A mídia e a política estão destruindo sua alma!

Joe Heschmeyer

Joe Heschmeyer

Nós vivemos em um tempo estranho. É um tempo marcado por contenda, desavença e faccionalismo. Isso é verdade dentro da Igreja e do âmbito da política (tanto nos EUA quanto em muitos outros países). Para tomar apenas um exemplo, aqui estão algumas evidências objetivas sobre o crescente e terrífico abismo político na América:

Este ponto em particular é saliente porque não é só que discordamos. É que nós não confiamos no “outro lado”, e na verdade nos odiamos uns aos outros a um nível não visto na história moderna dos EUA. E o catolicismo americano também não foi isento dessa tendência. Você tem católicos descaroáveis pró e contra Francisco criticando uns aos outros. Então, o que está acontecendo e o que podemos fazer a respeito? Aqui vai o que Neil Postman, C.S. Lewis e São Paulo podem dizer sobre onde nós entramos em erro, e o que podemos fazer a respeito individualmente.

As porções de republicanos e democratas que expressam opiniões muito desfavoráveis do partido opositor têm crescido dramaticamente desde os anos 90, porém mudaram pouco nos últimos anos. Atualmente, 44% dos Democratas e dos de tendência Democrata têm uma opinião muito desfavorável do GOP, com base nas médias anuais das pesquisas do Pew Research Center; 45% dos Republicanos e de tendência Republicana veem o Partido Democrata muito desfavoravelmente. Em 1994, menos de 20% em ambos os partidos viam o partido opositor muito desfavoravelmente.

 

I. A indústria da adicção em revolta que talvez não conheça

 

Talvez um dos problemas com a comida é que ela é rotulada errado — isso era um problema por boa parte do início do séc. XX. Mas outro problema é que a comida em si é uma porcaria não saudável que torna a sua vida pior quando você consome demais. As notícias são do mesmo jeito. Existem fake news, o relato de coisas que literalmente não aconteceram. Mas um problema muito maior são as junk newsnotícias que existem apenas para entreter e que na verdade nos torna pessoas piores quando as consumimos demais.  Parte da razão disso é a nossa adicção à revolta. Lá em 2015, a Psychology Today fez uma postagem alertando que “a raiva é uma epidemia pública na América.” O autor explicou porque a raiva é adictiva:

 

O que acontece é que a raiva pode levar a explosões similares a atividades radicais onde o perigo ativa os receptores de recompensa de dopamina no cérebro, ou outras formas de adicção como apostas, esportes extremos, até mesmo drogas como cocaína e metanfetaminas. A raiva pode se tornar sua própria recompensa, porém assim como outras adicções, as consequências finais são perigosas e reais, e as pessoas seguem os impulsos no momento, sem levar em conta o quadro geral.

Dois dos maiores traficantes nesse novo panorama são a mídia jornalística e as plataformas digitais de rede social.

 

Lembre que os noticiários 24 horas são um fenômeno relativamente recente. Eles não existiam no passado porque não havia necessidade deles. Pessoas ordinárias não precisavam (e não precisam!) saber sobre todo escândalo, controvérsia ou revolta possível. De fato, o desejo de saber sobre tudo apenas por saber (ou para a satisfação da sua adicção em revolta) é um pecado que costumava ser algo contra o qual nós alertávamos. Teólogos católicos como Tomás de Aquino descreve o vício da curiositas, uma curiosidade não saudável que não é motivada por um amor sincero pela verdade. Ele cita Santo Agostinho, que alerta como

há alguns que abandonando a virtude, e ignorantes do que Deus é, e da majestade daquela natureza que sempre permanece a mesma, imaginam que estão fazendo algo grandioso, se com inigualável curiosidade e agudeza exploram toda a massa deste corpo que chamamos o mundo. Tão grande orgulho é gerado assim, que alguém pensaria que eles habitam nos mesmos céus sobre os quais discutem.

