I. Desafio: Encontrar uma Bíblia Protestante da Igreja Primitiva.
Encontrar um Pai da Igreja Primitiva que concorde 100% com o Protestantismo seria um fardo injusto.
Afinal, provavelmente existam alguns padres que discordam de coisas agora definidas no catolicismo, se você ler seus escritos cuidadosamente. Mas uma coisa deve ser considerada justa: encontre uma Bíblia protestante. Encontre um único Pai da Igreja Primitiva que diga: “aqui está o cânon que nós usamos” e liste os exatos livros que os protestantes têm em suas Bíblias hoje. Afinal de contas, tanto para o solo Scriptura quanto para o sola Scriptura, é preciso primeiro haver concordância com respeito a qual Bíblia. Se nenhum dos Pais da Igreja Primitiva leu a Bíblia que é usada hoje pelos protestantes, nenhuma de suas citações elogiando a leitura das Escrituras é aplicável para provar uma posição de “só a Bíblia protestante”.
Então eu decidi ir à fonte. Ou, mais especificamente, a Archibald Alexander (1772-1851), que escreveu um livro chamado Canon of the Old and New Testaments Ascertained, or The Bible Complete without the Apocrypha and Unwritten Traditions (Trad. Cânon do Antigo e do Novo Testamento Determinado, ou A Bíblia Completa sem os Apócrifos e as Tradições Não Escritas). Agora eu sei o que você deve estar se perguntando: como pode um conjunto de livros como a Bíblia, conter Tradições não escritas? Eu só posso especular. Ilustrações, talvez? É possível que ele estivesse cansado de ver coisas como estátuas de Moisés com chifres. Brincadeira: basicamente o conteúdo sobre “os apócrifos e as tradições não escritas” é para que seu público saiba que o autor “odeia tudo o que o catolicismo representa!” E seu livro com certeza demosntra isso. Nele, Alexander faz algumas declarações ousadas sobre os Pais da Igreja Primitiva e o cânon. Ele observa que o cânon mais antigo que temos é o de Melito de Sardes, mas que só conhecemos seu cânon a partir da obra História da Igreja de Eusébio. Com relação ao cânon de Melito, Alexander escreve o seguinte: “os mesmos livros foram, em sua época, recebidos no Cânon, como agora são encontrados em nossas Bíblias hebraicas”. Então ele está afirmando: o cânon de Melito é 100% compatível com o cânone protestante. E escreve:
Logo depois de Melito, Orígenes nos fornece um catálogo dos livros do Antigo Testamento, que está perfeitamente de acordo com nosso Cânon, exceto que ele omite os Profetas Menores; cuja omissão deve ter sido um mero deslize da caneta, dele ou de seu copista, pois é certo que ele os recebeu como um único livro da Sagrada Escritura: e o número dos livros do Antigo Testamento, fornecidos por ele neste mesmo lugar, não pode ser completado sem considerarmos os doze Profetas Menores como um só.
Depois de Orígenes, temos catálogos sucessivos, não apenas compilados por homens da primeira autoridade na igreja, mas também por concílios, compostos por numerosos bispos, todos eles sendo perfeitamente iguais aos nossos. Será suficiente apenas referir-se a essas fontes de informação. Catálogos dos livros do Antigo Testamento foram dados por Atanásio; por Cirilo; por Agostinho; por Jerônimo; por Rufino; pelo Concílio de Laodicéia, em seu LX. Cânone; e pelo Concílio de Cartago. E quando se considera que todos esses catálogos correspondem exatamente ao nosso presente Cânone da Bíblia Hebraica, a evidência, penso eu, deve parecer completa para toda mente imparcial, de que o Cânon do Antigo Testamento é estabelecido sobre os fundamentos históricos mais claros.
Uau. Certamente, se Archibald Alexander está dizendo a verdade, deve parecer mesmo completo para toda mente imparcial, que o Cânon do Antigo Testamento é estabelecido sobre os fundamentos históricos mais claros. Sendo assim, de acordo com ele, todos os cânones em negrito acima concordarão 100% com o cânon protestante. Esse é o padrão que ele estabelece para si mesmo, e é o único razoável. Afinal, a diferença entre o cânon católico e protestante é de apenas 7 livros (além de versões mais longas de Daniel e Ester, que você realmente não pode distinguir de uma forma ou de outra em uma lista de livros). Então, decidi submeter retroativamente o livro de Archibald ao que pode ser chamado de “O Desafio do Cânon Protestante da Igreja Primitiva”, isto é, ele reivindica 9 fontes que fornecerão exatamente o que estou buscando: Um Cânon Protestante completo e exato. De fato, ele só reivindica um Antigo Testamento protestante, mas pelo menos temos um ponto de partida (como veremos, ele não nem mesmo é capaz de cumprir a menor das promessas – desculpe estragar a surpresa).
