristianismo afirma que cada ser humano é importante e respeitável em todos os aspectos: ele não é um objeto. Um dos reflexos da pornografia é objetificar pessoas para satisfação sexual. Se o corpo humano é elevado à condição de Templo do Espírito de Deus, e por isso, sagrado, devemos zelar por ele. Quando uma pessoa comete prostituição, segundo as Escrituras, faz grande mal ao seu próprio corpo [e ao do seu próximo]. Logo, Deus nos orienta a uma vida de pureza porque quer nosso bem, e é claro que sempre há caminhos de perdão e de cura, quando os danos foram causados, pois Deus nos ama com um amor infinito, capaz de ultrapassar todos os nossos erros e imperfeições. Nada do que uma pessoa faça pode superar o oceano da misericórdia divina. Porém é preciso sarar feridas e combater focos de ervas daninhas em nossos lares e escolas, e isso começa por chamar um mal de mal. A pornografia não é inofensiva.

Deus tem o melhor para todos os seus flhos.

 

Foto de charlesdeluvio na Unsplash

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Kertelen Ribeiro

Kertelen Ribeiro é uma ex-protestante convertida ao catolicismo romano. Sendo leiga, faz parte da Legião de Maria. Ama ícones, arte e se arrisca no desenho, mas ainda não sabe fazer sombra direito. Graduada em Letras – Português e pós-graduada em Tradução do Inglês pela Estácio, atua como tradutora freelancer e deseja servir a Cristo, se esforçando para fazer a Sua vontade. Livros sempre foram o caminho.

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Kertelen Ribeiro é uma ex-protestante convertida ao catolicismo romano. Sendo leiga, faz parte da Legião de Maria. Ama ícones, arte e se arrisca no desenho, mas ainda não sabe fazer sombra direito. Graduada em Letras – Português e pós-graduada em Tradução do Inglês pela Estácio, atua como tradutora freelancer e deseja servir a Cristo, se esforçando para fazer a Sua vontade. Livros sempre foram o caminho.

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