Imagem: João Calvino em seu leito de morte, com membros da Igreja presentes. Litografia de W.L. Walton, após Oakley,1865. Este arquivo provém do Wellcome Images, um site operado pela Wellcome Trust, uma fundação beneficente global sediada no Reino Unido. Consulte a publicação no blog da Wellcome ( arquivo ). [ Wikimedia Commons / Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional ]
O polemista protestante reformado anticatólico James Swan objetou [em 22/08/2017] a uma suposta citação de João Calvino, na qual o reformador dizia: “Tais monstros devem ser exterminados, assim como eu exterminei Miguel Serveto, o espanhol”. Acontece que o Dr. Jules Bonnet, editor da coleção definitiva das cartas de Calvino (tenho dois belíssimos volumes encadernados dessa coleção em minha biblioteca), considera essa carta e tal citação em particular uma falsificação. Isso é justo. Tais coisas devem ser registradas, e citações espúrias devem ser eliminadas de qualquer análise acerca da pessoa de Calvino.

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Por outro lado, os mesmos sentimentos expressos na falsificação foram expressos em outros textos atribuídos a João Calvino? E a resposta é um sonoro sim.
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É isso que James Swan deixa passar (como tantas vezes acontece). Em seu esforço para repudiar uma carta falsificada, ele ignora a questão abordada na própria carta: a atitude particularmente hostil de Calvino em relação ao herege Miguel Serveto e sua opinião de que ele próprio tomou a iniciativa para executá-lo (embora, tecnicamente, o governo civil tivesse jurisdição e a palavra final em tais assuntos). Sabemos por meio de cartas que Calvino expressou o desejo de que Serveto não fosse queimado. Ele queria que Serveto fosse decapitado. Mesmo assim, ele expressou sentimentos praticamente idênticos aos citados acima, na fonte que foi considerada falsa. Aqui está a evidência, nas próprias palavras de Calvino (as palavras de Calvino estarão em vermelho-vinho, com minhas ênfases em negrito):
Calvino:
Serveto escreveu-me recentemente, anexando à carta um longo volume de suas fantasias delirantes, com a jactância de Trasônico de que eu veria algo espantoso e inédito. Ele se oferece para vir até aqui, se me for conveniente. Mas não estou disposto a dar minha palavra por sua segurança, pois, se ele vier, jamais permitirei que saia daqui vivo, contanto que minha autoridade tenha algum valor.
(Carta a Farel, 13 de fevereiro de 1546; em Henry Beveridge e Jules Bonnet, editores, David Constable, tradutor, Obras Selecionadas de João Calvino: Tratados e Cartas: Volume 5: Cartas, Parte 2: 1545-1553; originalmente publicado na Filadélfia pela Presbyterian Board of Publication, 1858; reimpresso pela Baker Book House, Grand Rapids, Michigan, 1983, p. 33; citado também em Philip Schaff, História da Igreja Cristã , Vol. VIII, cap. 16, seção 136: “A Literatura de Serveto”)
Quem quer que agora argumente que é injusto condenar à morte os hereges e blasfemos, consciente e voluntariamente, o tal incorrerá na mesma culpa. Isso não é imposto por autoridade humana; é Deus quem fala e prescreve uma regra perpétua para a sua Igreja… Muitas pessoas me acusaram de tamanha crueldade que eu gostaria de matar novamente o homem que destruí. Não só sou indiferente aos seus comentários, como me alegro com o fato de cuspirem na minha cara.
(Defesa da Fé Ortodoxa contra os Prodigiosos Erros do Espanhol Miguel Serveto, escrita em 1554; citada em Philip Schaff, História da Reforma [Nova York, 1892], vol. 2, p. 791; citada em Stanford Rives, Calvino Assassinou Serveto?, Infinity, 2008, p. 348-349)
O proeminente historiador da Igreja Protestante, Owen Chadwick, em seu livro The Early Reformation on the Continent (Oxford University Press, 2001), menciona esta obra ( p. 388 ) e o pedido de Calvino para escrever o tratado, quatro dias após a execução de Serveto.