II. No que os Pais da Igreja Primitiva realmente acreditavam
Antes de começarmos, muitas das listas agrupam os livros para tentar fazer do cânon um perfeito compilado de 22 livros. Eles fazem isso de maneiras estranhas, como colocando “os doze profetas menores” como sendo um só livro, mesmo que sejam doze livros com autores diferentes, ou agrupando Juízes e Rute juntos num só livro (o que é estranho), ou colocando parte de Baruque junto com Lamentações no final de Jeremias, e considerando-o um único livro. Jerônimo explica as razões pelas quais ele acha que este é um padrão importante em seu prólogo aos Livros dos Reis aqui. É uma tentativa piedosa, mas, no final das contas, tal prática é descartada pela Igreja (e não é revivida pelos protestantes), porque há livros demais para tentar encontrar uma maneira de reduzi-los ou agrupá-los em um catálogo de 22.
A. Melito (falecido em 180 d.C.):
A única cópia existente da carta de Melito é do Livro 4, Capítulo 26 da obra História da Igreja de Eusébio – trata-se da seção 14 aqui. Nela, ele exclui Ester do cânon e inclui também o Livro da Sabedoria. A afirmação protestante de que Melito está repetindo o mesmo livro duas vezes com nomes diferentes parece contrariar o delineamento que o próprio bispo Melito traçou: listá-los especificamente como “Provérbios de Salomão, Sabedoria também” parece refutar qualquer tentativa de reduzi-lo a um único livro. Aqui está um sola escriturista protestante que argumenta que o livro de Sabedoria realmente estava no cânon de Meltio, com base no texto. Em ambos os casos, sem Ester, este não corresponde a um Antigo Testamento protestante completo, e o Bispo Melito não inclui um cânon do Novo Testamento.
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B. Orígenes:
Também sabemos de sua lista canônica através da obra História da Igreja de Eusébio – está aqui. Nela, ele também lista como canônicos “Jeremias, com Lamentações e a Epístola em um só”. A Epístola em questão é a Epístola de Jeremias, que agora é o último capítulo de Baruque. Na época, Jeremias, Lamentações e esta epístola foram agrupados em uma só livro por aqueles que queriam manter o cânon do Antigo Testamento com 22 livros. Veremos esta “Epístola” mencionada novamente nas listas de Atanásio e Cirilo. Bem no final da lista, Orígenes escreve: “E além destes, há os Macabeus, que são intitulados Sarbeth Sabanaiel”. É uma frase enigmática. Ele parece pensar que o 1º e o 2º Macabeus são canônicos, mas que não há como incluí-los na estrutura de 22 livros que está tentando criar. Então, ou ele os menciona com o intuito de dizer, “além dos 22, estes são canônicos”, ou “esses estão especificamente fora da lista canônica”. Eu acho que é o primeiro CASO, mas é difícil dizer. Se ele estiver refutando os dois livros dos Macabeus, por que incluir o nome deles em hebraico (já que ele diz que está fornecendo os livros hebraicos)? E por que listar apenas esses dois livros, em vez de todos os outros livros considerados canônicos dos quais ele não gosta? Então, acho que Orígenes está confuso sobre como encaixar essas duas peças juntas (“Maccabeus é canônico” e “existem 22 livros”). Em ambos os casos, a aceitação explícita de Orígenes do Deuterocanônico Baruque 6 significa que seu cânon inclui parte dos Deuteroanônicos, e não é um cânon protestante exato.
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C. Atanásio:
Você pode encontrar o cânon dele aqui, nos números 4-5 e 7. Ele conta como um só livro canônico “Jeremias com Baruque, Lamentações e a epístola”. Ele também omite Ester e, de fato (no nº 7), lista o livro junto com a maior parte dos Deuterocanônicos como um só livro não canônico usado para novos membros da Igreja. Então ele nem ao menos se esqueceu de Ester. Ele explicitamente se dirigiu a ele como não sendo canônico.
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D. Cirilo de Jerusalém:
A lista dele está aqui, nº 34-36. Nela, ele diz que a LXX (Septuaginta) é divinamente inspirada, contando a popular Lenda dos Setenta e Dois Tradutores. A LXX, você notará, contém os Deuterocanônicos completos. Então ele fornece a sua lista e, como Orígenes, conta o livro de Jeremias como “um só, incluindo Baruque e Lamentações e a Epístola”. Além disso, sua lista do Novo Testamento omite o Apocalipse. Para ser justo, Alexander só afirmou que era um cânon perfeito do Antigo Testamento. Claro, mas como não é, ele ainda está errado (de novo).
