Um bom amigo meu está estudando para se tornar ministro presbiteriano no Westminster Theological Seminary. Antes de ele partir, fiz duas perguntas:
-
-
- Onde a Bíblia dita a Sola Scriptura?
- Onde a Bíblia dita precisamente o cânon das Escrituras?
-
No fim das contas, para que o Sola Scriptura não seja auto-refutantável, ambas devem aparentemente vir da Bíblia. Afinal, ambas são doutrinas, e o Sola Scriptura afirma que todas as doutrinas devem vir da Bíblia. Na época, ele me disse que voltaria a falar comigo.

Eu o vi novamente esta semana e, como ele já completou um ano de seminário, perguntei-lhe: “Você já descobriu por que usa uma Bíblia de 66 livros?”
Desta vez, ele disse: “Basicamente, o Concílio de Jâmnia é a lista protestante”.
Protestantes instruídos frequentemente apontam para isso com o fim de justificar o seu cânon das Escrituras, mas de fato não funciona. Contudo, muitos cristãos, tanto católicos como protestantes, não têm ideia do que foi (ou não foi) este assim chamado Concílio. Então, aqui está o que você deve saber sobre o “Concílio de Jâmnia” e por que ele é um fracasso:
- O “Concílio de Jâmnia” quase certamente não existiu: isso é importante. Sabemos que havia uma escola rabínica em Jâmnia, mas não há qualquer evidência de que algum Concílio tenha ocorrido lá. O “Concílio” é apenas uma hipótese apresentada em 1871 por Heinrich Graetz, para explicar como os judeus acabaram com um único cânon. Mas como hipótese, é muito fraca. Não existem fontes antigas que falem de um Concílio em Jâmnia. Poderíamos facilmente afirmar que houve um Concílio em Pequim. Seja qual for o valor que isso tem, a maioria dos estudiosos finalmente percebeu o óbvio: não há razão para acreditar que o Concílio existiu.
- Não está claro se a Escola de Jâmnia sequer abordou o Cânon das Escrituras: Não é apenas o fato de que, seja lá o que for que tenha acontecido em Jâmnia, não tenha se tratado de um Concílio formal. É também o fato de que não está claro se a escola rabínica sequer abordou a questão do cânon das Escrituras. Você poderia facilmente dizer que obteve seu cânon das Escrituras da Paz de Vestfália.
- A Escola Jâmnia não era cristã: Como eu disse, embora quase certamente não tenha havido um Concílio, houve uma “escola” rabínica, no sentido de ter rabinos ensinando discípulos. Após a destruição de Jerusalém em 70 d.C., a cidade de Jâmnia tornou-se o coração intelectual e religioso do Judaísmo Rabínico. Talvez nem seja necessário dizer que aqueles judeus que se tornaram cristãos não faziam parte da escola Jâmnia, portanto esta escola incluía apenas aqueles judeus que rejeitaram a Cristo ou que de alguma forma não tinham consciência dEle. Na verdade, a escola de Jâmnia é produto dos fariseus e legalistas. A propósito, é por isso que eles não precisavam de um Concílio para produzir um cânon. Os fariseus há muito usavam o Antigo Testamento moderno protestante. Eram os helenistas, isto é, os judeus de língua grega, que usavam o moderno Antigo Testamento católico, enquanto os saduceus usavam apenas os primeiros cinco livros da Bíblia. Veja mais sobre isso aqui.
- A Escola Jâmnia era muito anti-cristã: Embora não possamos dizer que a escola rabínica Jâmnia alguma vez tenha produzido um cânon bíblico, podemos apontar para uma importante contribuição da escola. Ela produziu uma oração horrorosa chamada Birkat haMinim, na qual amaldiçoou os cristãos como sectários, e orou a Deus para que, a tais “sectários”, “não houvesse esperança, e que por todo o mal sejam eles destruídos num instante e que todos os Teus inimigos sejam destruídos”. Que Tu reduza-os muito em breve; e aos maus arranques, despedace-os, destruindo-os e humilhando-os rapidamente em nossos dias. Bendito és Tu, Senhor, que derruba os inimigos e humilha os pecadores.”