Calvino:
Mas, embora a franqueza e a justiça que lhe são naturais, assim como o amor que me nutre, te levem a me julgar de modo favorável, há outros que me atacam duramente, acusando-me de crueldade e atrocidade, por ter atacado com minha pena não apenas um homem morto, mas também aquele que pereceu pelas minhas mãos.
(Carta para Heinrich Bullinger, 29 de abril de 1554 [CR XLIII, col. 123-4])
Esta carta foi citada em A Vida de João Calvino, de Thomas Henry Dyer (John Murray, 1850), na página 365. A Enciclopédia Britânica (11ª ed.), em sua seção sobre Dyer, descreveu esta obra como “um trabalho extremamente detalhado e, no geral, imparcial, e sua influência no mundo religioso é insuficientemente reconhecida”.
Calvino:
Serveto… sofreu a pena devida às suas heresias, mas foi por minha vontade? Certamente, sua arrogância o destruiu tanto quanto sua impiedade. E que crime cometi se o nosso Concílio, por minha exortação, sim, mas em conformidade com a opinião de várias Igrejas, vingou-se de suas execráveis blasfêmias? Que Baudouin me insulte o quanto quiser, contanto que, pelo julgamento de Melanchthon, a posteridade me deva gratidão por ter expurgado a Igreja de um monstro tão pernicioso.
(em Philip Schaff, História da Igreja Cristã, Vol. VIII, cap. 16, seção 136: “A Literatura Servetus”, resposta a Balduíno, 1562; Responsio ad Balduini Convicia, Opera , IX. 575: “ Iustas quidem ille poenas dedit: sed an meo arbitrio? Certe arrogantia non minus quam impietas perdidit hominem. Sed quodnam meum crimen, si Senatus noster mea hortatu, ex plurium tamen ecclesiarum sententia, exsecrabiles blasphemias ultus est? nostrum, sub cuius ditione aliquando vixit, perstringat ingratus hospes: modo idem Philippus scripto publice edito testetur dignum esse exemplum quod imitentur omnes christiani principes .”)
Essa citação também está incluída em A Vida de João Calvino, de Thomas Henry Dyer, na página 513.
A carta de Philipp Melanchthon, sucessor de Lutero e amigo pessoal de Calvino, à qual Calvino se refere (datada de 14 de outubro de 1554), é citada no livro de François Wendel, Calvin: Origins and Development of His Religious Thought (traduzido por Philip Mairet, Nova Iorque: Harper & Row, Publishers, 1963, a partir do original francês de 1950), na página 97:
Calvino:
Li o texto em que refutaste as detestáveis blasfêmias de Serveto, e agradeço ao Filho de Deus, que foi o árbitro do vosso combate. A vós também a Igreja deve, e no futuro deverá, gratidão. Concordo plenamente com o vosso julgamento. Afirmo também que a vossa Magistratura agiu com justiça ao condenar este blasfemo à morte após um julgamento justo.
Sendo assim, nós concluímos que Calvino não apenas reivindicava a responsabilidade principal pela execução de Serveto (e até se orgulhava bastante disso); como também que seus amigos próximos e outros importantes líderes protestantes da época, tais como Melanchthon, reconheciam esse fato. Em resumo, comparo a linguagem da carta forjada com cartas autênticas e demonstro que as mesmas opiniões foram comprovadamente defendidas pelo próprio Calvino em outros momentos.
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Carta forjada e falsa de João Calvino a respeito de Serveto:
“Tais monstros devem ser exterminados, assim como eu exterminei
Miguel Serveto, o espanhol.”
Cartas autênticas de João Calvino, referentes a Serveto:
“Nunca permitirei que ele saia daqui vivo” (13 de fevereiro de 1546)
[Serveto foi executado em 27 de outubro de 1553]
“Muitas pessoas me acusaram de tamanha crueldade que eu gostaria de matar novamente o homem que destruí. . . .
Alegro-me com o fato de que elas cuspirem na minha cara.” (1554)
“…aquele que pereceu pelas minhas mãos.” (29 de abril de 1554)
“…pelo julgamento de Melanchthon, a posteridade me deve uma dívida de gratidão por ter expurgado a Igreja de um monstro tão pernicioso.” (1562)
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