Esse problema não é novo. Originalmente, fazia sentido estar por dentro das notícias do dia, porque isso era diretamente relevante à sua vida cotidiana: previsões do tempo para fazendeiros, acontecimentos locais pela cidade, etc. Mas com a introdução do telégrafo e da fotografia no fim do séc. XIX, de repente podíamos ler sobre — e até mesmo ver —  eventos que não possuem relação com nossas vidas de forma alguma. Isto iniciou uma reorientação sutil das notícias como úteis para as notícias como entretenedoras. As palavras cruzadas se tornaram uma forma popular de diversão na América bem naquele ponto quando o telégrafo e a fotografia tinham alcançado a transformação das notícias de informação funcional ao fato descontextualizado. Essa coincidência sugere que as novas tecnologias viraram a antiga problemática da informação de cabeça para baixo: onde as pessoas antes procuravam informação para gerir o contexto real das suas vidas, agora eles tinham que inventar contextos nos quais informações — de outro modo inúteis — podem ser colocadas para algum uso aparente. As palavras cruzadas é um pseudo-contexto desses; um coquetel é outro; os programas de perguntas e respostas no rádio dos anos 30 e 40 e os game shows modernos da televisão são outros;  e o último, talvez, é o indomitamente sucedido Trivial Pursuit [1].  De uma forma ou de outra, cada um desses exemplos é uma resposta à pergunta: “o que eu posso fazer com todos esses fatos desconectados?” — e de uma forma ou de outra, a resposta é a mesma: “por que não usá-los para diversão, ou entretenimento, ou para se divertir em um jogo?

Como o Postman demonstra, este curso das notícias como importantes para as notícias como curiosidades de entretenimento não é uma coisa nova, mas vem sendo amplificadas pela introdução do vídeo, pela criação das redes de notícias 24 horas, e pela invenção de plataformas de mídia digital como o Twitter e o Facebook, e os sites de notícias políticas.

E os jogadores de sucesso nessa indústria fazem uma fortuna te manipulando emocionalmente, e te deixando com raiva de propósito. Em um artigo engenhosamente intitulado VOCÊ VAI FICAR REVOLTADO COM O QUANTO FOI FÁCIL PARA TE FAZER CLICAR NESSA MANCHETE, o Wired analisou um pouco da ciência por trás do “clickbait”. Eis aqui o que eles encontraram.

Excitação emocional, ou o grau de resposta física que você tem à uma emoção, é um ingrediente chave no comportamento dos cliques. Tristeza e raiva, por exemplo, são emoções negativas, mas a raiva é muito mais potente. “Isso nos incita, nos inflama, e nos compele a tomar uma ação”, diz Berger. Se você já se pegou caindo em clickbaits revoltantes ou gastou tempo lendo ou assistindo algo na força do ódio, você sabe do que Berger está falando. “Raiva, ansiedade, humor, excitação, inspiração, surpresa — todas essas são emoções instigantes  dos quais o clickbait depende”, ele diz. 


Um corpo de pesquisa crescente apoia essa ideia. Em um artigo recente chamado Por trás das últimas notícias: as primeiras impressões importam em notícias online, dois pesquisadores analisaram 69.907 manchetes produzidas por quatro veículos internacionais de mídia em 2014. Após analisarem a polarização de sentimento dessas manchetes (se a emoção primária expressa era positiva, negativa ou neutra), eles encontram que “um escore de sentimento extremo obteve a maior popularidade média.” Eles concluíram que isso não só sugere que notícias fortemente negativas ou fortemente positivas tendem a atrair mais leitores, mas também que “uma manchete tem mais chances [de receber cliques] se o sentimento expresso no seu texto é extremo, para o lado positivo ou o lado negativo.”