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E. Agostinho:
A lista de Agostinho está aqui, nº 13. Eu sabia que Archibald Alexander estava errado quando notei Agostinho na lista. Ele foi o fervoroso defensor dos Deuterocanônicos contra os tradutores Jerônimo e Rufino. Agostinho apresenta, no link acima, o cânon católico completo e exato, embora não liste Lamentações ou Baruque. Mas já sabemos que eles foram frequentemente agrupados como parte do Livro de Jeremias a partir dos autores acima. E, de fato, Agostinho cita Baruque chamando-o de Jeremias, o que é uma evidência bastante explícita de que ele os considerava todos um só livro (veja a nota de rodapé 2473 aqui, que menciona que São João Cassiano fez o mesmo). Sua lista inclui explicitamente Tobias (Tobit), 1º e 2º Macabeus, Sabedoria e Eclesiástico (Sirach). Ele cita os Deuterocanônicos em outro lugar como Escritura, por exemplo, seu uso do anjo em Tobias como Escritura no capítulo 13 de A Cidade de Deus. Ele diz explicitamente sobre os livros 1º e o 2º Macabeus: “Estes são considerados canônicos, não pelos judeus, mas pela Igreja, por causa dos sofrimentos extremos e maravilhosos de certos mártires, que, antes da vinda de Cristo em carne, lutaram pela lei de Deus até a morte, e suportaram os males mais graves e horríveis”. E ele defende o Livro da Sabedoria com mais detalhes aqui. No geral, penso que se você está escrevendo um livro com o intuito de desacreditar os Deuterocanônicos, nosso querido Agostinho pode não ser o cara certo.
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F. Jerônimo
Jerônimo é o mais famoso. Mas o problema é que ele nunca criou um cânon protestante. Ele apenas duvidou da autenticidade dos Deuterocanônicos, e há uma milha de diferença entre essas duas coisas. O que seu cânon teria parecido, se fosse deixado por conta própria, não é muito claro: teria ele incluído Esther? Teria incluído a versão LXX (Septuaginta) de Jeremias? De qualquer forma, ele acabou cedendo à opinião da Igreja, mesmo que reclamasse. Aqui está um breve post que eu escrevi explicando por que Jerônimo é um exemplo ruim para os protestantes, pois cedeu à autoridade do Papa e dos Concílios da Igreja contra sua própria especulação teológica. Questionar a autenticidade dos Deuterocanônicos não é o mesmo que apresentar positivamente um cânon dissidente, e muito menos um cânon protestante completo e exato. Muitos Pais da Igreja Primitiva não tinham certeza da canonicidade deles: é por isso que são chamados de Deuterocanônicos. Isso não significa que eles usavam a Versão King James.
Mas lembre-se, Jerônimo não foi deixado por conta própria (afinal, ele era um secretário papal), e ele traduziu e montou um cânon: a Vulgata Latina, a Bíblia popularmente usada na Igreja Católica por séculos, que continha os Deuterocanônicos (para ficar caro, ela tinha incluído o kvetching de Jerônimo sobre ter de traduzi-la, e suas dúvidas, mas como abordarei abaixo, isso é bastante irrelevante se a pergunta for “livros no cânon”). Jerônimo poderia ter feito um “Cânon de São Jerônimo”, mas ele não o fez, porque cedeu às autoridades –especificamente, ao seu chefe, o papa São Dâmaso, que sustentava juntamente com toda a Igreja que os Deuterocanônios eram canônicos. Tentar usá-lo agora como uma autoridade para a posição antideuterocanônica seria como fazer o oposto daquilo que ele fez em vida: que foi submeter-se à Igreja. Então marco com giz mais um cânone católico, totalmente montado.
Nº de cânones protestantes até agora: 0
Nº de Cânones Católicos até agora: 2
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G. Rufino (340-410):
Sua lista contém “Rufino”, que suponho se tratar de Rufino de Aquileia. Nesse caso, o cânon dele do Antigo Testamento não inclui explicitamente Lamentações. Provavelmente, como a maioria dos outros Padres que consideramos, ele usa a versão LXX de Jeremias, que contém Lamentações, a Epístola de Jeremias (Baruque 6) e, em muitos casos, o restante de Baruque. Se ele quis dizer a versão hebraica de Jeremias, ele é um livro curto (Lamentações) do cânon protestante. Se ele quis dizer a versão grega de Jeremias, ele também tem parte de Baruque ou ele inteiro. De qualquer forma, este não é um cânone protestante perfeito. Rufino empregou uma estrutura de três níveis: “canônico”, “eclesiástico” e “apócrifo”. Canônicos eram aqueles livros “que os pais incluíram no cânon; sobre o qual eles querem que sejam estabelecidas as declarações de nossa fé”. Os apócrifos eram “os que não teriam lido nas igrejas”. Ele não define livros eclesiásticos. Em sua lista de livros eclesiásticos, ele não inclui Baruque ou Lamentações. Então ele pensava que eles eram totalmente apócrifos (improváveis), ou os considerava canônicos.
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Nº de Cânones Católicos até agora: 2
Nº de vezes que Alexander Archibald alegou que existia um cânon protestante onde não existia: 7




