Por que a Igreja Católica faz imagens se Êxodo 20 diz: “Não farás Imagem”?

Kertelen Ribeiro

Kertelen Ribeiro

Há dois motivos para isso.

1) Porque os católicos entendem que o mandamento que proíbe a confecção das imagens se refere ao termo “deuses” [ídolos] principalmente, citado anteriormente no começo do mandamento: “Não terás outros deuses[…] Não farás imagem”. 

 

 

Isso explica por que os judeus não se escandalizavam com a ordem de Deus de esculpir Querubins no Templo. Ou seja, figuras que não eram “deuses” [ídolos]. E porque os católicos não veem problema em fazer imagens dos anjos, de Maria e dos santos hoje. Leia mais aqui.

 

2) E quando se refere à representação da divindade, isto é, às imagens de Deus, já que o Senhor não tinha forma nem figura [Êxodo 33, 20-23 e Deuteronômio 4, 12 e 15 – 19], esta é percebida com uma nova abordagem, a partir da Encarnação do Verbo Divino, o qual assume forma visível. 

 

É digno de nota que a série “The Chosen” retrata bem aqui as dificuldades que os judeus possuíam com a Encarnação, uma vez que ela confronta frontalmente as descrições recebidas por eles com respeito às particularidades de seu Deus.

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A seguir, tratemos da segunda resposta, que é a mais complexa.

 

IMAGO DEI

 

Quando Deus Filho encarna e se torna homem, a imagem [ícone] do Deus invisível (Hb 1:3) é apresentada diante dos olhos, e nosso relacionamento com as imagens muda. A primeira pergunta que surge, contudo, quando os católicos alegam essa mudança, é “por que muda?”. E a resposta é que a raiz do relacionamento pecaminoso do homem com as imagens é confrontada e curada na Encarnação [isso para os que creem]. Como mencionado, Cristo é a Imagem perfeita, mas antes de Cristo encarnar, o homem foi criado para ser este Ícone/Imagem de Deus [Imago Dei. Cf. Gn 1, 26], porém tal imagem foi maculada pelo pecado na Queda. Cristo vem ao mundo justamente para corrigir essa imagem. É curioso, inclusive, que é em razão dessa distorção no homem que nasce a Idolatria, a tentativa de encontrar na Criação a fonte da Divindade. E então temos o seguinte: Deus restaura a imagem divina no homem para depois consertar as falsas imagens que ele criou. E veja que algo importante nesse processo é que Ele não obriga o homem a desprezar seus sentidos, demonizando as imagens que primeiro aprovou, mas ordena os sentidos do homem e os redireciona às Verdades Divinas. Um cristão, após a Nova Aliança, pode fazer uso de uma imagem de forma lícita e ordenada porque primeiro ele ordenou dentro de si todas as coisas, algo que um idólatra ou um artífice de deuses jamais fará [tudo é puro para os puros, mas nada é puro para os contaminados:  Tito 1, 15], pois o homem idólatra não discerne Deus corretamente.

Foto de Annie Spratt na Unsplash

 

UM MANDAMENTO NADA SUPERFICIAL

 

Essa resposta faz parte das verdades reveladas na Escritura que foram plenamente abertas a nós com o Evangelho, algo que ocorreu também com outras questões que possuíam um aspecto duplo e místico no Antigo Testamento, tais como as obrigações de se sacrificar animais, as práticas ritualísticas em determinados dias e estações ou as restrições de diversas naturezas impostas aos judeus, tanto com respeito a indumentária quanto com respeito a certos alimentos. Essas coisas apontavam para realidades futuras e tinham finalidade educativa. Não significa que não possuíam valor em si mesmas. Por exemplo, quando um sacerdote sacrificava um cordeiro no Templo, sua prática descrevia um acontecimento histórico único: a morte expiatória de Cristo pelos pecados, Cordeiro de Deus. Mas também, verdadeiramente, cobria os pecados dos homens que participavam da cerimônia.