Esse é o ponto a que chegamos. As notícias não estão aí para te dizer informações pertinentes sobre a sua vida. Elas estão aí para que você veja algo que deixe com raiva o suficiente para clicar nisso, porque então o site de notícias pode cobrar dos anunciantes pelo tempo que você passou visualizando a página. Elas estão apelando para as suas emoções mais básicas, e te manipulando de maneiras que você talvez nem perceba. Dificilmente é um exagero descrever isso como “revolta pornográfica”, porque a manipulação psicológica é basicamente a mesma que os sites pornográficos de sucesso fazem para provocar a luxúria. A solução para tudo isso, por sorte, é fácil (ao menos em teoria). Solte o controle remoto, clique no X’zinho no canto superior direito, e se afaste da tela (ou ao menos, gaste todo o seu tempo no Joana d’Arc). Tente fazer um jejum de notícias por uma semana (incluindo Facebook, ou quaisquer sejam seus próprios gatilhos), e veja como você se saiu, e como você se sentiu. As chances são de que você não vai ter perdido nada que você realmente precisava.

 

II. Resistindo ao assalto demoníaco

 

A adicção em revolta está intimamente ligada à ascensão do partidarismo, e à perda de confiança entre os dois partidos. Não precisa ser assim, mas é assim que tem sido. Na maioria das questões (raciais, econômicas, religiosas, etc.), não temos visto muito movimento nos últimos anos, ou vimos movimentos em direções positivas em termos de pessoas se unindo. Mas na política, vimos o abismo ficando cada vez maior e o nível de confiança ficando cada vez menor. Então, a revolta pornográfica se beneficia disso (se você odeia o outro lado, você é mais propenso a querer ler sobre que tipo de raça horrível e podre todos eles são) e amplifica isso (uma vez que você sobre que tipo de tipinhos podres horríveis eles são, você confia ainda menos neles, e o ciclo continua). Eu estou agora mesmo no meio das Cartas de um diabo a seu aprendiz do C.S. Lewis, e eu tenho que dizer que sabe qual é a nossa. As cartas são escritas da perspectiva de um demônio (Maldanado) aconselhando outro (Vermelindo, mesmo nome do professor em Calvin and Hobbes) sobre como destruir a alma de um homem. Então aqui temos como a situação espiritual parece, desmascarada:

Todos os extremos, exceto a devoção extrema ao inimigo, devem ser encorajados.  Nem sempre, é claro, mas principalmente nas condições atuais. Algumas épocas são apáticas e complacentes, e o nosso trabalho é deixá-las ainda mais calmas e embalá-las mais rapidamente no sono. Já outras eras, como a nossa, são desequilibradas e inclinadas à facção, sendo o nosso dever inflamá-las. […] Seja qual for a seita que ele adotar, sua tarefa principal será a mesma. Comece por fazê-lo tratar o patriotismo ou o pacifismo como parte de sua religião. Depois, deixe-o, sob a influência do espírito partidário, chegar a se referir a isso como a parte mais importante. Depois, silenciosa e gradativamente, cuide para que ele alcance um estágio em que a religião se torne meramente parte de “causa”, em que o cristianismo passe a ser valorizado principalmente em razão dos argumentos excelentes que é capaz de produzir em favor do esforço britânico em prol da guerra ou do pacifismo. A atitude da qual você deseja se proteger é aquela na qual os assuntos temporais são tratados essencialmente como matéria de obediência. Uma vez que você tenha feito do mundo um fim e da fé um meio, terá quase conquistado o seu homem. E faz muito pouca diferença que tipo de fim mundano ele esteja perseguindo.