Esta oração deveria ser feita todos os sábados e forçou os cristãos judeus a parar de adorar junto com os judeus não-cristãos na sinagoga. Antes disso, os judeus que aceitavam a Cristo ainda se sentiam confortáveis em ir à sinagoga, onde tentavam converter outros falando do Senhor Jesus como o tão esperado Messias. Por exemplo, isso é descrito como prática regular de Paulo e Barnabé em passagens como Atos 14:1 e Atos 17:2. Depois do Birkat haMinim, esses dias terminaram decisivamente. Um cristão poderia orar ao Deus dos judeus em sã consciência, pois Ele também é o Deus dos cristãos. Mas obviamente, um cristão judeu não poderia pedir a Deus que condenasse muito em breve os cristãos. Devo mencionar que, seja qual for o valor que isso tem, há alguma dúvida sobre até que ponto tal maldição contra os “sectários” deveria ser interpretada e, provavelmente, diferentes crentes rezavam a oração anti-sectária tendo diferentes inimigos em mente. O historiador israelense Gedaliah Alon, por exemplo, afirma “que o Birkat HaMinim pode ter sido dirigido apenas aos cristãos judeus que adotavam uma posição antinomiana, negando assim o princípio central do judaísmo da época, o nomismo pactual”. Não importa. Mesmo que os cristãos judaizantes estivessem isentos da maldição, ela ainda era vista como um ataque anticristão, e os cristãos judeus os deixaram. - É possível que o “Cânone de Jâmnia” seja resultado deste Anticristianismo: Embora não esteja claro se a escola Jâmnia alguma vez produziu um cânone bíblico (veja Nº2), houve uma resistência contra os Deuterocânonicos católicos e contra a tradução grega da Bíblia em geral, porque os Deuterocânonicos falam claramente sobre coisas como Céu e Inferno. Ele contém profecias cristológicas surpreendentemente evidentes. Por exemplo, Mateus 27:41-43 está claramente escrito como um cumprimento de Sabedoria 2:12-22, em que o Justo morreria uma morte vergonhosa (veja também Filipenses 2:8). Ao expurgar do Judaísmo os Deuterocânonicos, seria possível retardar o movimento em massa de judeus se convertendo ao Cristianismo. A propósito, é esse o motivo pelo qual muitos estudiosos que apoiam a ideia de algum tipo de cânon de Jâmnia pensam que o cânon foi formado: para expurgar os helenistas e os cristãos.
- Os primeiros cristãos rejeitaram o cânon dos fariseus: Considerando os números 3-5, não é nenhuma surpresa. Mas ainda é importante lembrar que não estamos começando do zero. Afinal, havia cristãos no final do primeiro século, e fiéis, muitos dos quais ouviram Jesus ou os apóstolos em primeira mão. E, claro, é quase uma certeza que o apóstolo João ainda estava vivo. E, no entanto, o que não vemos nesse momento é qualquer cristão, seja judeu ou gentio, dizer: “Precisamos prestar atenção no que os rabinos em Jâmnia decidem sobre quais livros pertencem à Bíblia, porque a sua decisão irá vincular todos nós. ” E considerando o fato de que nenhum cristão primitivo usou este Antigo Testamento, não há dúvida sobre qual é a resposta certa.
- Os primeiros cristãos finalmente produziram seus próprios cânones das Escrituras: Não é como se os primeiros cristãos estivessem calados sobre a questão do cânon das Escrituras. O Concílio Norte-Africano de Cartago, defendido por Santo Agostinho, o herói dos católicos e de muitos protestantes, produziu uma Bíblia católica exata, Antigo e Novo Testamento. Ele foi baseado em um Sínodo de Hipona anterior cujos registros se perderam no tempo. Papa Dâmaso I confirmou este cânone. Foi um processo gradual, de fato, mas um processo no qual a visão católica foi mantida, e a visão protestante e rabínica/farisaica nem sequer foi apresentada como uma opção.
- O argumento protestante viola o Sola Scriptura: Lembre-se de que o Sola Scriptura diz que todas as doutrinas devem vir da Bíblia. O cânon das Escrituras é certamente uma doutrina: uma das doutrinas mais importantes, na verdade. E, no entanto, os protestantes que defendem esta visão derivam tal doutrina não das Escrituras, mas de uma tradição farisaica. A menos que o sola Scriptura signifique agora “Escritura mais tradições dos fariseus”, é uma enorme contradição ambulante para os protestantes promoverem este Concílio imaginário como uma forma de procedência dos Livros da Bíblia.

Claro, a ironia aqui é surpreendente. Apesar de toda a conversa sobre os Gálatas, são os protestantes que estão aqui bancando os judaizantes, tentando forçar os cristãos a seguir os ditames de um grupo insular de rabinos judeus veementemente anticristãos do primeiro século. Dito de outra forma, se um cristão do primeiro século levantasse o argumento de que deveríamos rejeitar o Antigo Testamento usado pelos cristãos para em seu lugar aceitar aquele que estava sendo desenvolvido na escola de Jâmnia, os seguidores de São Paulo o denunciariam por seu legalismo.
Basicamente, não é uma resposta cristã à questão do cânon das Escrituras.
Foto Principal de Francesco Alberti via Unsplah
Tradução do texto Can Protestants Rely Upon the “Council of Jamnia” for Their Bible?