A proibição de fazer imagens de ídolos e da Divindade não é cerimonial. Como mencionado antes, qualquer católico continua proibido terminantemente de sacrificar a outros deuses ou adorá-los, mas a proibição de ver/representar a pessoa do eterno (Deus) passou a ser lida a partir de uma nova estruturação das coisas, quando o Verbo, que é a Segunda pessoa da Santíssima Trindade, assume a carne mortal no seio de Maria, e se faz homem e visível. Ou seja, não foi o mandamento que se tornou temporário, mas a Pessoa Divina que assumiu uma condição diferente daquela anterior, uma condição visível! Além disso, como dito antes, deu-se a restauração de uma realidade anterior, porém de outra maneira [bastante misteriosa, de fato], e, decerto, superior. Pois verdade seja dita: houve tempo em que Adão caminhava com Deus na viração do dia. Ele não O via em Sua essência, não cremos que Adão tinha a visão beatífica. Mas ele recebia de Deus mais luz e presença do que jamais tivemos após a Queda. O mandamento que proíbe imagens aponta, portanto, para a verdade espiritual da separação entre Deus e os homens, a qual se manifestou no Éden, pela espada do Querubim guardando o Jardim [Gn 3,24], no acesso NEGADO à realidade divina em razão da desobediência e da introdução do pecado Original: o homem é privado da Santidade Divina e da Visão de Seu Criador. Mas também aponta para a eleição do homem ao lembrá-lo como foi feito, à Imagem, isto é, da Imago Dei dentro dele. Toda relação começa com a visão. Deus nos eleva ao fim sobrenatural do Homem quando Jesus assume a Humanidade. E agora, tendo Deus assumido esta carne, não devemos pensar que seremos privados de vê-lo na face do Filho de maneira mais perfeita que Adão jamais experimentou. Os homens não podiam ver Deus porque se tornaram pecadores. E Adão não podia ver Deus porque o VERBO ainda não encarnara. Agora que temos a promessa de ambos, não devemos julgar que teremos menos ainda. Pois é o pecado que nos separa de Deus: o que a Escritura diz quando apresenta alguém tendo visto Deus em Juízes 13, 22;  Êxodo 33,20; Gênesis 32,30? Essas pessoas logo são convencidas de que vão morrer porque são pecadoras. Essa falta da justiça original, consequentemente, leva o homem (por culpa) a pecados pessoais, somados ao pecado Original (adquirido), como por exemplo, à confusão da idolatria, ao mesmo tempo em que lhes mantém presos a ideias limitadas, obscuras e incorretas do verdadeiro Deus. É basicamente o seguinte: o homem caiu por sua própria escolha no pecado [privou-se da Imagem], e depois afundou ainda mais [fazendo ídolos para si]. Apenas Cristo lhe restaura a visão e a perfeição da condição de santidade salvando-o da falsidade de seus enganos.

Se quer entender mais, considere:

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A MUDANÇA NA ECONOMIA DAS IMAGENS DIVINAS
COM A ENCARNAÇÃO É RESULTADO DA MUDANÇA NO RELACIONAMENTO ENTRE DEUS E OS HOMENS [ROMPIDA PELO PECADO; MAS RESTAURADO PELA CRUZ]

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Há mais sobre as imagens aqui e aqui.

Foto de James Coleman na Unsplash

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Kertelen Ribeiro

Kertelen Ribeiro é uma ex-protestante convertida ao catolicismo romano. Sendo leiga, faz parte da Legião de Maria. Ama ícones, arte e se arrisca no desenho, mas ainda não sabe fazer sombra direito. Graduada em Letras – Português e pós-graduada em Tradução do Inglês pela Estácio, atua como tradutora freelancer e deseja servir a Cristo, se esforçando para fazer a Sua vontade. Livros sempre foram o caminho.

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Kertelen Ribeiro é uma ex-protestante convertida ao catolicismo romano. Sendo leiga, faz parte da Legião de Maria. Ama ícones, arte e se arrisca no desenho, mas ainda não sabe fazer sombra direito. Graduada em Letras – Português e pós-graduada em Tradução do Inglês pela Estácio, atua como tradutora freelancer e deseja servir a Cristo, se esforçando para fazer a Sua vontade. Livros sempre foram o caminho.

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