Na época em que Lewis estava escrevendo [isso], a Segunda Guerra Mundial estava acontecendo, e havia defesas fortes (tiradas do Evangelho!) feitas por cristãos britânicos tanto do pacifismo quanto do serviço em combate. Mas a questão não era qual defesa de qual lado era melhor. É que ambos os lados se comportaram de uma maneira, em última análise, subvertia Jesus Cristo a um mero meio de resolver políticas internas britânicas. Nós podemos fazer a mesma coisa agora com qualquer um dos grandes debates que estão acontecendo na América (ou seja lá quando e onde você estiver lendo isso). Eu tenho assistido isso acontecer ao meu redor, e eu penso que isso está despedaçando o mundo católico online. O que se iniciou com um debate sobre se votar a favor ou contra o presidente Trump era a resposta católica apropriada se metastatizou em algo muito maior, no qual renomados escritores e apologistas católicos são conhecidos não por suas defesas distintas do Evangelho, mas por suas inflamações políticas. A solução para isso é algo contra o qual Maldanado alerta: uma atitude “na qual os assuntos temporais são tratados essencialmente como matéria de obediência”, e que o mundo é reconhecido como coisa temporária, passageira, como uma espécie de meio para o Céu ao invés do contrário. 

 

III. Observe os frutos

 

Finalmente, nós precisamos fazer um trabalho muito melhor de observação dos frutos espirituais das nossas ações. Eis aqui o que eu quero dizer. São Paulo nos dá dois diagnósticos proveitosos em Gálatas 5,19-24, quando ele diz:

 

Ora, as obras da carne são estas: fornicação, impureza, liber­tinagem, 20. idolatria, superstição, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdias, partidos, invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes. Dessas coisas vos previno, como já vos preveni: os que as praticarem não herdarão o Reino de Deus!

Ao contrário, o fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança. Contra estas coisas não há Lei. Pois os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as paixões e concupiscências.

 

Então vale a pena explorar duas perguntas: como as pessoas que eu acompanho falam e agem? Eles o fazem com inimizade e raiva? Ou eles estão marcados por um espírito de alegria, paz e paciência? E ainda mais importante, como eu fico depois de ler ou assistir o material deles? Isso me enche de amor e de um espírito de bondade? Ou será que eu tenho as marcas da adicção em revolta e das obras da carne? Explore de verdade essa questão em oração se você precisar, e esteja aberta a qualquer coisa que Deus te chamar, mesmo que isso signifique uma mudança total na sua dieta midiática.

 

NOTAS:

[1] Trivial Pursuit é um famoso jogo de tabuleiro criado em 1979 que testa o conhecimento dos jogadores em várias áreas. (Wikipedia)

 

Título original: How the News and Politics is Destroying Your Soul (And What You Can Do About It)
Autor: Shameless Popery – Joe Heschmeyer
Tradução: Symon Bezerra – Methodios Project
Todos os direitos reservados.

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Joe Heschmeyer

Nativo de Kansas City, Joe Heschmeyer é um apologista da equipe do Catholic Answers. Sendo autor, palestrante, blogueiro e podcaster popular, ele ingressou no apostolado em março de 2021, após três anos como instrutor na Holy Family School of Faith em Overland Park, Kan. Atuou como advogado em Washington, D.C., recebeu seu título de Juris Doctor pela Georgetown University em 2010, depois de se formar em história pela Topeka's Washburn University. Mantém parceria agora como colaborador regular do site Catholic Answers, mas também teve uma atuação ampla na apologética antes disso, com um blog em seu próprio site chamado “Shameless Popery”. Até o momento, ele é autor de quatro livros, incluindo Pope Peter e The Early Church Was the Catholic Church.

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Nativo de Kansas City, Joe Heschmeyer é um apologista da equipe do Catholic Answers. Sendo autor, palestrante, blogueiro e podcaster popular, ele ingressou no apostolado em março de 2021, após três anos como instrutor na Holy Family School of Faith em Overland Park, Kan. Atuou como advogado em Washington, D.C., recebeu seu título de Juris Doctor pela Georgetown University em 2010, depois de se formar em história pela Topeka's Washburn University. Mantém parceria agora como colaborador regular do site Catholic Answers, mas também teve uma atuação ampla na apologética antes disso, com um blog em seu próprio site chamado “Shameless Popery”. Até o momento, ele é autor de quatro livros, incluindo Pope Peter e The Early Church Was the Catholic Church.

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